Como as mídias afetam a todos e a cada um – parte 3 Artigos

quinta-feira, 13 agosto 2020

A morte e a força dos símbolos: de um ponto de vista cultural, esquecer a morte e os mortos é abandonar o que nos constitui como humanos e que nos permite sustentar a vida.

(Por Josimey Costa da Silva)

Leia a segunda parte do artigo

A morte sempre esteve aqui, é que nós nos esquecemos disso. Morin nos lembra que a ordem viva se alimenta da desordem e a morte se inscreve profundamente em nosso viver. Em torno da morte, nosso desenvolvimento civilizacional construiu um arcabouço simbólico, mítico e mágico no intuito de superá-la.  A emergência do duplo, que é nossa capacidade de replicar a realidade em formas de equivalência mental, simbólicas, participa desse processo. A morte e o duplo são produtos de nossa consciência e nos remetem ao fato de que o universal está sempre por baixo do particular: cada um de nós simboliza, mas todos simbolizamos; cada um de nós morre, mas todos morremos. Na verdade, simbolizamos porque estamos conscientes de que a morte nos ronda a todos, embora a morte seja uma experiência sempre singular.

Do ponto de vista antropológico, a morte inaugura a cultura ao prolongar a vida por meio de rituais e pela eternização da imagem dos mortos. Estamos de novo diante do paradoxo: a imagem que duplica a realidade, também se aparta da sua fonte material; representa alguém ou algo sem ser esse alguém ou esse algo e, por isso, é também o atestado da ausência da coisa ou do ser. Com a negação da morte pela emergência do duplo, do símbolo, também surge o atestado inegável de que a morte de fato aconteceu, mas surge igualmente o consolo pelo que a morte levou.  A substituição do morto por seu símbolo admite a sua morte, mas torna o morto sempre presente, menos morto,  Dito de outra maneira: o que eterniza simbolicamente a vida é o que surge da morte.

A morte que inaugura a cultura é instrumentalizada pelas sociedades capitalistas em prejuízo da existência humana. Para Baudrillard, a sexualidade (a pulsão direcionada ao outro ou pulsão de vida) é objeto de um erotismo exacerbado nas sociedades contemporânea, o que acaba por transformá-la em outra coisa, dentro de uma lógica de constante de transformação cultural em que os símbolos se tornam simulação e simulacro. Do mesmo modo, há toda uma economia política relacionada à morte, começando com as práticas de extradição dos mortos, que não são mais velados ou cultuados na intimidade doméstica, mas vão para necrotérios, centros de velório, cemitérios e são objeto do lucro alheio. O uso comercial do sexo e da morte exige e resulta em controle dos corpos, um controle que o capitalismo contemporâneo realiza por meio do biopoder que se exerce pela anátomo-política e pela biopolítica, como indicou Foucault em vários dos seus livros e cursos. Controlando os corpos e a morte, chegamos à necropolítica, sobre o que Márcia Tiburi discorre num vídeo da TV 247.

Como estamos vendo, muito antes da COVID19, o capitalismo já controlava nossas mortes e criava as condições para que nos distanciássemos dos nossos mortos. Muito antes da pandemia, já nos entorpecíamos de tranquilizantes e soníferos para não viver nenhum luto e nunca enterrar nossos mortos. Precisamos pensar o que significa esse nosso distanciamento da força simbólica poderosa que a morte representa. Como isso nos esvazia simbolicamente? E como esse esvaziamento simbólico se presta ao controle dos nossos corpos e das nossas mentes? Hoje temos muitos entorpecentes simbólicos à nossa disposição, numa contínua profusão de imagens vazias que não deixa espaço para os nossos pensamento. Esses entorpecentes nos dotam com a capacidade de suportar. Suportar o quê? E que tipo de entorpecimento nos atinge particularmente?

De um ponto de vista cultural, esquecer a morte e os mortos é abandonar o que nos constitui como humanos e que nos permite sustentar a vida. Ao pretender uma negação completa da morte, ao pretender a sua inexistência total, não podemos simbolizá-la. E se não podemos simbolizar a morte, estamos impedindo a própria simbolização. Quando não simbolizamos, não dotamos de sentido a nossa realidade. Quando não encontramos sentido, nos esvaziamos a nós mesmos. Só que não podemos existir vazios; algo vai preencher esse vácuo sígnico com simulacros, ou seja, símbolos que não correspondem a significados com algum  sentido existencial para nós. É o que está acontecendo hoje, especialmente quando dirigimos nosso olhar para as periferias brasileiras, em que a ausência do Estado permitiu o avanço gigantesco de seitas neopentecostais, que prestaram a assistência de que necessitavam os muito pobres em troca de um controle autoritário e moralista das consciências.

A força dos símbolos é tal que Pross pondera que não temos acesso às coisas em si mesmas, mas percebemos as coisas todas do mundo e as trazemos à nossa consciência mediante os símbolos com os quais as representamos. A realidade objetiva é, antes de mais nada, a captação e a manifestação da nossa subjetividade em formas simbólicas. Mas atenção: os signos têm materialidade, “produzem sensação, prestígio e compreensão” e modificam a realidade objetiva com a concretude de sua existência para nós. Não apreendemos os signos como mera abstração; para nós, os signos são coisas e aí que reside a sua eficácia simbólica. Se não fossem tomados como as coisas em si mesmas, como se fossem elas próprias e não a sua representação, os símbolos deixariam de ser símbolos, já que não poderiam equivaler às coisas que representam. Para simbolizar, acionamos o nosso pensamento mágico, não o lógico e racional. Assim, o que é mais simbólico e mais forte materialmente como signo é exatamente aquilo que nós não podemos perceber como símbolo. É por isso que as palavras ferem, as sentenças condenam e os falsos mitos assumem o poder e o mantêm – pela força que os símbolos têm de alterar a própria realidade.

A discussão continua na quarta parte desta série de quatro artigos.

Leia a primeira parte do artigo

Referências

MORIN, Edgar. O homem e a morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

BAUDRILLARD, Jean. A troca simbólica e a morte. São Paulo: Edições Loyola, 1996 (original publicado em 1976).

Cf. os três volumes de “A história da sexualidade: I – A vontade de saber (1980), II -O uso dos prazeres (1984) e III – O cuidado de si (1985), todos publicados no Rio de Janeiro pela Graal.

Márcia Tiburi

PROSS, Harry. Estructura simbólica del poder. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1980.

Josimey Costa da Silva é doutora em Ciências Sociais/Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e pós-doutora em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECOPÓS/UFRJ). É pesquisadora e docente nos programas de pós-graduação em Estudos da Mídia (PPGEM/UFRN) e em Ciências Sociais (PPGCS/UFRN). É membro do Grupo de Estudos Transdisciplinares em Comunicação e Cultura (Marginália/UFRN/CNPq), integrando a linha de pesquisa Comunicação urbana, corpo, estética e imagem. Também poeta e escritora de contos com diversas publicações.

Nossa Ciência firmou parceria com a Saiba Mais – Agência de reportagem e jornalismo independente do Rio Grande do Norte.

Josimey Costa da Silva

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