Incubadoras universitárias: indo na contramão Empreendedorismo Inovador

quarta-feira, 27 fevereiro 2019

As incubadoras universitárias, pelo menos no Brasil, contrariam os princípios que impõem às respectivas startups

Nossa conversa de hoje será um pouco menos simpática, pois pretendo focar não em startups, como venho fazendo corriqueiramente, mas em suas respectivas e principais instituições de apoio, as famosas incubadoras. Será um passeio crítico, com “cenas fortes”. Recomenda-se cautela e suco de maracujá em algumas passagens.

O conceito formal de incubação de empresas, teve início nos EUA em 1959, quando Joseph Mancuso abriu a Batavia Industrial Center em um armazém situado na cidade de Batavia, Nova Iorque. Esse processo expandiu-se na década de 1980 nos EUA e logo se espalhou pelo Reino Unido e Europa em vários formatos diferentes: centros de inovação, polos de pesquisa, parques tecnológicos e por aí vai, segundo a Wikipedia.

No Brasil, as primeiras incubadoras surgiram a partir da década de 80, quando por iniciativa do então presidente do CNPq, Professor Lynaldo Cavalcanti, cinco fundações tecnológicas foram criadas: em Campina Grande (PB), Manaus (AM), São Carlos (SP), Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC). Lá se vão então quase 40 anos.

Segundo a Anprotec, associação nacional criada em 1987 – que articula a política dos ambientes de inovação do país, as incubadoras universitárias de empresas, ou simplesmente incubadoras, têm como objetivo “abrigar empresas inovadoras frutos de projetos de pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico”. Nelas, a universidade busca fornecer um ambiente propício ao desenvolvimento da empresa, dando assessoria empresarial, contabilística, financeira e jurídica, além de dividir entre as várias empresas lá instaladas os custos de recepção, telefonista, acesso à Internet etc., formando um ambiente em que essas empresas selecionadas têm maior potencial de crescimento. Segundo a Anprotec, o Brasil conta hoje com 369 incubadoras de empresas, cerca de 90 iniciativas de parques tecnológicos e 35 aceleradoras.

Como não consegui os dados nacionais, nem tão pouco os do RN (não por falta de procura, mas por dificuldade em encontrar publicações que descrevessem diretamente a caixa preta de suas receitas e despesas), vou fechar o escopo no âmbito local, na experiência absorvida, no sentimento percebido como um dos criadores do sistema de incubação da UFRN. Atuarei aqui como um dos mentores e relator da resolução CONSEPE 054/2011 que criava esse sistema; ex-representante Anprotec na UFRN, ex-gerente executivo da INOVA Metrópole; atual gerente executivo da inPACTA e membro ativo da REPIN, Rede Potiguar de Incubadoras.

Não irei deter-me em uma instituição específica. Falarei de forma geral. Como homem público, fico à disposição para o contraditório, já que nunca agi diferente. Minha mãe sempre diz: quem fala o que quer, ouve o que não quer. Gostaria muito de ouvir diferente! Vamos lá então.

A coisa não tá boa…

O conceito pretendido de “apoiar empreendimentos nascentes” é nobre e deveria ser buscado como missão, já que copiamos muito dos cases de sucesso, como deveria ser. Entretanto, para transformar o Silicon Valley no que ele é hoje, houve muitos investimentos financeiros e científicos, garantidos pelo Departamento de Defesa Americano e pelas poderosas Universidades Stanford e MIT. O retorno, da ordem de trilhões de dólares, pode ser visto em vídeo produzido pela Endeavor “O Empreendedorismo nas Universidades Brasileiras 2017” , no qual é mostrado que 30.000 empresas fundadas por egressos do MIT estavam ativas em 2014, empregando 4,6 milhões de pessoas e gerando receita anual de U$ 1.9 trilhões, receita um pouco maior do que o PIB do Brasil de 2015, resultado de uma forte cultura empreendedora entre discentes, docentes e Mercado.

Print do Video da Endeavor: “O MIT e a Cultura Empreendedora”

E é aí que a coisa degringola no Brasil. Primeiro, grifei a frase “frutos de projetos de pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico” lá em cima, depois “científicos” no meio e “forte cultura empreendedora entre discentes, docentes e Mercado” aqui em baixo, porque é por estes motivos, os projetos científicos e a amarração discente-docente-Mercado que as incubadoras universitárias são chamadas de incubadoras universitárias. Parece redundância, mas não tenho outra forma de me expressar.

É indiscutível o papel das incubadoras na geração de empreendimentos sustentáveis (Carreira: onde buscar ajuda – revista Exame) e é verdade que começaram, assim como as startups, sem pensar muito na sustentabilidade. Entretanto, o modelo começou a ficar insustentável, principalmente quando se pensa que estes entes deveriam ser o exemplo de puro empreendedorismo.

Já que não podem aumentar suas receitas e deveriam servir de molde para “as próprias crias”, as startups, partindo do princípio de antissistema, descrito na coluna O Anti-Sistema: gerando ideias para startups em 60 segundos, as incubadoras deveriam peremptoriamente trabalhar a redução de seus custos de modo a se viabilizarem. Se não a médio, a longo prazo. Então, utilizando o corolário básico “O produto não pode sair melhor do que o molde que o produz”, não preciso ir além para dizer o caminho a ser percorrido pela incubadora: é preciso mostrar que faz o que prega!

O que tá pegando?

Nesses quase 40 anos, de uma forma geral (com certeza existem exceções), as incubadoras universitárias made in Brazil, ainda não consolidaram determinados aspectos:

  • Flexibilidade em processos de gestão. Embora tentativas da Anprotec com seu modelo de maturidade CERNE tenham melhorado em muito os indicadores das incubadoras, o mesmo não é percebido nem “nos” nem “pelos” incubados (startups). Um exemplo explícito está na não utilização da “nuvem”, da falta de BI (https://nossaciencia.com.br/colunas/professor-o-que-e-biai/). A coisa ainda roda na base da dupla interiorana Excel-Papel. Interiorana no sentido de “interior do escritório”.
  • Reciclagem ágil em seus próprios processos. Portanto, não se auto-inovam. Um conceito forte do Lean Startup estimula o Fast Fail: “erre rápido para ter sucesso mais cedo”. As incubadoras erram lentamente e não modificam seu status quo!
  • Alcance de metas. Quais são as métricas de uma incubadora?
  • Atração de investidores. Quem possui recurso financeiro para investir vê a universidade e por conseguinte a incubadora, como um centro burocrático e de baixa resolutividade. Os gestores das incubadoras geralmente são, por assim dizer, intrinsecamente acadêmicos. Portanto, sem “traquejo” de Mercado. Assim, sem uma gestão executiva condizente, as incubadoras terão sempre que ser sustentadas.
  • Competitividade. As candidaturas às incubadoras não são disputadas.
  • Identificação, atração, montagem, treinamento e manutenção de sua equipe de gestão. São altamente instáveis. Perde-se toda gestão do conhecimento.
  • Assistência na comercialização, transferência e desembaraço na Propriedade Intelectual das tecnologias emergentes das startups. Incluo aí o networking com todos os stakeholders do Mercado: parceiros, investidores, empresas-âncora etc.
  • Metodologia para estímulos da criatividade. Operam descartando as ideias que “não parecem boas”, trabalhando apenas aquelas que lhes parecerem exitosas. Como se define isto? É muito mais fácil trabalhar ideias “aparentemente” brilhantes.
  • Serem universitárias. Não há um estímulo por parte da própria universidade em criar uma cultura empreendedora científica. A coisa vai por onda instituída ou por resoluções.

Ou seja, segue todos os anti-princípios que exigem de suas próprias startups. Já temos coworkings privados que fazem isso muito melhor do que nossas incubadoras. O Cubo Itaú é um deles. E gera altos dividendos. A depender do que como incubadoras não fazemos, nos transformaremos em curtíssimo prazo em luxuosos hotéis de baixo custo, com marcas fortes (UF**) em endereços nobres. E, ainda mais, alienando nossos empreendedores, já que o custo lá dentro é subsidiado! Pesado, né? Não queremos isto.

Mudança de postura: qual deveria ser o papel real da Universidade então?

Defendi no artigo Modelo de Negócio versus Modelo de Ideia a diferença entre o Canvas, próprio para negócios que já andam, e o Lean Canvas, ou LC, próprio para protótipos. Lá falei um pouco da unfair advantage, a qual traduzi por “vantagem matadora”. O LC possui uma outra virtude: apela por uma proposta de maior valor agregado, algo de difícil cópia, seja uma tecnologia, uma metodologia ou um novo processo. O LC é um canvas científico! Se observamos o termo “protótipo”, ele sugere observação, desenvolvimento, testes e validação. O conceito quase-que-perfeito do método científico. Aliás, a própria startup é um evento científico. Falta, então, cair a “ficha” da Universidade para esse papel importante.

Vou usar este paralelo para sugerir o lugar que deveria ser ocupado pela universidade. Pensem comigo: cada universidade federal comporta milhares de professores. Cada um especialista em um ramo da ciência. Estes não precisam ser empreendedores, mas têm de ter em mente que é um crime de lesa pátria produzir soluções de teor científico, técnico, social e entregar quase que de mão beijada sem a devida proteção. Não falo em extrair dividendos de seus achados, mas proteger de modo a que outros não o façam ou, se o fizerem, que creditem. O crédito tem de ser dado à quem o garimpou. Isso não se constitui uma proposta capitalista selvagem, mas uma forma de dizer: “esta universidade aqui produz soluções abertas, ou não, de modo a ser relevante para a Sociedade”! Funcionamos além de artigos científicos!

As soluções “não abertas”, poderiam gerar dividendos para ajuda na manutenção da própria universidade e de estímulo a carreiras de universitários, já que cada vez mais empregamos menos. O elemento de interface com o Mercado seria ninguém mais, ninguém menos, que a incubadora. Agora sim, está definida como uma Eggubator (Danilo Hasse e Carlos Roberto De Rolt. XIV Simpósio da Gestão da Inovação Tecnológica. 2006), uma entidade geradora de sementes com potencial inovador. Esta não precisa ser tão pesada. Bastaria que uma incubadora operasse como um centro de interação empreendedora, utilizando todo o potencial científico da Universidade e a Business Intelligence. O próprio Silicon Valley está se desconstruindo e criando sua versão EaD. Para ser sustentável e dar o exemplo, o processo de incubação deve ser enxugado. Precisamos iniciar o processo da Lean incubadora. Queremos uma Universidade “Matadora”.

E para quem achar que estou blefando, depois de 13 voltas na nave Terra “mexendo” nessa seara, estou colocando meu nome e o de outros colegas, não em jogo, mas para jogar. Acessem a Plataforma Incaas e continuem acompanhando o Nossa Ciência. Vocês terão a chance de testemunhar se estarei esfericamente errado ou não. Conto com vocês!

Referências

A coluna Empreendedorismo Inovador é atualizada às quartas-feiras. Gostou da coluna? Do assunto? Quer sugerir algum tema? Queremos saber sua opinião. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag #EmpreendedorismoInovador.

Leia a edição anterior: O Anti-sistema: gerando ideias para startups em 60 segundos

Gláucio Brandão é gerente executivo da inPACTA, incubadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Gláucio Brandão

3 respostas para “Incubadoras universitárias: indo na contramão”

  1. Costa Barros disse:

    Totalmente pertinente é oportuno suas colocações. Urge aproximar a Universidade do mercado para gerar benefícios para as startups, para as encubadores universitárias e para toda nossa sociedade!

  2. Severino Gomes Neto disse:

    Texto muito lúcido. É dever da gestão das incubadoras se avaliar e adaptar continuamente. Não pode haver credibilidade nos sistemas de incubação contraditórios, afinal, o adulto deve sempre lembrar a criança de usar o cinto de segurança, mas seu exemplo (ou a falta dele) é o que dá solidez à mensagem.

  3. Maria do Carmo disse:

    Sabe o que realmente “pega”? O brasileiro ignora o conhecimento e MUITOS continuam agindo como ÍNDIOS – com todo respeito aos nativos de todos os países. São burocratas que pensam que publicar uma portaria é suficiente para gerar inovação. Nunca “queimaram” nem uma resistência na vida e querem DETERMINAR o que é inovação. São ÍNDIOS porque vivem em um universo paralelo, possuem o próprio conjunto de regras – completamente desconectadas da realidade. Parabéns para você que está lucido e é capaz de raciocinar com base em fatos e questionar a realidade quando é necessário. Continue se esforçando para não se contaminar com a estupidez ao seu redor. Avante!

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