Carta para a minha avó negra Diversidades

segunda-feira, 10 agosto 2020
Fotocolagem. Acervo pessoal.

Discriminação, racialização e empoderamento coletivo fazem parte deste relato da pesquisadora Alice Andrade

Por Alice Andrade

Querida vovó.

Já faz um tempo desde a despedida. Parece que as palavras fogem de mim – seria essa uma condição inerente a nós? Tenho descoberto que não. Por isso escrevo, para dizer que a senhora também pode falar. E tudo que disse, ao contrário do que a fizeram acreditar, era importante. Escrevo para lhe contar parte de minha história. Desde que você se foi, te conheci melhor e te reconheci em mim. Contraditório, não é? Isso tem total relação com meu olhar sobre mim mesma, sobre o outro e sobre o mundo.

A senhora foi muito cedo. Tinha passado pouco dos cinquenta. As doenças somadas eram resultado de uma rotina em que o trabalho braçal, sem direito a descanso, lhe era condição de vida imposta. Foi empregada doméstica. Costureira. Comerciante popular. Nunca lhe restara tempo para o autocuidado. Enquanto muitas lutavam legitimamente pelo direito de trabalhar, desde a infância o trabalho lhe era obrigatório para se sustentar e, mais adiante, criar seus filhos.

Lembro de quando a senhora desejava ver meus 15 anos. Infelizmente não foi possível. Hoje, mais de uma década depois, digo que os 15 não foram anos fáceis. Ser uma adolescente negra entre tantos colegas brancos, em uma escola particular, fantasiava de “brincadeira” o racismo que me rodeava – e que só vim descobri-lo como tal há poucos anos. “Pretinha” era o apelido mais leve. No entanto, “preta suja”, “lagartixa preta” e “preta excluída” eram os mais rotineiros. Nesses tempos, a dor era engolida como um comprimido. Um choro comprimido de mágoa e insatisfação com minha imagem. Nessa época, ser parecida com a senhora me era motivo de incômodo.

Foto de uma agenda do Ensino Médio.

Na fase adulta, prestei vestibular para o curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Ah, vovó, e vestibular é algo que nem existe mais. Consegui ser aprovada. Imagino que hoje a senhora seria orgulhosa de, após ter a primeira filha formada, ter também a primeira neta. “Estude pra ser doutora” e “o melhor marido é um bom diploma e um bom emprego” eram frases que a senhora sempre me dizia. Eu não entendia muito bem, contudo esses dias me flagrei dando os mesmos conselhos a uma menina negra mais jovem. Sorri, sozinha, sabendo que hoje te entendo melhor. Mesmo assim, nessa época, ser parecida com a senhora ainda me era motivo de incômodo.

Na universidade a situação foi diferente. O racismo era sutil. Ninguém me apelidava a partir da minha racialização. Mas a professora branca ria e balançava a cabeça, em negação, enquanto eu falava em sala de aula ou apresentava seminários. O professor branco dizia que eu não estava preparada o suficiente para ministrar uma palestra ou participar de um concurso, mas que poderia ter o privilégio de estar “acorrentada ao pé da mesa” dele, fazendo seu trabalho sem que meu nome fosse mencionado ou lavando sua louça. A colega branca me aconselhava a nem pensar em telejornalismo, pois minha estética não era “boa” para vídeos. Eu acreditei em tudo. E tentei me transformar para caber, vovó. Eu tentava me adequar. Na bolsa pesada, além dos cadernos e livros, carregava também a prancha de cabelo. Em cada intervalo entre as aulas, retocava para parecer mais apresentável. A base de rosto, sempre dois tons abaixo da minha pele. Nessa época, ser parecida com a senhora também me era motivo de incômodo.

Hoje estou no doutorado, vovó. E posso imaginar o almoço no quintal em comemoração que seria preparado pela senhora pelo orgulho de pensar que a menina que brincava embaixo da sua banca de camelô um dia estaria se preparando para ser professora. E foi aqui, vovó, que veio a revolução. Foi ao lado de outras pessoas corajosas que consegui nos enxergar. E, com isso, pude ver que o empoderamento verdadeiro é o coletivo. Nessa época, sentir incômodo por ser parecida com a senhora me era motivo de questionamento.

E aqui gostaria de te contar que conheci muitas mulheres que têm ajudado meu caminhar:

Conheci uma mulher corajosa com o mesmo nome da senhora: Socorro. Ela me ajudou a entender que as relações acadêmicas podem ser saudáveis. Ela me é exemplo de bondade, generosidade e compreensão. Com ela aprendo a ser uma mulher e professora cada dia melhores.

Alice Andrade.

Conheci mulheres inspiradoras: Andrielle, Emanuele, Sarah, Luciana, Emilly, Beatriz, Joana, Patrícia, Aline, Ângela e outras muitas – tantas que não caberia aqui nomear todas. Elas seguraram minhas mãos e me ensinaram que a solidariedade entre mulheres é o que nos faz caminhar melhor e mais longe.

Conheci, através dos livros, uma mulher de coragem chamada Djamila Ribeiro. Suas lutas me ajudaram a compreender quem eu sou, que lugar social ocupo e o que posso – e devo – fazer pelo nosso povo a partir dessa compreensão. Se você estivesse aqui, vovó, eu te ensinaria o que é feminismo negro. Diria que nesse espaço as suas lutas seriam acolhidas em um lugar no qual nossas humanidades não seriam roubadas por sermos quem somos.

Conheci uma mulher potente chamada Carla Akotirene. Com a interseccionalidade, ela me mostrou que suas lutas, vovó, de mulher, negra e periférica eram intensificadas por essas três condições simultâneas. Contaria a você que a negação da família do seu marido branco tinha mais a ver com o racismo deles do que contigo. E que a senhora teve força suficiente para enegrecer os espaços que ocupou e resistiu com bravura.

Conheci uma mulher maravilhosa de nome Winnie Bueno. Vovó, foi com ela que aprendi que há imagens que prenderam e controlaram a senhora em um lugar social de subalternização, e que tentavam dizer ao mundo que sua força era brutalidade, ignorância, conflito e até mesmo monstruosidade. Não era verdade. Tentaram lhe fazer assim porque sua grandiosidade amedrontava a pequenez de tantos.

Fui apresentada às letras de Chimamanda Ngozi Adichie. A senhora iria gostar muito dela, pois também é uma contadora de histórias. Foi com ela que entendi que o mundo tenta contar uma história única sobre nós, mas somos múltiplos. Podemos – e devemos – construir nossas próprias narrativas.

Conheci uma mulher negra cuja força me lembrou a sua. Ela se chama Conceição Evaristo. Lendo as histórias que ela conta, te reconheci. Conceição me mostrou, vovó, que sua biografia é importante. E que é graças à sua resistência que devo a minha existência. Suas insubmissas lágrimas tantas vezes foram o combustível para que as minhas pudessem cessar. Foram suas vivências que tornaram possíveis as minhas escrevivências.

Também conheci uma mulher gloriosa, Neusa Santos Souza. Ela me ensinou que ser negra em uma sociedade racista é ocupar um lugar social de responsabilidade. Que a experiência de ter sido massacrada em nossas próprias identidades nos exige uma postura mais autoafirmativa. E que é possível termos nossos próprios modelos de identificação que não o branco.

Conheci uma mulher sábia chamada Sueli Carneiro. Ela me mostrou que, enquanto mulheres negras, precisamos estar em movimento para combater as opressões de raça e gênero que engendram tantas injustiças sobre nós.

Foi ao lado dessas e de muitas outras mulheres que tenho tentado dar continuidade à resistência que a senhora começou, vovó. E ensinou à minha mãe. E ela me ensinou. Agora compreendo que quando vocês duas me diziam “seja boazinha!”, “não responda!”, “não questione!”, não era para reforçar esse lugar de apagamento e invisibilização que as ensinaram, e sim para me proteger das marcas do racismo que ambas carregavam e carregam na própria pele. Mas hoje, vovó, peço licença para fazer o contrário. A partir de agora, sei que a bondade não tem a ver com subalternização. Sei que responder é necessário para fazer ouvir minha voz. Sei que os questionamentos são fundamentais para que eu mostre a importância das nossas histórias. Tenho desobedecido esses conselhos, vovó e mainha, mas é por uma boa causa – a nossa causa.

Dos últimos anos de sua vida, não temos fotografias juntas. Talvez pelo constrangimento de ter minha aparência comparada à sua. Ou pelo remorso que eu sentiria ao ver que a recíproca não era verdadeira e que, da sua parte, teria muito orgulho de mim. No entanto, lembro também de outro motivo: sua aversão a fotografias. Por que você não gostava da sua imagem? Por que não queria ser vista? Em vez de ajudá-la a desconstruir tudo isso, eu ignorei suas dores internas. Por isso, por tudo e por tanto, vovó, te peço perdão. E posso te dizer que hoje tudo isso é diferente. Não posso mais ter fotografias com a senhora, porém tenho sua imagem como meu reflexo. E agora, ser parecida com a senhora me é motivo de orgulho.

Com todo esse aprendizado, sou uma neta melhor para a minha vovó que ficou. E sei que, de onde estiver, minha insurgência é razão de alegria para a senhora. Por fim, gostaria de dizer que muitas vezes a senhora esteve sozinha e sei que não foi fácil. Mas que não precisa se preocupar comigo, pois caminho ao lado de muitas. E ao seu lado também.

Sua bênção.

Alice.

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Leia a coluna anterior: Como os estudos sobre a descolonização me ajudaram a lidar com o medo de falar

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom, um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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2 respostas para “Carta para a minha avó negra”

  1. Dilson disse:

    Excelente texto, tanto pelo aspecto acadêmico, quanto pela abordagem sistêmica de Bertrand Hellinger. É maravilhosa a forma como você transita no diálogo com sua avó e expõe suas vivências e ideias. Parabéns, sucesso.

  2. Alice Andrade disse:

    Obrigada, Dilson! Fico muito feliz e honrada que tenha lido e gostado do texto. Sucesso a nós. Um abraço!

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