Breves reflexões sobre o ônus do petróleo que não é nosso Coluna do Jucá

quinta-feira, 24 outubro 2019
O óleo é o prelúdio da tragédia ecológica que assola o Nordeste brasileiro. Fonte: Goolge

Restam-nos dúvidas e incertezas acerca da tragédia ambiental, social e, consequentemente, econômica que atingiu a costa do Nordeste brasileiro há cerca de três meses

Outrora, os nacionalistas empunhavam faixas com o slogan “o Petróleo é nosso”. Agora, comemora-se que o “o Petróleo não é nosso”. O exame de paternidade do “DNA” do petróleo, corroborado por análises geoquímicas, parece não deixar dúvidas. Na verdade, nesse mar de incertezas (e de óleo!), a única quase certeza é que o óleo negro tem nacionalidade venezuelana! Ou, na verdade, estaríamos “venezuelizando” até esse desastre ambiental?

A culpa, por ora, não é nossa. Aliás, não é de ninguém. Por ora, é difícil falar em culpa, quanto mais em culpados. Difícil falar até se foi descarte, derramamento ou vazamento. A imensa quantidade de óleo simplesmente chega na costa do litroral do Nordeste. Agosto, setembro, outubro. Novembro, dezembro… janeiro? Não sabemos até quando.

Recairá sobre o território mais pobre do país, historicamente culpabilizado pela sua pobreza e pelas suas mazelas, mais esse ônus? E os bônus, sumiram? E as lindas praias paradisíacas, de sol o ano inteiro, de clima de verão e de férias? Diziam até que Deus era brasileiro e, quando queria descansar, tirava férias no Nordeste. Ele também estaria de luto diante de tamanha catástrofe ambiental? Ou apenas nós? Nós quem? Porque muitos que deveriam estar falando estão simplesmente calados! Talvez de férias em alguma praia paradisíaca, onde não haja manchas de óleo.

Restam-nos dúvidas e incertezas acerca da tragédia ambiental, social e, consequentemente, econômica que atingiu a costa do Nordeste brasileiro. Em relação a esse tipo de desastre – envolvendo o derramamento de óleo –, a história, bem como a ciência, ensinam-nos que alguns anos não serão suficientes para conhecermos todas as consequências desse episódio. Infelizmente, décadas serão necessárias. Difícil, contudo, é dizer quantas. Portanto, mesmo que não chegasse mais óleo à costa e grande parte deste tivesse sido removido de imediato (o que não foi nem será o caso!), ainda assim essa história estaria longe de ser encerrada.

Caro leitor, faça um teste rápido! Faça uma busca com as palavras Deepwater Horizon e Exxon Valdez nas ferramentas de busca de algumas das mais prestigiadas revistas científicas como Science, Nature, PNAS e The Lancet, para citar alguns exemplos. Você encontrará dezenas, centenas de artigos científicos tratando sobre as palavras buscadas. Consequências, impactos, perspectivas, avanços, enfim. Diz-se que uma guerra, além de trazer consequências nefastas, traz também avanços científicos/tecnológicos. Será que se espera o mesmo a partir de eventos negativos como este? Inevitavelmente, aprendemos com a dor, com a perda.

Mas nem tudo recai no campo da dúvida e do desconhecimento. Sobram-nos certezas do quão impactante é presenciar a contaminação das areias e das águas tão próximas de nós. De acordo com um registro recente do IBAMA, pelo menos 200 locais em 81 municípios foram atingidos. A estatal petrolífera brasileira informou que já retirou mais de 200 toneladas de resíduos oleosos (mistura de óleo e areia). Por outro lado, ainda não vi nenhuma notícia sequer que mostrasse algum tipo de esforço nesse sentido, por parte de alguma empresa multinacional que explora petróleo nas águas ou terras tupiniquins. Para mim, isso diz muito sobre uma coisa chamada soberania nacional, mas aí é outra história!

Por fim, queridos leitores, sei que o noticiário ainda tem muito pano para manga para oferecer-lhes sobre o assunto: possíveis rotas de navegação no oceano Atlântico, origem do vazamento, ausência de um plano de contingência, águas internacionais, atividades de exploração e transporte de petróleo no mar, processos físicos de evaporação, emulsificação e dissolução, processos químicos de oxidação, processos biológicos de degradação microbiana, segurança dos alimentos oriundos de áreas atingidas —  a lista, enfim, é extensa.

Ao que parece, vivemos uma época em que o nacionalismo de muitas nações está à flor da pele. Contudo, diante de problemas globais, soluções estritamente nacionais e de alcance intramuros, como preconizadas por muitos dos movimentos nacionalistas, são pouco eficazes. O episódio no litoral do nordeste brasileiro mostra isso de uma maneira muito emblemática e didática: o nacionalismo, seja de quem for, é praticamente irrelevante no sentido de impedir que recaia sobre si o ônus dos desastres ambientais.

Resumo da ópera: podemos não derramar uma gota sequer de óleo nos nossos mares e oceanos, podemos ser super eficientes e rápidos na adoção de medidas para conter o derramamento de óleo (longe de ser o nosso caso!); ainda assim é possível que o ônus alheio encontre refúgio nas nossas praias. Isso porque o ônus e o bônus ambiental não podem ser limitados intramuros. Eles não distinguem língua, origem, grau de civilidade e poder econômico, por exemplo. É uma causa global, endereçada a todos os habitantes que residem no Planeta Azul. Ou seja, independe da nacionalidade que o DNA aponte ser.

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Leia o texto anterior: Religião, cidadania e democracia

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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