As fanfics como espaço de identificação e comunicação Observatório de Mídia

quinta-feira, 25 março 2021

O fenômeno das fanfics vem gerando grandes transformações nos meios virtuais, dando aos fãs a liberdade de se expressarem e serem exatamente quem são

Por: Lanna Artemizia e Luze Silva

Certamente você já ouviu falar das famosas fanfics em alguma rede social, mas o termo empregado em histórias fantasiosas escritas por fãs vai muito além dessa mera categoria. Para explicar isso, voltaremos um pouco no tempo.

Desde a criação das grandes empresas que compõem a indústria cultural, as comunidades de fãs sempre estiveram à frente, utilizando as tecnologias ao seu favor (JAMISON, 2013). Isso fica mais nítido quando voltamos nossa perspectiva para grandes clássicos da literatura mundial como: Sherlock Holmes que, em 1887, alimentou a imaginação dos primeiros “fanfiqueiros(as)” ao registrar as inúmeras aventuras do detetive.

Assim como a obra de Arthur Conan Doyle, outros tantos bens culturais passaram pelas mãos curiosas dos fãs ávidos por tudo que envolve a obra original e seu desenrolar. Na televisão, a saga Star Trek (Jornada nas Estrelas) fez sucesso tanto nos aparelhos de TV quanto nos corações dos amantes de ficção científica. Centrada nas viagens espaciais, a história ganhou desdobramentos nas relações entre as personagens e promoveu grandes mudanças na forma como os fandoms – comunidades de fãs – eram vistos.

Lanna Artemizia

Em teoria, o fenômeno das fanfics integra as múltiplas possibilidades para uma determinada história, conhecidas como narrativas transmidiáticas. Na prática, essa ação representa um impulso do fã em compartilhar publicamente sua interpretação, sem ferir os direitos autorais.

Considerado o segmento mais ativo do público presente nas mídias, os fãs resistem à categorização de — apenas — consumidores passivos, e insistem em uma participação plena na produção (JENKINS, 2008). Essa resistência não é de hoje, mas a popularização das redes digitais possibilitou alternativas para reivindicarem, opinarem e contribuírem como nunca antes.

Os efeitos dessa mudança permitiram mais facilidades na produção e na distribuição das fanfics uma vez que, além da velocidade, o meio virtual trouxe também o anonimato (JAMISON, 2013). Nesse sentido, os fãs (escritores e leitores) tiveram a liberdade de explorar esse universo, independente dos estereótipos, e fora do olhar julgador da sociedade, o que contribuiu para a sua autoidentificação com os temas abordados e, consequentemente, para a construção de sua identidade.

A construção desse elo entre as histórias e o público estabelece um viés de comunicação entre as pessoas extremamente essencial em diversos aspectos da vida, como: o entendimento dos próprios desejos, aceitação de si, representação ou funciona como um espaço de conforto frente à rotina agitada e os problemas.

Luze Silva

Em geral, há o compartilhamento em comum de alguns questionamentos da vida, medos, traumas e desejos inibidos. As fanfics, nesse sentido, contribuem para uma imersão parcial ou completa em um ambiente digital, que permite o contato com alguém (às vezes, uma pessoa desconhecida) e um diálogo constante, muitas vezes interativo entre escritor e leitores.

Time After Time

Bastante popular no fandom harmonizer, Time After Time é uma fanfic desenvolvida entre os anos 2016 e 2018, pela escritora Amanda Sousa, e que aborda temas como amadurecimento, aceitação e relacionamentos frustrados. A história cativou os fãs do grupo Fifth Harmony por explorar a sexualidade de duas personagens que, na vida real, sempre foram vistas com muito carinho pelo público.

Apesar das cantoras terem desmentido os boatos sobre uma suposta relação amorosa, os fãs buscaram outras formas de torná-la real e, uma delas, foi por meio das fanfics. Em Time After Time, Lauren é retratada como uma mulher que reprime sua sexualidade por medo do julgamento dos amigos e familiares. A trama, enfrentada ficticiamente pela artista, é uma realidade para muitos fãs que acompanham seu trabalho, conforme apontado na rede social Twitter.

Dessa forma, a história fanônica que remete ao relacionamento das duas integrantes do grupo destaca também as questões de autoafirmação, um problema enfrentado por muitos adolescentes LGBTQIA+, que representam uma parcela do fandom das artistas e se “enxergam” nas narrativas.

Quantas partes há em mim?

Com um viés parecido com a história Time After Time, a fanfic Quantas partes há em mim?, escrita por Luze Silva no Wattpad, traz elementos ligados à identificação, aceitação, autoconhecimento, temáticas sobre a homossexualidade e comunidade LGBTQI+. Inspirada nos artistas Noah Urrea e Josh Beauchamp, do grupo pop global Now United, a história recebe a tag NOSH (que é a junção/shipper dos nomes dos dois artistas). Ela é destinada aos uniters (nome do fandom do grupo) e, mais diretamente, aos fãs que idealizam uma relação amorosa entre os dois.

O grupo conta com participantes de diferentes continentes. Noah (EUA) e Josh (Canadá) são dois integrantes bastante queridos e têm uma amizade bastante íntima, o que tem gerado ideias fantasiosas de um possível relacionamento entre os dois, embora já tenham declarado abertamente que são apenas amigos. Apesar disso, diversas histórias nessa mesma categoria (NOSH) surgiram em diversas plataformas de leitura online e são febre entre os fãs, que se mostram intrigantemente apaixonados pelo gênero boys love. Os leitores da fanfic em questão levantam hipóteses, buscam desvendar toda a história com afinco antes do fim e ficam ansiosos pela continuidade.

Por trazer um aspecto que conversa diretamente com o processo de descobrimento de si, da própria sexualidade, desejos e vontades, com uma dose de estímulo pela aventura, a história Quantas partes há em mim? dialoga com um público que passa pelos mesmos processos de autoconhecimento, gerando identificação, envolvimento e curiosidade. Narrada pela visão do Josh, a história perpassa sua mente, aproximando os leitores da personagem principal. Eles sentem-se atraídos pela trama, tomando, inclusive, partido em defesa de personagens devido à identificação com os mesmos.

Portanto, a partir da análise realizada sobre o impacto das fanfics na vida dos fãs e os exemplos citados como comprovação desse processo comunicacional, cheio de características próprias, eficazes e instigantes, depreende-se que histórias nesse formato impactam diretamente o processo de identificação.

Mais do que meramente agentes passivos, os fãs se tornam consumidores e produtores de conteúdos sobre os artistas, grupos, filmes, séries, entre outros formatos, criando enredos surpreendentes, envolventes, universos paralelos e cativantes. Há um contato com outras pessoas, que partilham de pensamentos parecidos, desejos semelhantes e projeções sobre o seu ídolo ou banda, por exemplo.

Se estabelece uma comunicação com a presença de um elemento comum: o desejo de estar mais próximo daquilo que tanto ama, de jeitos e formatos que agradam suas próprias aspirações a respeito do tema. Assim, o fenômeno das fanfics vem gerando grandes transformações nos meios virtuais, tornando-se um espaço de interação entre os fãs e dando a eles a liberdade de se expressarem e serem exatamente quem são.

Referências:

JAMISON, Anne. Fic: por que a fanfiction está dominando o mundo. Trad. Marcelo

Barbão. 1ª ed. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2017.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. Trad. Susana Alexandria. São Paulo: Aleph, 2008.

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Leia o texto anterior: Da ancestralidade ao digital

JOII – Grupo de pesquisa em Jornalismo, Inovação e Igualdade da Universidade Federal do Piauí

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