Ciência e linguagem Ciência Nordestina

terça-feira, 20 agosto 2019

Colunista fala dos desafios da divulgação científica e conta como desenho animado consegue simplificar temas científicos sem abrir mão de termos técnicos

A maior dificuldade na divulgação científica é manter a atenção das pessoas no conceito que se deseja divulgar. Daí a necessidade de boas figuras (imagens) para os textos científicos e uma linguagem acessível a todos. Um dos grandes entraves é que o conhecimento humano avança criando sua linguagem própria. Impossível discordar de um adolescente começando uma frase com “data maxima vênia1. Ou falar do Big Bang realçado por um ab incunabulis” 2. As redes sociais funcionam como mecanismos de comunicação verdadeiramente orgânicos, mutantes, biológicos…De uma semana para outra surgem verbos novos, como o “upar” – horrível por sinal. Mas, completamente incorporado na linguagem dos jovens.

A dificuldade do cientista é saltar da linguagem acadêmica e migrar para o coloquial (o famoso popular) sem o medo de perder a precisão dos termos técnicos. Como contar a uma criança de 5 anos de que são feitos os planetas, o que é a gravidade ou mesmo o porquê de o céu ser azul… Eis que não mais que de repente estou assistindo desenhos animados com a filhinha de 5 anos e vejo um desenho animado que define de maneira claríssima o que é gravidade a partir da dobra do espaço-tempo, como são feitas as estrelas e planetas. Tudo isso em 30 minutos.

A historinha fala de algumas inteligências artificiais (os storybots) que são desafiadas a responder as questões de crianças via aparelhos celulares. E não abrindo mão dos termos técnicos, o desenho animado consegue simplificar o tema ao ponto de ser didático em temas espinhosos até para adultos.

No caso da origem dos planetas, as inteligências artificiais viajam até o espaço, onde encontram os ingredientes dos planetas – poeira, gás e gravidade. E partindo de conceitos bem simples, fazem o público entender até porque os planetas assumem o formato esférico. A estratégia para consolidar os conceitos parte da musicalização. As ideias são repetidas em expressões cada vez mais curtas em ritmo de “rap”. E simplesmente “grudam” na cabeça de uma forma incrível. É fascinante esta repaginação da forma terna, precisa e real de divulgação científica.

Os storybots fizeram com que minha filha (aos 5 anos) entendesse a origem do universo da maneira mais clara possível. Em tempos tenebrosos para a ciência, é do desenho animado que surgem as luzes no fim do túnel. Para os que já curtiram o Mundo de Beakman, os Storybots são um ótimo recomeço a favor da ciência.

1 Expressão usada para, muito respeitosamente, discordar de ou contrariar a ideia ou opinião de outrem; com o máximo respeito.

2 Desde o começo

A coluna Ciência Nordestina é atualizada às terças-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag CiênciaNordestina.

Leia o texto anterior: O Brasil no centro das atenções do planeta

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

Uma resposta para “Ciência e linguagem”

  1. Gláuciio Brandão disse:

    Muito massa!
    Gostaria de ter aprendido assim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital