Sobre a estupidez Artigos

quinta-feira, 27 agosto 2020
Foto: Gamma-Keystone/ Getty Images

A estupidez afeta eleições, por exemplo, quando pessoas estúpidas elegem um governante despreparado, que cultua armas e ódio em vez de livros e paz, defensor de tortura e ditadura

(Por Homero Costa)

A estupidez é definida no dicionário Houaiss como “palavra, ação, procedimento de pessoa estúpida, sem discernimento ou senso”. E também como “grande indelicadeza, incivilidade; grosseria, descortesia”. Nesses termos é diferente de ignorante ou inculto. É difícil de medir e que atinge também pessoas inteligentes que também podem ter um comportamento estúpido.

No entanto, uma das características da estupidez é ser refratário a argumentos racionais. São cegos e surdos às evidências que contrariem as suas opiniões e crenças.

O tema foi objeto de reflexões do historiador e professor da Universidade de Berkeley Carlo M. Cipolla que publicou na Itália em 1976 o livro “As leis Fundamentais da Estupidez Humana”, publicado depois em vários países e no Brasil em 2020 pela editora Planeta, com tradução (a partir do original em inglês) de Edmundo Barreiros.

Para Cipolla existem cinco leis fundamentais da estupidez humana:

1ª “Todo mundo subestima sempre e inevitavelmente, o número de indivíduos estúpidos em circulação”; (um escrutínio atento revela sua veracidade realista e que pessoas que se julgavam ser racionais se revelam escancaradamente estúpidas).

2ª “A probabilidade de determinada pessoa ser estúpida independe de qualquer outra característica sua” (não tem a ver, por exemplo, com nível de escolaridade). Segundo ele, também se encontram estúpidos nas universidades e até mesmo uma fração dos premiados com o premio Nobel…, também não há preferência de gênero: há tantos estúpidos entre homens como em mulheres ou grau de desenvolvimento de um país: há pessoas estúpidas tanto em países desenvolvidos como subdesenvolvidos, enfim, é uma “qualidade” humana, universal e permanente.

3ª “Uma pessoa estúpida é uma pessoa que provoca perdas para outra pessoa ou um grupo de pessoas enquanto não obtém nenhum ganho para si mesmo, e possivelmente incorre em perdas.” O autor distingue o estúpido do bandido. Este pratica uma ação em que sai ganhando e o outro perdendo. Com o estúpido, não. O outro ganha e ele sai perdendo.

4ª “Pessoas não estúpidas sempre subestimam o poder de causar danos dos indivíduos estúpidos. Em particular pessoas não estúpidas se esquecem constantemente de que em todo momento e lugar, e sob qualquer circunstância, lidar e/ou se associar com pessoas estúpidas resulta infalivelmente em um erro altamente custoso”.

E finalmente a 5ª é a afirmativa de que o estúpido é o tipo mais perigoso de pessoa.

Há um capítulo em que ele trata da Estupidez e Poder e afirma que o potencial de dano depende do fator genético (“herdando doses excepcionais do gene da estupidez”) e também está relacionado à posição de poder e importância que ela ocupa na sociedade. Diz: “Não é muito difícil encontrar entre burocratas, generais, políticos e chefes de Estado exemplos claros de indivíduos basicamente estúpidos, cuja capacidade de causar danos era (ou é) aumentada de forma alarmante pela posição de poder que ocupavam (ou ocupam)”, e ainda que “Dignitários religiosos não devem ser esquecidos”.

Sobre estes últimos, no livro O discurso da estupidez (Editora Iluminuras, 2020) o psicanalista Mauro Mendes Dias se refere, entre outros aspectos, ao que chama de mercado religioso e as estruturas que o mantém, afirmando que quando a religião é instrumentalizada e transformada em seitas (por dignitários religiosos) torna-se o lugar em que a estupidez como política encontra solo fértil e em lugar em que “disseminam seus princípios e realizam pactos sinistros”.

Esse pacto pode ser com populistas que usam a religião para se elegerem e depois fazem concessões aos que contribuíram para influenciaram os votos e assim manter a aliança.

Um dos conceitos importantes formulados pelo autor no livro é o de vociferação, que significa alarido, gritaria, berreiro, mas também impropério, insulto. Mas ele o relaciona a estupidez no sentido de que quem grita não ouve: é a recusa do diálogo e a imposição do silêncio do Outro. Daí que todos que participam de seitas são vociferantes porque consentem e abdicam da própria voz. Não pode escolher porque tudo já está definido e decidido. Eles apenas aderem e obedecem.

Nesse sentido, a estupidez tende a crescer com maior força em solos adubados pelo ódio “ela mobiliza e cativa os seres humanos pelos ódios porque a ignorância é sua eterna companheira”.

Entre os autores citados por Mauro Dias no livro, para fundamentar sua análise sobre o discurso da estupidez, o autor cita, entre outros, Carlo Cipolla (“As leis fundamentais da estupidez humana”), Artur Schopenhauer (“Como vencer um debate sem precisar ter razão”, publicado no Brasil  pela Editora Topbooks, 1997 e  também com o título “A arte de ter razão (Martins Fontes, 2001) e “38 estratégias para vencer qualquer debate. A arte de ter razão”, Faro Editorial,  2014), Freud (“Sobre o início do tratamento”), Lacan (“O saber do psicanalista”, “O avesso da psicanálise”, “Os complexos familiares”), Amós Oz (“Contra o fanatismo”), Jacques Rancière (“O ódio à democracia”), Victor Klemperer (“LTI – A linguagem do Terceiro Reich”) e Eugène Ionesco, com a peça teatral O rinoceronte.

Para fins deste artigo, destacaria dois: a peça de Ionesco e o livro de Victor Klemperer.

A peça de Ionesco, O rinoceronte, foi escrita em 1957, é um clássico do teatro contemporâneo. Trata-se de uma trama em três atos ambientado em uma vila na qual os habitantes vão se transformando em rinocerontes, por vontade própria, com exceção de um casal que resiste ao processo de desumanização. A peça é interpretada como uma parábola do nazismo e a adesão entusiasta das massas (não apenas na Alemanha, como também em outros países, como a Áustria, por exemplo). Essencialmente é sobre como uma multidão pode aderir à estupidez e a barbárie.

Para Mauro Dias, a peça não apenas mostrou o que ele chama de cativação em massa “pela destruição do humano em seu corpo e em sua conduta de falante, como também revelou uma cegueira e uma surdez ativa para a aproximação e incorporação do animal”.

Quanto ao livro LTI A linguagem do Terceiro Reich de Victor Klemperer (1881-1960) (publicado inicialmente na Alemanha em 1947 com o título Anotações de um filólogo, e em edições posteriores com o título LTI A linguagem do Terceiro Reich, que é o título da edição publicada no Brasil em 2009 pela editora Contraponto, com tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner). Filólogo e vítima do nazismo (preso em um dos campos de concentração) ele analisa com detalhes a forma como a linguagem foi utilizada pelos nazistas e assimilada pela população. O nazismo “se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões ou frases, impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas mecanicamente”.

Num capítulo intitulado A linguagem do vencedor diz que “não usamos impunemente a linguagem do vencedor. Acabamos por assimilá-la e passamos a viver conforme o modelo que ela nos dá”. A ideia é a de que o nazismo se consolidou quando dominou (e impôs) a linguagem.

Há muitas possibilidades de conhecer as consequências da estupidez. Como diz Mauro Dias, a estupidez como modalidade do discurso não é novidade na História da humanidade. O problema hoje é que ela se expande como política. Em eleições, por exemplo, quando pessoas estúpidas (às vezes enganadas, mas como são estúpidas não percebem) elegem, por concordar ou por serem vítimas de mentiras, um governante despreparado, ignorante, violento (que cultua armas e ódio em vez de livros e paz), defensor de tortura e ditadura, e cujo governo, que os estúpidos ajudaram a eleger, pode se voltar contra eles que, por serem estúpidos, não conseguem relacionar e muitas vezes continuam apoiando. Embora possa encontrar estúpidos entre governantes, normalmente estes não são estúpidos, apenas usam da esperteza e se aproveitam dos estúpidos para se elegerem.

Iury Tavares (mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa) no artigo A estupidez como regra (A terra é redonda, 21/4/2020)  se refere ao debate público no Brasil que “parece ser conduzido ora pela irracionalidade ora pela canalhice” e  ainda a “estupidez que reduz viver a produzir é a mesma que, diante da finitude inescapável da vida, rouba a dignidade da morte”. Segundo ele o presidente, entre outros aspectos, estimula a vulgarização do debate sobre o uso da cloroquina e que “como tudo o que é sugado pelo bolsonarismo, é contaminado pela estupidez”.

No artigo O verdadeiro fascismo e, portanto o verdadeiro antifascismo de Pierre Pasolini (Escritos Corsários, editora 34), citado por Mauro Dias, ele pergunta: O que significa conversar com o fascismo da estupidez? Ou ainda “Como fazer para conversar com quem não está disposto ao diálogo”? É resposta difícil porque é um diálogo impossível porque uma das características da estupidez é a intolerância e ser refratário a argumentos racionais. O livro O discurso da estupidez conclui se referindo ao livro de Yascha Mounk O povo contra a democracia (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2018) o qual afirma no prefácio à edição brasileira que “Salvar uma democracia de um populista perigoso é como correr uma ultramaratona – e você acaba de transpor o primeiro quilômetro”. E, como diz Mauro Dias isto “é um alerta admirável que permite situar o trabalho que existe pela frente, com a seguinte ratificação: as baratas, as crenças, os rinocerontes e os estúpidos não irão desaparecer da face da terra” e certamente concordando com um dos maiores gênios da humanidade de todos os tempos, Albert Einstein que afirmou: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez  humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta” Die Philosophin – Volume 7, Edição 13 -Volume 8, Edição 16 – Página 60, Edition Diskord, 1996.

Referência

Pensador

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Homero de Oliveira Costa é Professor Titular (Ciência Política) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Homero de Oliveira Costa

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