A inflamação da Lua #HojeÉDiadeCiência

sexta-feira, 27 julho 2018
(Crédito: Fotos Públicas)

A coluna conta como a informação de um eclipse da Lua acontecido em 1502 foi usada por Colombo. O fenômeno que colore nosso satélite de vermelho ocorre na noite desta sexta 27 de julho

Aquela era a quarta viagem de Cristóvão Colombo. Ela começou com sua saída de Cádiz no dia 11 de maio de 1502. O famoso navegador estava em companhia do seu filho Fernando e de Bartolomé de Las Casas.

Quase dois anos mais tarde, na Jamaica, os indígenas se recusaram a reabastecer o navio, comprometendo a jornada. Em maior número que a tripulação, entrar num conflito armado seria suicídio. Colombo, então, articulou um estratagema de outro mundo.

Ele já havia folheado as efemérides e sabia que dali a três dias aconteceria um eclipse total da Lua. Ardilosamente, mandou reunir os nativos e os ameaçou, dizendo que o seu deus, que habitava o céu, iria fazer a Lua desaparecer se eles não fornecessem os suprimentos de que precisavam.

A maioria não acreditou. E até mesmo chagaram a zombar da audácia do homem branco. Mas na noite de 29 de fevereiro de 1504, no porto de Santa Glória, quase no meio da ilha da Jamaica, a Lua Cheia foi vista se erguer no horizonte e, pouco a pouco, desvanecer.

Lua de sangue

Os índios gritavam em socorro. Mas, para total desespero deles, Colombo apenas retirou-se para sua cabine e nada falou. Lá, secretamente usou sua ampulheta para medir a passagem do tempo e, quando percebeu que o eclipse atingira seu máximo e logo começaria a regredir, Colombo retornou triunfante.

Deus estava disposto a perdoa-los, disse ele, e curar a Lua de sua inflamação, pois todos já haviam presenciado a sua cólera. Os indígenas logo se puseram a reabastecer o navio, aliviados e obedientes.

A “inflamação da Lua”, a qual Colombo se referiu segundo o relato de Fernando na biografia de seu pai, era uma clara referência ao vermelho sangue que muitas vezes a Lua se tinge no auge dos eclipses totais.

A cor é resultado da dispersão da luz do Sol, que passa rasante pela atmosfera da Terra e termina por alcançar a Lua, que de outro modo permaneceria enegrecida até o eclipse terminar.

Diferentes encarnados

Mas nem todos os eclipses totais da Lua se enrubescem da mesma maneira. Sabendo disso, o astrônomo francês André Danjon (1890-1967) criou uma escala arbitrária que atribui um coeficiente de brilho relativo para cada aspecto que a Lua apresenta na totalidade.

Estudando mais de 150 eclipses da Lua detalhadamente, Danjon concluiu que havia uma correlação entre a luminosidade da Lua eclipsada e a atividade solar. Na sequência de um mínimo solar, por exemplo, a Lua fica mais escura na totalidade. Mas se o eclipse acontece próximo de um máximo solar, então a vermelhidão do satélite aumenta.

Naturalmente, tal entendimento não estava disponível na época da descoberta da América pelos europeus. Nem para os navegadores, tampouco para os nativos.

Mas repare como o conhecimento é transformador. Sem ele, fenômenos naturais como eclipses, chuvas de meteoros e mesmo eventos climáticos inusitados são frequentemente atribuídos ao sobrenatural – e com isso facilmente utilizados para manipular e até escravizar populações inteiras.

Precisamente quando os identificamos como naturais – e procuramos compreende-los melhor – é que nos tornamos realmente livres.

Hoje tem eclipse total da Lua

O anoitecer deste 27 de julho traz ao leitor a oportunidade de presenciar um eclipse lunar total. Quando a Lua Cheia surgir no horizonte já estará eclipsada, podendo se notar a luz avermelhada sobre o satélite natural; o mesmo fenômeno que Colombo usou a seu favor há mais de 500 anos.

 

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José Roberto de Vasconcelos Costa

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