
Um estudo recentemente divulgado pela Fundação Rosa Luxemburgo e pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), coordenado pelas pesquisadoras Julianna Malerba e Verena Glass, revela uma série de pressões sobre assentamentos de reforma agrária no Brasil, no bojo da expansão da fronteira mineral, energética e logística no país. O estudo completo pode ser conferido em:
Conforme apontado pelo estudo, a política nacional de reforma agrária está sendo tensionada por uma lógica concorrente de uso do território, onde a pressão direta de interesses minerários, do setor energético e de infraestrutura atua como vetor de reconfiguração do uso da terra nos assentamentos rurais.
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No contexto das ameaças, destaca-se a pressão das energias renováveis, em particular no Nordeste. A totalidade de assentamentos ocupados por empreendimentos eólicos e solares no Brasil encontra-se no Nordeste, com 89 áreas de reforma agrária diretamente ameaçadas pela ocupação de seus territórios por usinas de energia eólica e solar, através de arrendamentos, cercamentos e pressão fundiária.
Sem autonomia na produção
De acordo com o estudo, 87 complexos de energia eólica já instalados em assentamentos do Nordeste reordenam usos da terra e afetam a autonomia produtiva. Desses, 59 estão localizados apenas no estado do Rio Grande do Norte, além de 9 na Bahia, 9 no Ceará, 8 na Paraíba e 2 de Pernambuco. No total, os complexos eólicos ocupam 9.443 hectares dentro desses assentamentos. Adicionalmente, registra-se a sobreposição de usinas solares em 2 assentamentos localizados no Rio Grande do Norte, totalizando 35 hectares.
O estudo revela que esses projetos estão inseridos em uma estratégia de expansão da matriz energética que não considera os assentamentos como áreas protegidas, o que amplia o risco de deslocamento de famílias e compromete a produção agrícola.
Diante dos resultados apontados pelo estudo, tenciona-se que o cenário apresentado prejudica a autonomia produtiva dos assentamentos, ao redefinir os usos da terra e do território que passam a ser determinados pelas ingerências dos empreendimentos energéticos, que arrendam as terras por décadas.
Além disso, a expansão das empresas nos assentamentos tende a limitar até mesmo a própria concepção de reforma agrária, ao conceder determinadas parcelas da terra para empresas privadas, rompendo com a posse coletiva e comunitária das terras.
Síndrome da turbina eólica
Assiste-se, atualmente, a um alargamento do uso corporativo do território pelos empreendimentos energéticos, que miram os assentamentos do Nordeste – e em particular do Rio Grande do Norte – enquanto áreas passíveis de serem apropriadas e controladas pelo grande capital, desestabilizando modos de vida tradicionalmente estabelecidos e aprofundando toda sorte de desigualdades, além de gerar problemas de saúde, como a síndrome da turbina eólica. Esse mesmo cenário já é observado em áreas de comunidades quilombolas, por exemplo.
Os dados apresentados são preocupantes, pois revelam um cenário já denunciado pelos movimentos sociais e pelas comunidades camponesas, porém ampliam a dimensão ao anunciar a existência de, no mínimo, 89 assentamentos de reforma agrária já ocupados pelos empreendimentos energéticos, em distintos estados do país.
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Todavia, trata-se de uma tendência em crescimento, agravando a vulnerabilidade dessas áreas e desvirtuando seu uso, passando da produção de alimentos para a geração centralizada de energia. O primeiro uso, promove autonomia financeira e segurança alimentar e nutricional para as famílias, ao passo que o segundo resulta numa quebra profunda dos vínculos comunitários e na interrupção da produção de alimentos.
Trata-se, antes de mais nada, de um projeto de morte para a reprodução social do campesinato, visto que a expansão das renováveis está ancorada em práticas colonialistas e neoextrativistas que asseguram a territorialização do capital no campo e a acumulação por despossessão. Além de representar um verdadeiro projeto de contrareforma agrária, diante de deliberadas ações políticas e econômicas que reconfiguram a redistribuição de terras, provendo ainda mais concentração fundiária.
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Leandro Vieira Cavalcante, docente do Departamento de Geografia do Centro de Ensino Superior do Seridó, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte










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