Bootcamp: aprendizagem intensiva, acelerada e verdadeira em campo Empreendedorismo Inovador

quarta-feira, 22 maio 2019

É necessário que se prepare as mentes para lidar com o improvável com uma inversão no formato ensino-aprendizagem: a capacitação não-linear imersiva

Muitos de vocês já ouviram falar em treinamentos de guerra (bootcamp, do inglês). Eles são feitos de forma imersiva, intensa, cujo principal objetivo é o de preparar guerreiros, ou melhor, criar o mindset guerreiro, para o que der e vier. Quem já “sofreu” um treinamento militar sabe que ao se atingir o limite físico e mental, tudo o que foi aprendido vai pra medula, e você passa a responder quase que automaticamente aos estímulos para os quais foi treinado, já que tudo está impregnado no sistema nervoso, liberando o cérebro para o principal: o que está por acontecer de novo, de não previsto, para aquilo para o qual não foi treinado!

Não se trata de lavagem cerebral, mas de treinamento. Ossos fortes e músculos fortes aguentam mais pressão. Tenho em meu currículo este tipo de experiência, quando aos 19 anos, portanto há 31 anos, em treinamento final do curso de oficiais da Infantaria, fomos submetidos à FIT (Força, Iniciativa e Tenacidade) no Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti, o famoso e temido CIMNC, a casa do infante, lá no finalzinho do Mundo, ou melhor, da estrada de Aldeia-PE.

Esse treinamento, o mais punk de todos do CPOR, Centro Preparatório de Oficiais da Reserva, consistia em uma jornada de mais de 100 km a serem percorridos em GC – grupo de combate – formado por 05 integrantes. O detalhe é que esta jornada era recheada de pegadinhas e oficinas “relaxantes”. Muitos foram desligados no meio do caminho, pois a FIT era o divisor de águas para aqueles que queriam obter o oficialato.

A jornada tinha de ser percorrida em quatro dias, sem direito a dormida, a qual fazíamos por revezamento, dada à grande quantidade de oficinas. O descanso era conseguido assim: um “escolhido” ia à frente e os outros quatro segurando nos ombros um do outro, com o cinto amarrado no da frente, de modo a poder “dormir” andando. Essa estratégia, criada em campo, fez com que chegássemos ao fim da jornada, pois o “escolhido” ficava isento de laborar na oficina da vez, descansando, já que havia cumprido sua tarefa ao fazer o grupo avançar. Outros grupos, cujos membros não descansavam, ou descansavam demais, não concluíram a jornada, por estarem cansados ou atrasados, respectivamente. Massa, né não? Decidimos por uma estratégia híbrida, a qual foi elogiada por nossos algozes, quero dizer, instrutores, ao final da FIT. Compreendemos, precisamente, o que um ano de treinamento fazia ao corpo e à mente. Para não ficar massante, descreverei uma única oficina, a qual vou utilizar para traçar o paralelo com o empreendedorismo: o resgate do míssil COBRA!

De posse de um mapa da região e de uma bússola, teríamos que resgatar o míssil COBRA abandonado pelo inimigo. Dos treinamentos com canhão, sabíamos que esse projétil tinha uns 50 cm e pesava em torno de 10 kgf. Pra nossa surpresa, ao chegarmos à coordenada na qual estaria o infame míssil, encontramos um tronco de árvore, de uns 4 metros de comprimento e pesando mais de 300 kgf (soubemos o peso depois), com uma frase em letras cursivas garrafais, fonte 500, escrito: “Eu sou o míssil COBRA”! Putz… Divida aí 300 kgf/5, final de jornada, cansados e famintos, e imagine o que é levar a p… (“p” de peste, pessoal) do míssil COBRA por 1 km. Massa, né não!

Consigo ouvir o Major Hidelgard, hoje Coronel da reserva, gritando ao pé do meu ouvido: “Aspirante 224: um infante morto ainda rende 30%!”. Acho que eu já estava nos 29%… Bons tempos aqueles. Ainda bem que não voltam!

Mas, falando sério, este treinamento está dentro de mim há mais de três décadas. Me faz acordar todos os dias às cinco da matina, saber que posso contar e revezar a liderança com qualquer um(a) de minha equipe, bastando apenas colocar a mão em seu ombro; só parar para dormir quando a tarefa estiver concluída, não quando estiver cansado; que estarei sempre preparado para resgatar qualquer míssil no Mercado lá fora, pois sei que nunca terá só 10 kgf e que não poderei carregar 300 kgf sozinho, mas conseguirei juntar gente para levá-lo. E olha que tá ficando cada dia mais leve. E o mais interessante de tudo isso: aprender a estratégia a ser utilizada em tempo real e ajustá-la à batalha do momento! Isso é o conceito de bootcamp. E é esse paralelo que vamos traçar entre empreendedorismo, bootcamp e o Mercado mais adiante!

Bootcamp Acadêmico

Filando o texto do site Mastertech:

Bootcamp é um programa de ensino imersivo que foca nas habilidades mais relevantes de determinada área para atuar no mercado do século XXI. Os bootcamps já são referência lá fora e estão chegando com força aqui no Brasil. Esses programas vêm de encontro às necessidades de pessoas que querem mudar de carreira ou simplesmente entrar no mercado de trabalho mais rápido. Mais comuns na área de tecnologia, os bootcamps de programação oferecem um ensino hands-on e de alto impacto para formar desenvolvedores muito mais rápido do que o ensino tradicional.”

Esse modelo de aprendizado está crescendo na Europa e USA. Pessoas estão pagando para “estagiar” em empresas das quais são admiradoras, cujo propósito final da empresa é contar com elas em seus quadros. “Pagando para trabalhar?”, você perguntaria. E eu te responderia: “Pagando para aprender!”

Em qual local você teria acesso ao que o Mercado precisa? Em qual escola você teria professores – vou utilizar advisors para o caso de especialistas ad hoc e mentores para os orientadores da empresa – “linkados” a problemas reais? Em que curso você teria as ementas perfeitamente adequadas à necessidades de verdade? Em qual “creche” de ensino superior o lanche só viria depois da tarefa cumprida? Respondo-te, incauto ser: na Empresa, ou ONG, ou Associação! Resumindo: na instituição que está viva no Mercado! Ela está viva porque consegue carregar o míssil COBRA!

E você acha que por todo este enxoval empreendedor ainda “rolaria” um payback?

Vamos tentar modelar isso para nossa realidade de Escola 1.0, aquela em que o docente enclausurado na torre de marfim, distante de tudo e de todos, dita como o Mercado tem de ser, num exercício semelhante ao de fazer “o rabo balançar o elefante”. Acho que não vai rolar!

Deadlock, my friend!

Alguém poderia dizer que estou falando em estágios obrigatórios supervisionados, aqueles que fazem brilhar os olhos dos estudantes quando adentram o lado de cá da “torre”, e que quando o conseguem bradam aos quatro ventos (e até cortam os cabelos): “estou estagiando na empresa MelhorLugar S/A!”. Vou abreviá-la por MEL S/A, um doce de empresa!

Pois bem: no horizonte que vivemos hoje de 12% a 13% de desempregados (reza a lenda, pois não há concordância entre as fontes que medem esses resultados), a MEL S/A está tão perdida quanto a TorreDeMarfim.edu: aquela lá tem baixíssima expectativa de contratação, pois não pretende investir dada à instabilidade de Mercado, e essa aqui não faz a menor ideia do que um egresso seu tem de ter para agradar! Ou seja: deadlock, aquela situação de impasse em que “eu só mostro o que tem na minha mão se você mostrar o que tem na sua primeiro”, ambos sabendo que as mão estão vazias! Vivemos um blefe!

E a solução para este impasse, Gláucio-San, quem poderia nos mostrar? Bom, já falamos sobre isto em Por quem as grandes empresas choram… Em minha visão – e de muitos, a resposta para o deadlock o próprio Mercado vem dando há algum tempo: NÃO HÁ MERCADO! Teremos que (re)construí-lo!

Ou seja: ao invés de trabalhar-se para tentar entregar mais um estagiário à MEL S/A, um potencial desempregado, por que não entregar à MEL (já estou íntimo) uma possível startup, ou spin-off, gerada por ela própria em parceria com a TorreDeMarfim.edu, a qual forneceria os conceitos básicos de formação para todas as áreas do conhecimento (algoritmos, matemática, português, ciências naturais, sociais etc.) e, com a ajuda de quem já está sendo solapada a tempos pelo Mercado – a MEL – construir opções juntos? E mais: o efeito colateral de atualizar os docentes a muito cristalizados! Creio que o bootcamp seria esse processo. Que melhor de dois mundos poderíamos esperar: A TorreDeMarfim.edu atualizada em tempo real e entregando empregadores à sociedade, ao invés de desempregados! Um mundo mais doce!

Group of Business People Meeting Teamwork

A inversão “necessária” do formato ensino-aprendizagem: A Capacitação Não-Linear Imersiva:

Parafraseando o filme “Up, altas aventuras!”, percebe-se hoje que a “Aventura está lá fora!”. No nosso caso, a Ciência! As empresas estão inovando muito mais rapidamente do que a Academia. Falando no formato Yoda de ser: necessária uma inversão é!

Pensemos então no seguinte algoritmo piloto para um utópico bootcamp, o qual chamarei de Algoritmo de Capacitação Não-Linear Imersiva (CAN):

[Algoritmo CAN: INÍCIO]

  • MEL abre chamada para bootcamp, a ser concluído em 18 meses.
  • Estudante se submete à aplicação e entra no bootcamp.
  • MEL elenca a série de competências que Estudante tem de ter.
  • TorreDeMarfin, em acordo com MEL e Estudante, monta o portfólio acadêmico-empreendedor adequado, aquele que servirá tanto para MEL como para outras empresas.
  • O bootcamp começa com os docentes de TorreDeMarfim intervindo de modo a transferirem – e aprenderem – o conteúdo adequado ao trabalho a ser desenvolvido por Estudante.
  • Ao final, uma banca montada por TorreDeMarfim e MEL, avaliam a progressão de Estudante no bootcamp. Tudo positivo, entregam a Estudante o brevê de FIT, e deixam Estudante livre para escolher a incorporação à MEL, ou empresa similar, ou montar seu próprio negócio, pois com uma formação acadêmica-empreendedora dessas Estudante “manja muito” de Mundo.

[Algoritmo CAN: FIM]

Fim de jogo. Ou melhor: fim de deadlock e começo de jogo! Yes, we CAN!

O financiamento de todo o Algoritmo CAN pode ser feito via dispositivos já existentes (Lei do BEM, Informática, Fundos de Economia Solidária, Setoriais, Fundo Próprio, Renúncia Fiscal, Isenções, Editais de Subvenção, Seed Money, Venture Capital, Equity, Acordo Tripartite etc.).

Vejam que não há diferença entre o bootcamp militar e a versão acadêmica. O vivente tem de trabalhar o sistema nervoso praticando o mundo real, deixando a massa cinzenta para os desafios que estão por vir, e não deixar o cérebro ocupado com o que já está estabelecido.

A crítica aos cursos da área de Educação

Com tantas possibilidades de projetos de extensão que temos nas universidades, tantas faculdades e centros da área de educação, tantas oportunidades para trabalhar tantos conceitos, e tantos estudantes, docentes e componentes curriculares perdidos, por que não enveredar por estudos como o proposto aqui, de metodologias de inversão, ou outros, ao invés do mergulho sistemático e cada vez mais profundo na reprodução de “planos de aula pá-pá-pá” que “ao final da aula o aluno ti, ti, ti”, não será capaz de… da “pedagogia do (des)encantamento”, “construti-num-sei-o que” etc. Por que não se incentivar o empreendedorismo como mola para o aprendizado, já que ele é transversal, próprio de qualquer área?

Fechando…

O míssil COBRA está lá fora. Não se sabe o tamanho nem quando vai explodir, mas vai! É necessário que se prepare as mentes para lidar com o improvável, uma explosão que pode estar iminente, e não para o que está aqui dentro, previsível. A aventura está lá fora!

E, por falar em muito perfeito, deixo pra vocês a música Paradise, do grupo Coldplay (https://www.youtube.com/watch?v=1G4isv_Fylg).

Boa FIT para vocês!

Referência:

Mastertech (https://blog.mastertech.com.br/carreira/o-que-e-um-bootcamp/)

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Leia a edição anterior: A inPacta, seu arcabouço e o futuro hoje!

Gláucio Brandão é gerente executivo da inPACTA, incubadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Gláucio Brandão

Uma resposta para “Bootcamp: aprendizagem intensiva, acelerada e verdadeira em campo”

  1. Alvaro Oliveira disse:

    Excelente meu amigo.Fiz bootcamps na Academia Militar ,no teatro de operačões…quer dizer na guerra anti-terrorismo e …sim em mútiplos campos do conhecimento… mas onde os Living Labs se destacam…

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