Firehosing e a estratégia da mentira Artigos

sábado, 16 novembro 2019

Autor analisa como a propaganda política está usando a estratégia de disseminação de mentiras intencionais disparadas em diferentes canais de comunicação

Por Homero Costa

Firehosing significa o ato de apagar um incêndio, como um bombeiro pode apagar um incêndio, encharcando-o com uma grande quantidade de água, ou seja, o fluxo de uma mangueira com grande quantidade de água usada para apagar incêndio.
No artigo Firehosing: por que fatos não vão chegar aos bolsonaristas publicado na edição 137 do Le Monde Diplomatique por (14 de Janeiro de 2019) Renan Borges Simão uso do termo para se referir a uma estratégia de fluxo contínuo e repetitivo, com um grande volume de mensagens com mentiras intencionais disparadas por diferentes canais.

Trata-se, portanto, de uma estratégia de disseminação de mentiras usadas como propaganda política.  O termo passou a ser utilizado como este sentido depois dos resultados de um estudo feito por pesquisadores norte-americanos nas campanhas eleitorais presidenciais na Rússia que deram a vitória a Vladimir Putin (ele se tornou Primeiro-ministro de Agosto de 1999 a Maio de 2000, eleito presidente em Maio de 2000 e reeleito desde então (a mais recente foi na eleição de 18 de março de 2018). Em suas campanhas foi constatado o uso de uma nova forma de propaganda política, que os autores da pesquisa chamaram de Firehosing, concebida como uma “técnica de propagação de mentiras em larga escala e em um fluxo constante, com o objetivo de afogar a opinião pública com mensagens e conseguir o monopólio da primeira impressão sobre determinados assuntos”.

Resumidamente é uma estratégia (e estrutura) de comunicação que dissemina notícias falsas, especialmente nas redes sociais, usadas com eficácia nas campanhas presidenciais e não apenas na Rússia.

Uma das estratégias utilizadas é a criação de polêmicas efêmeras, visando confundir e desviar o foco de questões relevantes como, por exemplo, o passado do candidato, propostas polêmicas ou, quando no governo, sobre o desempenho (ou falta de) iludindo milhões de pessoas com falsidades, consolidando crenças que são consideradas como combustíveis para o firehosing.

Em novembro de 2018 foi disponibilizado no youtube o vídeo Por que mentiras óbvias geram ótima propaganda. Segundo a matéria do Le Monde, o vídeo foi baseado no artigo “The Russian ‘Firehose of Falsehood’ Propaganda Model” (2016), do think tank norte-americano Rand Corporation e descreve o funcionamento da máquina de propaganda e como as mentiras contínuas e sistemáticas foram assimiladas.

Além do uso intensivo das redes sociais, o estudo mostra como são utilizados os noticiários de TV e web e “trolls” de internet (financiados) cujo objetivo é o de “entreter, confundir e cansar” as pessoas.  Não é necessário checar fatos e a repetição de mensagens tem o mesmo teor ideológico, querendo com isso gerar mais credibilidade e cujo processo “se intensifica quando sentimentos de aversão, medo e felicidade são suscitados pelas mensagens disfarçadas de notícia”.

Podem ser usadas  também outras ferramentas que permitem  manipulação. No artigo Como o Google favorece a manipulação política, publicado no site Outras Palavras, Patrick Berlinguette afirma que o google construiu um mecanismo, que ele chama de roteiro, que ensina, passo a passo, “como criar seus próprios anúncios de redirecionamento para influenciar qualquer crença ou opinião – de qualquer usuário em qualquer lugar do mundo”, ou seja,  a possibilidade de se usar uma ferramenta para segmentação da plataforma e redirecionamento, não apenas de anúncios mas também pode ser usada para influenciar as convicções políticas das pessoas durante uma eleição.

Quais as estratégias mais eficazes para combater as mentiras? Apenas rebatê-las, ao que parece, não tem surtido efeito porque, como se sabe, elas são direcionadas justamente para quem acredita nelas, sem chegar sua veracidade. No livro Sublimar: como o inconsciente influencia nossas vidas (Editora Zahar), Leonard Mlodinow investiga como o inconsciente modela o comportamento das pessoas e determina muito de suas decisões e juízos. Para ele o cérebro “influencia nossa experiência consciente do mundo de um modo fundamental – a maneira como nos vemos e aos outros, o significado que atribuímos aos eventos da nossa vida cotidiana, nossa capacidade de fazer julgamentos rápidos e tomar decisões (…) as ações que adotamos como resultado de todas essas experiências instintivas”.

No entanto, na política, o uso sistemático de mentiras pode ser uma estratégia com efeitos colaterais, especialmente quando associados à inabilidade política dos que disseminam e se beneficiam das mentiras e além delas, às vezes fomentando ódios e criando inimigos, inclusive em sua própria base de apoio.

Um dos problemas da difusão sistemática de notícias falsas é que nas redes sociais elas são muito mais rápidas do que fatos verificáveis e os desmentidos não tem a mesma rapidez e eficácia. E quando dirigidas para seguidores, são sem contestação, apelando mais para as emoções do que para os fatos.

Em relação às redes sociais e mais especificamente ao WhatsApp, uma reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo em 18 de outubro de 2018, mostra, de forma documentada, que foi usado na campanha eleitoral por empresas para disparos de centenas de milhões de mensagens anti-PT e que certamente teve impactos eleitorais, especialmente considerando uma pesquisa (Datafolha) publicada no dia 26 de outubro de 2018 ao constatar que metade do eleitorado que usava o WhatsApp (66%) dizia acreditar nas notícias que recebiam pelo aplicativo e revelou ainda que 85% dos eleitores de Jair Bolsonaro acreditaram na informação falsa de que Fernando Haddad, candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT) havia distribuído um “kit gay” para crianças em escolas quando era ministro da Educação, e isso foi usado também em uma entrevista dada pelo então candidato Jair Bolsonaro em rede nacional (Jornal Nacional, da rede Globo) para milhões de pessoas.

Ao investigar a bem-sucedida estratégia eleitoral de Bolsonaro, Tatiana Roque e Fernanda Bruno, professoras da UFRJ, no artigo Fenômeno da pós-verdade transformam os consensos já estabelecidos, publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 18 de novembro de 2018, afirmam que “Uma chave para entender o funcionamento da estratégia no Whatsapp está nas relações de confiança que sustentam os grupos – relações que vêm sendo construídas ao menos desde 2014 e a partir de interesses que não se restringem à política”.

Para elas, discursos como o do “kit gay”, não se alastram apenas por desinformação, volume de mensagens ou falta de checagem factual, mas por carregarem crenças e valores alinhados a certos seguimentos da população, que aceitam sem questionar a veracidade. O objetivo foi o de enviar mensagens para grupos com maior propensão a absorvê-las e repassá-las adiante, segmentando mensagens para grupos de afinidades (amigos, familiares etc.) utilizando mecanismos para envio direcionado de conteúdo e importante salientar, feito de forma voluntária. Assim “A propagação de uma mensagem é mais efetiva quando feita por pessoas com as quais as outras se identificam, e não por agentes facilmente reconhecíveis como propagadores interessados”.

Quanto às Fakenews, é fato que tiveram um papel importante na eleição, mas na avaliação delas não necessariamente porque as pessoas “acreditaram ingenuamente em notícias produzidas pelo aparato de campanha do candidato”. A confiança gerada pelas técnicas de comunicação de Bolsonaro criou um ambiente de credibilidade que favoreceu a circulação de mensagens com conteúdo que confirmou crenças e valores prévios (verdadeiros ou falsos) e que continuaria a ser mobilizado para aquecer as pautas do governo.
Segundo as autoras, mostrar a falsidade da notícia pode ser uma estratégia política pouco efetiva, além de excessivamente defensiva. Na política, dizem, e mais ainda que na ciência “o combate à desinformação e a disputa de posições não podem se contentar com a defesa de critérios de objetividade. Um novo regime de credibilidade e de evidências pode estar mobilizando um grande número de pessoas a adotar posições políticas estranhas aos modos tradicionais de argumentação na esfera pública (que é também um componente da democracia). Para que haja uma contraposição à força da extrema direita, vai ser preciso construir uma alternativa convincente, que repactue os critérios tradicionais da produção de consensos e enfatize os valores que levariam mais pessoas a apostar nessa opção”.

Qual a alternativa não apenas convincente, mas também possível de ser viabilizada?  O uso das redes sociais da forma como tem sido feita não expressa o fim das mediações dos partidos políticos e assim a fragilização do regime democrático representativo? Como argumentam, no embate contra a banalização da democracia, mais vale fortalecer crenças e uma alternativa seria propor uma nova forma de argumentar combinando “uma boa dose de crenças e valores mais favoráveis à vida coletiva do que contra-atacar com a lupa da objetividade”.

Referências:

Vídeo Por que mentiras óbvias geram ótima propaganda.
Artigo Como o Google favorece a manipulação política

Livro Sublimar: como o inconsciente influencia nossas vidas

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Homero de Oliveira Costa é Professor Titular (Ciência Política) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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