Criando uma startup de um copo d’água Empreendedorismo Inovador

quarta-feira, 27 abril 2022

Conheçam a experiência inovadora da Ooho, uma startup que pretende mudar a forma de hidratação das pessoas

 

Há quase quatro anos, introduzi aqui o conceito de redução aos princípios, como um método para isolar o princípio útil de um P2S2 (Processo, Produto, Sistema, Startup), compreender de fato sua proposta de valor e, a partir dela, desenvolver P2S2s, digamos assim, “inderrubáveis”. O método, creditado ao filósofo Aristóteles – “O primeiro princípio é uma proposição básica, que não pode ser deduzida de nenhuma outra suposição” -, ganhou notoriedade a partir de uma entrevista com o CEO da Tesla, Elon Musk, que utiliza a metodologia de redução aos princípios como método de pensamento inovador.

Esta AC trata da segunda fase: a construção de propostas de valor robustas a partir da main useful function (função útil principal) encontrada, definida ou gerada quando da aplicação da redução aos princípios (RaP) a um negócio qualquer. Chamei esse caminho de Expansão a Sistema, ou EaS, em contraposição a RaP. Em termos de Design Thinking, você pode pensar numa RaP como uma convergência e numa EaS como uma divergência, cuja correta execução sequencial destes processos manterá seu cérebro pulsando inovadoramente para sempre.

Alguns conceitos

Proposta de valor. Costumo dizer que é aquilo que dá sustentação ao modelo de negócio. É a razão de existir de uma startup. É aquilo pelo qual os clientes apostam e aportam seu “cascalho”, pois resolverá seus problemas. É a razão do Mercado.

MUF (Main Useful Function). Proposição básica que não pode ser deduzida de nenhuma outra suposição; “tijolo fundamental” ou função principal executada pelo seu P2S2, a partir da qual pode-se construir em cima de uma verdades que não podem mais ser reduzidas. 

RaP. (Redução aos Princípios). Reduzir tudo a sua verdade fundamental, aos princípios, e raciocinar em oposição ao raciocínio por analogia; deixar de seguir o que está estabelecido simplesmente porque está estabelecido. Ou, como diria Sherlock Holmes: “Uma vez eliminado o impossível, o que restar, não importa o quão improvável, deve ser a verdade!”.

Da AC Redução aos Princípios aplicada aos negócios trago os 3 passos para executação da RaP:

P1: Identifique e defina suas suposições atuais: ideias vigentes e/ou pré-concebidas.

P2: Reduza o problema a seus princípios: o que não pode ser eliminado ou refeito.

P3: Crie novas soluções a partir do zero: sinta-se livre para voar.

EaS: Expansão a Sistema 

Ok: apliquei a RaP a um negócio em declínio (P2S2) e obtive a “razão atômica” de ele existir. O que faço agora? Você tem dois caminhos: olhar em volta, admirar a quantidade de players no Mercado, achar que é grande a barreira de re-entrada e simplesmente pivotar. Ou ser resiliente, decidir que nasceu para isso, e remodelar sua proposta de valor por meio de uma EaS, Expansão a Sistema. Se a segunda foi sua escolha, você está no princípio P3 da RaP. Vamos continuar deste ponto, então:

E0: Defina a função primordial do elemento em torna do qual será constituído o (novo) Sistema. Este item tem um “0” porque admiti que você já definiu a MUF de seu antigo P2S2.

E1: Crie outros elementos com funções auxiliares mínimas (Si).

E2: Conecte efetivamente cada um dos elementos ao elemento inicial.

E3: Conecte efetivamente os elementos entre si.

E4: Verifique se todas as partes (elementos e conexões) são imprescindíveis, testando se o propósito pode ser alcançado mesmo eliminando alguns dos objetivos.  

Para E4 admita que o propósito de seu novo P2S2 é o somatório de objetivos de todas as partes. Olhe em volta, pois fiz até um desenhozinho colorido para facilitar as coisas, mostrando como expandir uma MUF, proposta de valor, a um sistema, ou a um novo negócio.

Desenhozinho colorido para facilitar as coisas: Sistema expandido a partir de uma MUF

Visto pela primeira vez, parece até algo complicado, né não? Já que é uma AC, aula condensada, vou jogar um pouco d’água e transformá-la em uma AE, aula expandida, por meio de uma aplicação. Vejam como é simples. 

Uma aplicação saborosa: de um copo d ‘água nascerá uma startup!

Pensemos em um copo cheio de água. Vou aderir ao popular e chamá-lo de copo d’água, sabendo que ele pode ser de plástico ou vidro, por exemplo. De maneira sintética, posso dizer que sua proposta e valor é matar a sede. 

Aplicando a RaP ao conjunto

P1: Minhas concepções. O copo carrega, transporta, segura, armazena, leva à minha boca, evita que a água flua devido à gravidade etc. 

P2: Reduzindo ao fundamental. Necessito beber água. A MUF que se extrai das palavras de P1, uma espécie de interseção, poderia ser, por exemplo, conter, pois é comum a todas as palavras.

P3: Preciso mesmo de um copo? Na verdade, preciso de algo que contenha a água.

Aplicando a EaS ao P3 da RaP

E0 (P3): preciso de algo que contenha a água

E1: Criando novos elementos

  • S1. A contenção não precisa ser de material rígido
  • S2. Tem que ser facilmente transportável
  • S3. Tem de eliminar o efeito da gravidade
  • S4. Tem de ser transparente para eu saber o que vou ingerir
  • S5. A solução tem de ser ambientalmente adequada

E2: Conectando tudo à MUF, à função primordial. Vou desenvolver um dispositivo que conterá a água, matará minha sede, será transparente e não poluirá o ambiente.

E3: Conectando os elementos entre si

  • S1 + S5: um plástico biodegradável?
  • S2 + S4: em forma de saquinho?

E4: Eliminando objetivos redundantes. S3 é contemplado por S2 + S4.

O que sobrou (S1, S2, S4, S5) é capaz de cumprir minimamente a função do copo? Se sim, pensa, pensa, pensa… Bingo: que tal uma bolha com resistência suficiente para conter líquidos e que seja feita de algo comestível como, por exemplo, algumas algas? E “zaz!”, nasce a Ooho, uma startup que pretende mudar a forma de hidratação das pessoas. E alguns efeitos colaterais interessantes: pode conter outros líquidos, você pode fazer em casa, usando cloreto de sódio e utensílios culinários comuns, e ainda reduzirá a fabricação e a correspondente eliminação inadequada de milhares de toneladas de recipientes plásticos. Apesar dessa facilidade, a ideia é tão revolucionária que chegou a ganhar o prêmio Lexuos Design Award, em 2014 e foi indicado ao prêmio “Design to Improve Life“. Existem vários vídeos na Internet mostrando o desempenho da Ohoo.

Finalizando…

Não sei qual método a galera da Ohoo utilizou para chegar a esse conceito revolucionário, capaz de transformar um copo cheio de água em um copo feito de água, praticamente. Quis apenas evidenciar que uma aplicação de RaP seguida de uma EaS pode fazer nosso cérebro convergir e divergir a ponto de reduzir seu negócio a sua proposta fundamental (MUF) e depois expandi-lo a um novo sistema, garantindo mais um ciclo para seu P2S2. Então, se o pessoal da Ohoo pôde fazer tempestade num copo d’água, o que você não poderá fazer com essas ferramentas?

Se estivesse numa roda de conhecidos e dissesse que faria o que o título propôs, mandariam suspender minha bebida na hora, estivesse ela numa bolha ou num copo.

Referências:

pensamento inovador (https://www.youtube.com/watch?v=NV3sBlRgzTI)

Ooho (http://www.oohowater.com/)

vídeos na Internet (https://www.youtube.com/watch?v=yHBNJB622MU)

A coluna Empreendedorismo Inovador é atualizada às quartas-feiras. Gostou da coluna? Do assunto? Quer sugerir algum tema? Queremos saber sua opinião. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag #EmpreendedorismoInovador.

Leia a edição anterior: Desapegue-se: inovação não é fim, é meio! 

Gláucio Brandão é Pesquisador em Extensão Inovadora do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Gláucio Brandão

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