A inteligência coletiva que nos falta Empreendedorismo Inovador

quarta-feira, 24 outubro 2018

É preciso estruturar o pensamento coletivo nas cadeiras acadêmicas, para que os estudantes não pensem individualmente, ficando focados em coisas que não interessam

Muitos de vocês já devem ter ouvido falar do filme de aventuras Toy Story, da Disney-Pixar. Em um dos episódios, pequenos marcianos – verdes, é claro – são selecionados para saírem de uma máquina de “caça bonecos” por uma pinça, operada por uma pessoa do lado de fora. A pinça, chamada criativamente de O Garra, tem o poder de escolher quem vai sair daquela prisão ocupada por clones, que vivem em um marasmo, dando ao escolhido uma opção melhor do que a permanência naquele mar verde.

Mal sabem eles que o critério de escolha é aleatório, pois do outro lado o todo poderoso Garra é comandado por outro ser, que a probabilidade de ser escolhido depende da habilidade deste ser, do tempo em que o mecanismo permanece acionado e das moedas que a mamãe ou o papai deste ser está disponível a empenhar. Pronto: a este conjunto damos o nome de Mercado, algo próximo a esta descrição. Você é o ser verde!

 Neanderthal X Sapiens

No excelente livro “Sapiens, Uma Breve História da Humanidade (2014)”, o historiador Yuval Harari nos dá um relato impressionante sobre a coexistência entre Neanderthais e Sapiens. Ao contrário do que pensávamos sobre os vencedores deste encontro serem os mais fortes e inteligentes, sobressaíram-se os Sapiens. Sim, os menos individualmente capacitados. A palavra individualmente fez toda a diferença neste duelo. Os Neanderthais possuíam um cérebro maior, mais desenvolvido. Carregando esta máquina de pensar, 15% maior do que a nossa, estava uma estrutura muscular com o dobro de anabolizantes. Ora, e porque falharam? Segundo os estudiosos, as evidências levam a acreditar que os Sapiens trabalhavam melhor em grupo. Isso mesmo! A guerra não foi entre Neandertais e Sapiens, mas entre individual e coletivo. Comunicação e a falta dela. Estratégia e Tática. Assim, quando alguém propuser que você pode lutar contra abelhas e vencer, embora estas sejam individualmente inferiores intelectual e fisicamente a você, pense duas vezes.

Os pequenos marcianos do filme Toy Story esperando ser escolhidos pelo Garra.

 Inteligência Individual versus Coletiva

Agora que estabeleci um referencial para analogia, podemos ver o que os seres verdes e a galera extinta têm a nos ensinar. Em países como o Canadá, por exemplo, as instituições de ensino direcionam os cursos de formação para as áreas carentes. Da mesma forma, quem pretende migrar para lá tem de satisfazer critérios de aceite vinculados às carências de Mercado. Ou seja: eles já pensam coletivamente, tanto que mantém um recorde positivo de taxa de desemprego. E nós sabemos a relação muito estreita que existe entre desemprego e violência. Sabendo disto, porque é que ainda insistimos em formação serial convencional, na qual preparamos nossos estudantes para pensar de forma individual, de modo a competirem entre si por um espaço de problemas a resolver diminuto, quando poderíamos pensar de forma coletiva e encaixar todos em todos os problemas? Esse é o ensinamento que os Neanderthais nos deixaram. Achar que o Garra vai com a nossa “cara”, porque existem investidores (as mamães e os papais), com tempo, dinheiro e habilidade para nos escolher, é o pensamento simplório que podemos extrair dos seres verdes. Temos que nos preparar para mudar de cor, forma e tamanho, e tornar a escolha menos aleatória. Teremos de abandonar o pensamento individual e começarmos a nos comunicar de modo a sugerir papéis diferenciados em nossos grupos.

Mercado x Sociedade

Em meu entendimento empreendedor, penso que, no limite, a inclusão social acontecerá quando toda a Sociedade puder participar do Mercado, de forma ativa, de modo a não se ter mais adjetivos que possam diferenciar ambos. Ou que outro conceito híbrido surja! Do outro lado, uma expressão que gosto de utilizar, a não exclusão, ou seja, o ato de empurrar para fora da Sociedade aqueles que nela vivem, deixará de acontecer quando pudermos estruturar o pensamento coletivo nas cadeiras acadêmicas, e diminuir-se o pensamento focado em coisas que não interessam. Formar-se em qualquer ofício e não saber para onde ir não é mais uma opção, é uma exclusão!

Assim, temos que deixar de sermos Neanderthais, por mais incrível que essa expressão possa parecer!

Referências:

Toy Story, da Disney-Pixar

Carências de mercado no Canadá

Canadá mantém recorde positivo na taxa de desemprego

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Leia a edição anterior: A tilápia da inovação

Gláucio Brandão é gerente executivo da inPACTA, incubadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Gláucio Brandão

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