A Tabela Periódica tem um ano para chamar de seu: 2019 Coluna do Jucá

quinta-feira, 7 fevereiro 2019
A Tabela Periódica, um ícone pop da ciência, tem um ano para chamar de seu: 2019. (Imagem: PHOTO: MIKE WALKER/Science)

150 anos depois do trabalho de Mendeleev, o sistema periódico permanece como um sólido arcabouço de conhecimento básico sobre o qual se consolidaram inúmeras aplicações

É uma questão intrigante imaginar que tanto a imensidão cósmica quanto a complexidade dos seres vivos se remetem a alguns ingredientes básicos da matéria, os elementos químicos. Hidrogênio, Hélio, Silício, Carbono, Nitrogênio, Oxigênio, Enxofre, Cálcio, Ferro, Potássio e outros 84 elementos, 94 no total, encontram-se naturalmente dispostos, arranjados, inseridos, compondo tudo o que há. Estrelas, rochas, matéria-orgânica, ar, ossos, minérios, computadores, sangue e tudo mais que se possa imaginar. Uns raros, outros nem tanto. Há aqueles, por sua vez, muito abundantes. Há ainda aqueles de origem sintética. Até o momento, naturais e sintéticos preenchem 118 lacunas dessa lógica elementar da natureza. Ou será do que há? Ou ainda do que está por vir? Ou do que seremos capazes de empreender? Ou quem sabe “do jamais”, que ainda não pôde ser sintetizado? Afinal, há limites?

Dmitri Mendeleev´s, o russo que com os 63 elementos conhecidos à época (1869), concebeu uma tabela cuja representação os ordenava em função de suas propriedades (Imagem: Science)

Mendeleev concebeu, com os 63 elementos conhecidos à época (1869), uma tabela cuja representação os ordenavam em função de suas propriedades. Tal disposição fora capaz de prever ainda a localização, características e tendências de elementos que, nem sequer, eram conhecidos, o que desencadeou uma série de testes científicos de hipóteses. Sob uma perspectiva científica, o que pode ser mais interessante do que fazer previsões testáveis? Bingo para o Russo! Ah, esses russos!

De fato, a Tabela Periódica é um marco da ciência pela sua natureza acessível e compreensível a todos aqueles que queiram compreendê-la. É uma linguagem comum para todos aqueles que fazem uma leitura da natureza por meio da ciência. Portanto, não há fronteiras econômicas, nacionais, religiosas ou de qualquer outra natureza que sobrepujem o seu caráter universal. Não há muros. É a verdadeira expressão da ciência sem fronteiras. Aí vem a mecânica quântica e joga mais solidez sobre todo esse sistema, assim como a genética e a genômica fizeram sobre as ideias de Darwin.

No ano de 2019 se comemora o centenário da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) e o Ano Internacional da Tabela Periódica (Imagem: IUPAC).

Quem diria! Graças à sistematização de todas essas letrinhas, o século XX foi agraciado com um sólido arcabouço de conhecimento básico sobre o qual se consolidaram inúmeras aplicações. E quanta tecnologia! Daí ser básico para qualquer estudante de ensino médio saber que para cada lacuna desse ícone pop da química — alegria de uns (Nerds) e tristeza de outros —, há uma aplicação, mesmo que ele desconheça qual seja. O conhecimento básico não é uma alternativa, uma forma excludente, ultrapassada ou até mesmo um desperdício de dinheiro, seja público, seja privado em relação ao conhecimento aplicado. Ledo engano. Caminham juntos como irmãos siameses.

Exemplos como o da Tabela Periódica, onde a ciência básica alavancou a ciência aplicada? A mecânica quântica revolucionou as pesquisas nas áreas aplicadas de física, química, eletrônica, engenharia, e tantas outras. Os estudos com ácidos nucléicos, aminoácidos e proteínas revolucionaram a biologia com a tecnologia do DNA recombinante, a genômica e a edição genética. Os estudos a respeito dos ciclos de vida dos microorganismos revolucionaram a área médica. E haveria muitos outros exemplos para citar. Por tudo isso, vale lembrar que não faz sentido falar exclusivamente em inovação, interesses econômicos e industriais ao se mencionar a pesquisa aplicada/dirigida. Não se deve aprisionar esta aos ditames do mercado, mas sim às mãos da pesquisa básica. Só assim, uma nação pode abrir as velas e seguir de vento em popa.

Nas últimas décadas, laboratórios em vários países ampliaram a Tabela Periódica com elementos artificiais. Pode-se criar mais (cinza). Prevê-se um fim no elemento 172. (Imagem: N. DESAI/SCIENCE).

Considerando-se, portanto, que a Tabela Periódica representa um marco da ciência moderna, bem como uma das suas mais belas conquistas, com profunda influência não só na química, como na física, biologia e em diversas outras áreas. A Assembleia Geral das Nações Unidas e a UNESCO instituíram o ano de 2019, um século e meio depois do trabalho de Mendeleev (1869) com o Sistema Periódico, como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos. Bingo para a Tabela Periódica!

Será que em algum canto longínquo do universo há um laboratório com uma Tabela Periódica pregada na parede, com os seguintes dizeres: “Somos capazes de prever a aparência e as propriedades da matéria nos confins do Universo” e “Nós fazemos ciência aqui”?

Referências:

  • Phillip Szuromi (2019) Setting the table. Science 01 Feb 2019: Vol. 363, Issue 6426, pp. 464-465. DOI: 10.1126/science.aaw6790.
  • Michael D. Gordin (2019) Ordering the elements. Science 01 Feb 2019: Vol. 363, Issue 6426, pp. 471-473. DOI: 10.1126/science.aav7350
  • Sam Kean (2019) A storied Russian lab is trying to push the periodic table past its limits—and uncover exotic new elements. Doi:10.1126/science.aaw8425

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Leia o texto anterior: Do ferro à lama

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

Uma resposta para “A Tabela Periódica tem um ano para chamar de seu: 2019”

  1. Marcelo Regis de Morais disse:

    Thiago cara voce se tornou um cientista renomado aqui no Brasil espero ter algum contato
    Aqui quem fala é o Marcelo Régis teu colega dos tempos de igreja e professor de Fisica do Ifce
    valeu um forte abraço

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