A ciência e a fome Ciência Nordestina

terça-feira, 15 fevereiro 2022

Os cientistas precisam dedicar um pouco do seu tempo a quem está morrendo de fome

Ciência vem do latim scientia, que significa conhecimento – saber. E a busca por conhecimento não é nova. Desde o despertar da consciência humana sabemos que há a busca por respostas a perguntas essenciais. De forma sistemática, desde os tempos da Mesopotâmia e Egito Antigo são conhecidos resultados de investigações científicas que resistiram ao tempo. Uma visita aos sítios arqueológicos de Machu Pichu ou às pirâmides de Gizé garante um rol de constatações científicas para além dos séculos.

Com o tempo, a pesquisa convencional foi se tornando mais restrita e fechada aos centros de pesquisa e universidades espalhadas pelo planeta. As perguntas que financiam estas pesquisas também passaram para poucas mãos. E chegamos ao século XXI com um nível de sofisticação incrível para a ciência (que consegue manipular átomos – como outrora sonhou Feynman) mas com uma pobreza de horizontes pra enfrentar o que realmente interessa típico de quem quer lucrar com o petróleo até a última gota. Provas para isso são inúmeras: a escassez de novos antibióticos (que ajudam na propagação das superbactérias), a explosão das doenças negligenciadas, as mudanças climáticas, entre outras. A chave do cofre dita primariamente os caminhos da ciência.

Mais especificamente, o retorno do Brasil ao mapa da fome é uma realidade que deveria incomodar a todos os brasileiros. E a ciência brasileira não pode permanecer estática, a aguardar chamadas de agências de fomento informando linhas de financiamento para o combate à fome. Com a chave do cofre no domínio de poucos, este quadro pode até ser conveniente a quem manipula os rumos dos laboratórios e das pesquisas.

O fato é que o agravamento do distanciamento entre a ciência e a realidade negligenciada faz com que os cientistas (financiados pelo povo) deixem de servir ao povo para serem terceirizados pelos interesses dos donos do poder.

Admito que a solução para o problema da fome não é simples. E não falo aqui em distribuição de cestas básicas (esta é a solução para o tempo t=0). Falo no amanhã, na semana que vem, no futuro dos filhos de quem passa fome… Como um físico teórico pode se juntar a um pedagogo e a um enfermeiro e dialogar sobre esse problema?

Falamos exaustivamente de trans-, inter- multidisciplinaridade… E quando encontramos o tema que interessa dizemos que não é nossa formação. Escondemos a nossa incompetência na falta de financiamento… Ora, os verdadeiros ricos querem manter isso aí, evidentemente. A mão de obra de quem passa fome é baratíssima. Não haverá edital para fazer engenheiro pensar no fim da fome. A fome é conveniente para alguns.

E nós, cientistas, o que faremos?  Continuaremos servidores de quem financia a ciência fofinha que é feita em inglês ou dedicaremos um pouco de nosso rico tempo a quem está morrendo de fome?

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Leia o texto anterior: Volta às aulas e a ômicron

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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