Ciência no interior e o novo normal Ciência Nordestina

terça-feira, 7 setembro 2021

A interiorização da ciência e pós-graduação no Brasil está atrasada alguns séculos, a solução é reforçar os elos com todas as instituições de dentro e de fora do nosso país

A Universidade pública brasileira concentra a maior parte da pesquisa e pós-graduação no país (fato inconteste) e é a via mais segura para promover a transformação social que o país tanto necessita.  Este fato precisa ser dito quantas vezes for necessário, em contraponto a qualquer argumento negacionista / privatista. Outro ponto que veio sendo transformado com o tempo foi a distribuição destas universidades ao longo de nosso mapa. As Universidades, que inicialmente estavam instaladas nas capitais, migraram há pouco menos de 20 anos para o interior do país.

No Nordeste, em particular, isto significou uma migração do litoral para o sertão. Este processo recente, no entanto, tem implicações que precisam ser analisadas. Como o processo de consolidação da pesquisa e pós-graduação requer tempo e investimento, estas instituições chegam em 2021 iniciando suas primeiras turmas de doutorado, em estruturas ainda em consolidação. No entanto, vivemos neste período o cenário desolador de investimento que põe dúvidas sobre a continuidade do processo de interiorização do conhecimento.

E este novo normal (não apenas imposto pela pandemia, mas também pela escassez de investimentos) dá seus sinais: o edital Universal do CNPq passa de apoio individual para projeto conjunto com equipe interinstitucional, o que se entende como estratégia para apoiar mais pesquisadores a partir de uma fonte limitada de recursos.  E o desafio continua sendo a manutenção de equipamentos e a reposição de insumos – para além do “financiamento” feito com o próprio salário dos pesquisadores, há valores impossíveis de se atingir (na manutenção de grandes equipamentos, por exemplo).

Relativamente à pós-graduação (que segue para além dos grupos de pesquisa e atinge uma rede mais ampla de interações), a escassez de financiamento é ainda mais crítica para as novas instituições, dada a maior quantidade de cursos de pós-graduação de nível 3. Explico o porquê: na avaliação da Capes, os conceitos entre 3 e 7 permitem com que as pós-graduações permaneçam em funcionamento. Uma pós-graduação nível 2 não está habilitada a funcionar. Isso significa que nestas instituições, os programas encontram-se no limiar de fechamento, com o agravante do não-financiamento de bolsas por agências de financiamento. Nestes programas, há, portanto, uma necessidade urgente para melhoria dos índices (produção, titulação, entre outros) em tempos de vacas literalmente magras. Obviamente, em um cenário de livre concorrência, as pós-graduações do interior tendem a voltar para o nível 2 e sumirem, o que joga pela janela todos os esforços de interiorização dos últimos 20 anos. E como resolver?

Em um cenário apocalíptico para a ciência no interior, a única solução viável é reforçar os elos com todas as instituições (de dentro e de fora do Brasil) no melhor estilo “ninguém solta a mão de ninguém”. E isto exige uma boa dose de empatia e de reconhecimento de que a interiorização da ciência e pós-graduação no Brasil está atrasada alguns séculos e mesmo em um estágio como o atual não tem a opção de retroceder.

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Leia o texto anterior: A pandemia acabou?

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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