2020: Marte e a desigualdade Ciência Nordestina

terça-feira, 31 dezembro 2019

Ano novo chegando e com ele a tarefa de com menos recursos fazer da ciência uma ferramenta de inclusão para o povo

2020 se aproxima tal qual previram (em parte) os filmes de ficção científica: inteligências artificiais que aprendem mais a cada dia, dispositivos de monitoramento por todos os cantos do planeta, viagens à Lua… E em breve estações lunares e passeios até Marte. O clima também mudou. A natureza foi atacada para além do que se poderia, embora o protocolo de Kyoto já previsse tudo isso. Vivemos tempos de pouco amor: a espécie humana parece sentir prazer na dor alheia. Era assim nos tempos do Império Romano e nos sacrifícios praticados por diferentes religiões.

Mas o que mais impressiona nos tempos atuais é o quanto de tecnologia que foi criada na contramão do tanto de desigualdade social – isso não estava nos filmes de ficção científica.

As pessoas visualizavam um futuro em que tecnologia fosse acessível a todos. Só que vivemos tempos de profunda exclusão social. Ao mesmo tempo em que as mais modernas tecnologias de imagem são processadas em hospitais privados temos crianças pobres que morrem por não ter o que comer.

A necessidade de mão de obra barata escraviza nações inteiras e leva milhões a condições precárias de existência. Em um planeta de profundas assimetrias intencionalmente plantadas, surge a questão:

– A quem serve a tecnologia?

Eu diria que, como sempre, a tecnologia serve aos detentores do poder econômico.

O exemplo clássico vem da carta de Albert Einstein ao presidente Roosevelt, quando o mesmo alerta da possibilidade de produção de bombas poderosíssimas à base de Urânio nos Estados Unidos. O resultado desta pesquisa foram as inúmeras mortes em Hiroshima e Nagasaki pela bomba atômica. É possível que a célebre frase do próprio Einstein seja uma referência a este momento: Há duas coisas infinitas, o universo e a estupidez humana. E não estou certo quanto ao universo.Daí a correlação entre o avanço tecnológico e o aumento na desigualdade social. A ciência a serviço do poder econômico.

Este é, de fato, o paradigma central a ser quebrado. O desenvolvimento de uma ciência socialmente referenciada depende dos financiadores, mas essencialmente de quem faz a ciência acontecer. A inclusão da responsabilidade social entre os ingredientes que movem a ciência no Brasil precisa ser norteadora de ações que reduzam a distância entre as classes sociais. A tecnologia precisa estar à disposição do povo que pelos impostos mantêm as pesquisas. E em tempos de anticientificismo esta tarefa se torna ainda mais dura: com menos recursos precisamos fazer da ciência uma ferramenta de inclusão para o povo.

Impossível? Não. A ciência sempre surpreende. E que neste caso seja pelo povo.

Referência:

Carta de Einstein a Roosevelt

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Leia o texto anterior: Esperança

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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