Black Friday brasileiro Ciência Nordestina

terça-feira, 26 novembro 2019

Consumismo, privatizações, globalização e a escassez de recursos para investimentos em ciência e tecnologia

É chegada a data magna do consumismo no mundo. As pessoas sairão às ruas para comprar essencialmente aquilo que está em promoção, mesmo que não precisem. E no Brasil, esta data marca algo ainda mais grave: em um ano em que privatizações foram brindadas com o leilão do pré-sal, temos a possibilidade esdrúxula de ter nosso petróleo extraído e vendido por estatais estrangeiras, como o fruto mais violento da ação de um liberalismo da escravidão.

O leitor pode perguntar: porque precisamos extrair nós mesmos o nosso petróleo? E o que isso tem a ver com o Black Friday? Vivemos em um planeta globalizado.

Eu respondo: embora todos tenham internalizado muito naturalmente a questão da globalização, continuamos a ter (a cada dia) mais acentuada a realidade de nações dominadoras e dominadas. Queiram ou não, sempre fomos tribos que dominam um território e desejam dar melhor qualidade de vida para o nosso povo. Com a tecnologia baseada em petróleo, a busca incessante por poços e o acesso a este bem são garantias para o funcionamento das indústrias, que geram essencialmente lixo consumível. Lixo este que é disputado a plenos pulmões na Black Friday. E esta busca desenfreada por petróleo explica toda instabilidade política do Oriente Médio e América Latina – o problema não está nas pessoas nem nas democracias. Mas sim no que está guardado sob o chão em que elas pisam.

Explorar o seu próprio petróleo significa ter a possibilidade de alocar recursos para educação, saúde, transportes… Só que os donos do capital entendem que não deve existir boas condições de vida para todos. Há dominadores e dominados.

E quanto a nós, brasileiros, não bastaram as inúmeras lições de nossos ancestrais que trocaram espelhos por pau brasil. Não bastou o exemplo das nações asiáticas que cresceram ao investir em ciência. Somos uma nação de pseudo compradores de tecnologia.

E perceber esta nova realidade entre estudantes de engenharia é algo ainda mais assustador. Com o desinvestimento na ciência brasileira, restará aos nossos engenheiros buscar em outros países a solução para os problemas tecnológicos. Já tratamos com naturalidade a importação de microcomputadores, das células solares para os tetos das residências, dos aparelhos celulares… Afinal, é impossível imaginar competitividade para uma marca nacional… Resta agora ao pessoal da tecnologia comprar seus pequenos módulos (microcontroladores e microprocessadores) para deles tentar alçar pequenos voos em soluções domiciliares – automação domiciliar (a casa inteligente já é fruto de investimento das grandes corporações).

Com a escassez de recursos para investimentos em ciência e tecnologia, vemos que o horizonte do consumismo no Brasil assume caracteres ainda mais dependentes da tecnologia alheia. Com esta política, estaremos à mercê de tudo o que eles têm interesse em nos ofertar. E como para tudo aquilo que não há lucro não há solução, continuaremos a ver padecer os pobres, o povo, uma nação. As doenças negligenciadas são assim chamadas por não trazerem lucros.

Mas enquanto isso, saiamos às ruas. Levemos nossos meses e anos de trabalho nos bolsos para trocá-los por aquela linda TV de 72 polegadas. Viva o consumismo.

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Leia o texto anterior: Democracia nas Universidades: a escolha do reitor

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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