Denise existe – e resiste – (Parte 2) Diversidades

segunda-feira, 23 dezembro 2019

Acompanhe a segunda parte do texto que conta um recorte da vida de Denise Carvalho, a única professora negra do Departamento de Comunicação Social da UFRN

Na coluna desta semana publicamos a segunda parte do perfil que a pesquisadora negra Alice Andrade, doutoranda em Estudos da Mídia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, traçou de uma sua irmã de ancestralidade, a cientista social Denise Carvalho. Uma história de opressões cotidianas disfarçadas de “normalidade”, compartilhadas com todas as mulheres negras, mas também de autoafirmação, de conquista de espaços e de voz. Uma história inspiradora que incentiva muitas outras intelectuais filhas da África a não desistirem de lutar por uma sociedade, uma academia e uma ciência democráticas, que promovam igualdade de oportunidades e justiça epistêmica. O texto foi publicado originalmente, na íntegra, na segunda edição da revista digital Poticuir, primeira publicação LGBTQIA+ potiguar.

Denise existe – e resiste – Parte 2

Por Alice Andrade

Chegou à capital dos grandes edifícios e céu cinzento em um dia exatamente dessa cor. Através de um amigo, que já residia lá para cursar o mestrado, tentou ingressar na carreira acadêmica também. Morava em uma pensão e se sustentava com o dinheiro do seguro desemprego. Para almoçar, dependia da ajuda do colega, que conseguia a refeição para ela na universidade.

A pesquisadora Alice Andrade

Enquanto isso, Denise precisou trabalhar na área administrativa em um centro de pesquisa para se sustentar e, aos poucos, conseguir espaço como pesquisadora voluntária. Quando completou três anos na nova cidade, conseguiu ser aprovada no mestrado em Direito para estudar racismo e direitos humanos. A felicidade era proporcional ao trabalho a mais que viria. Agora era preciso conciliar emprego e estudos. A cidade que não dorme também não a deixava dormir.

Em uma viagem de ônibus, enquanto seus olhos fitavam a paisagem pela janela, os ouvidos – infelizmente – estavam presentes. “Eu nunca deixaria meu filho casar com uma negrinha”, ouviu de uma mulher sentada em um banco distante, acompanhada de risadas debochadas. Naquele momento, chorou enquanto sentiu que as palavras também podem chicotear, e que o racismo estrutura nossa sociedade.

Contrariando as palavras maldosas que ouviu, descobriu que não existe cor para o amor. No fim do mestrado, em 2007, Denise se apaixonou. Conheceu Emerson na igreja, onde ela cantava. “Achei o sorriso dele lindo, tão sincero… Eu sentei tão perto dele que resolveu me chamar para tomar um suco”, lembra. Da sintonia veio o desejo de compartilhar a vida. Em 13 de dezembro de 2009, casaram-se em uma igreja adventista florida, na terra da garoa, em cerimônia com bolo e sorvete para os amigos dela e familiares dele.

Segundo Denise, o casamento com um homem branco não foi um problema, porém o assunto é constante pauta entre os dois. “Das conversas que temos, falamos sobre racismo, sobre as leituras que tenho feito. Observamos o preconceito em alguns espaços nos quais não nos sentimos totalmente agregados. Talvez um estranhamento, para alguns tenho certeza que é pela questão da cor, inclusive por parte de pessoas jovens”, analisa.

Concluído o mestrado, tentou a seleção para o doutorado em Sociologia também pela Universidade de São Paulo. Ela precisava de mais esse papel – o diploma – para dar legitimidade ao seu sonho da docência no ensino superior. Na primeira tentativa, passou em todas as fases, mas foi eliminada na entrevista. Suas lágrimas salgadas foram combustíveis para a persistência. Estudou incessantemente durante 12 meses e reconstruiu o projeto de pesquisa. Porém, nem só de livros, teclas e bits se constrói uma relação acadêmica. Ainda faltava o fator humano.

Procurou formalmente o presidente da sua primeira banca de seleção para o doutorado, de modo que pudesse conseguir informações a respeito das lacunas deixadas na entrevista, sendo esse um direito de todos os candidatos. Com a autorização dele, seguiu em busca dos demais membros da banca e recebeu orientações para a melhoria do texto.

Mas os ponteiros do relógio não desaceleram para que consertemos nosso mundo. E os de Denise insistiam em correr. Faltavam apenas quatro dias para a entrega final do projeto e muitas eram as correções necessárias. Após quatro luas e quatro sóis vistos da janela do quarto, enquanto estudava sem dormir, conseguiu concluir. E foi na segunda tentativa que conquistou a vaga almejada.

Nos primeiros anos de doutorado e de casamento, Denise foi morar na casa deixada a Emerson pela família. Contudo, depois de um tempo, mesmo estando feliz em São Paulo, o lar de fachada verde ainda enchia seu coração de nostalgia. “Tinha saudades da praia e da casa. Eu saí daquela casa de uma forma tão brusca que quis voltar”. No último ano do doutorado, veio para Natal com o marido. Aqui teriam a casa e só se preocupariam com as despesas fixas. O plano era conseguir um emprego durante o último ano da bolsa.

Memórias de Denise

Emerson, que trabalha com artes gráficas e comunicação visual, não conseguiu alocação no mercado. Denise também não encontrou oportunidades como professora. O fim de ano costuma ser motivo de alegria para as famílias, mas para Denise foi de desespero. “A bolsa acabou. A gente ficou em uma situação feia. Em 2016 me endividei, perdi todos os cartões, entrei em um negócio de marketing multinível que não deu certo, levei calote. Foi horrível”.

A fé herdada de Maria não cessou. Contudo, houve um dia em que a dificuldade bateu à porta da casa verde. E entrou. A fome não conseguiu entrar junto, pois a solidariedade dos vizinhos e membros da igreja veio em forma de cestas básicas. Não havia dinheiro para pagar todas as contas, então o casal ficou sem água durante oito meses. Para tomar banho, enchiam baldes nas casas dos vizinhos desde às 6h. “De que adianta estudar tanto para ficar nessa situação?”, questionava Denise.

“Então veio o fundo do poço. Eu já estava muito decepcionada. Sempre pensava que conseguiria uma coisa boa quando voltasse para Natal, mas mandei muitos currículos e não conseguia nada. Até em uma seleção para professora de Sociologia, meu amigo que era jornalista conseguiu passar e eu, socióloga, não. Achei tão estranho”. Perguntei se seu amigo é branco. Respondeu que sim.

A essa altura, os donos do mercadinho onde as dívidas se acumulavam, doaram alimentos para que o casal pudesse comer. No prato, arroz, feijão e farofa. Nos dias mais fartos, também havia ovos. Foi quando decidiram se inscrever no Programa Bolsa Família. Eram apenas R$85, mas que faziam a diferença. “Eu ficava muito revoltada nessa época, quando falavam que a gente vivia de Bolsa Família. Não dá para viver disso. Lembro quando fomos ao atacado fazer compras. Vimos que chegou a R$66 o valor e pensamos: vamos parar por aqui. Então saímos tirando todas as outras coisas de dentro do carrinho”.

As dificuldades pediam passagem dentro e fora de Denise. Entre tantas incertezas, precisava concluir a tese. Entretanto, estava desestimulada com os esforços incinerados em uma fogueira de complicações, pela falta de dinheiro e de emprego. Sentia-se perdida entre arbustos que cresceram mais do que imaginara possível.

“Eu vi na prática que ideia de individualismo, esforço próprio e meritocracia não existe se não existem as chances. Não adiantou tantos esforços, pois mesmo muito qualificada, às vezes a cor foi um problema, ou não havia oportunidades. Certa vez pensei até em seguir outro caminho e me candidatar a uma vaga de babá”, conta.

Todavia, a solidariedade passou a inundar seus dias. “Denise, eu preciso de uma pessoa para organizar meus documentos e te pago por mês”, sugeriu sua orientadora, Márcia Lima. Mas quando ela pedia para a professora compartilhar tais arquivos, esse momento nunca chegava. A emoção de Denise escorre pelos olhos ao lembrar da generosidade da mulher que a acolheu enquanto orientanda e amiga. “E eu não era nem das mais brilhantes entre seus orientandos”, opina, sem se dar conta da constelação que envolve sua aura.

Mesmo com todo esse apoio, ela não sabia como faria para defender a tese em São Paulo, e já calculava quanto precisaria devolver em dinheiro ao programa de pós-graduação, caso desistisse do doutorado. Até que a bondade humana em forma genuína se revelou como colheita de um plantio que sempre vem para quem sabe semear. Seus amigos, de Natal e São Paulo, se mobilizaram e compraram as passagens para que Denise pudesse concluir o doutorado. Sua orientadora fez todas as impressões da tese e entregou à banca. “Fizeram por nada em troca. Simplesmente pelo carinho”. Essa rede de afeto, somada a tantos anos de esforço, permitiu à Denise terminar a tese sobre crimes raciais e delitos de intolerância. Mulher, negra, periférica, socióloga, mestra e doutora.

Ao voltar para Natal após a defesa, no início de 2018, a esperança pelo sonho da docência se reavivou. Logo, resolveu pesquisar editais de pós-doutorado na internet. Navegando em um site de busca, as ondas da web e da vida a levaram ao site do Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN). Em um momento da vida no qual parecia se afogar, o sonho da docência recuperou o fôlego intensamente.

Denise Carvalho. Foto de Alice Andrade.

Então, sensibilizada pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, cujas raízes ancestrais, cor da pele e origens periféricas são comuns a ela, Denise decidiu estudar a representação social da vereadora, direitos humanos e redes sociais. “Para me inscrever no processo seletivo, eu usava a internet do meu vizinho. Para anexar todos os documentos, colocamos o notebook para o lado de fora da janela, esperando que o sinal melhorasse. Demorou mais de quatro horas”, conta.

Seu projeto foi escolhido pelo professor Daniel Meirinho, seu atual orientador e amigo, por quem demonstra muita gratidão. Denise se diverte com o fato de ser orientada por alguém mais jovem. “Fiquei muito surpresa e achei o máximo!”. Atualmente ela é bolsista do Programa Nacional de Pós-Doutorado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (PNPD/CAPES), que visa inserir pesquisadores em estágio pós-doutoral, reforçar os grupos de pesquisa brasileiros, renovar os quadros dos programas de pós-graduação e promover a realização de estudos de alto nível.

Sendo assim, desde março de 2018 é possível encontrar a professora no Departamento de Comunicação Social, ministrando aulas, organizando eventos, orientando estudantes e promovendo debates fundamentais para a construção da cidadania e emancipação social. Embora a vida de Denise nunca tenha sido leve, presenteia seus conviventes com um sorriso desenhado dos olhos aos lábios. Ela é, hoje (novembro/2019), a única professora negra do DECOM – salientando-se o fato de que será docente no departamento apenas até o fim do estágio pós-doutoral – o que inspira muitas estudantes a seguirem o sonho da docência.

Das memórias de racismo da fase adulta, destaca duas. A primeira, na portaria de um condomínio de luxo de um professor universitário em São Paulo, quando estava com outras duas mulheres – sendo uma negra e a outra branca, com cabelos cacheados. O porteiro indicou a elas uma entrada muito distante. O estranhamento veio, mas seguiram. Ao subirem, o constrangimento e chateação tomaram o professor, pois percebeu que as fizeram subir pela entrada de serviço. Como suas ancestrais negras, que ocupavam os espaços de servidão da casa-grande, chegaram à residência pela porta da cozinha.

Foto: Alice Andrade.

A segunda ocasião aconteceu quando a cor da sua pele lhe foi cartão de visita para o preconceito, mesmo num espaço universitário. “Fui à Faculdade de Direito devolver um livro. Estava arrumada, pois iria à igreja. Mesmo assim o segurança não me reconheceu como aluna e impediu minha entrada. Tive que tirar a carteirinha de estudante e mostrar. Ele me pediu perdão e ficou constrangido, mas vi que não sou o perfil de aluna que frequentava aquele lugar”.

Em seus primórdios, as universidades foram construídas para uma elite intelectual branca e não se presumia espaço para alguém com tecido epitelial escuro. O racismo institucional, enquanto ferramenta de dominação socioestrutural, existe quando instituições privadas ou públicas segregam pessoas a partir de suas características étnicas – seja por atitudes racistas diretas ou pela omissão, com a falta de políticas públicas.

Denise diz: “Não tenho lembrança de professores negros, mesmo pensando desde a infância. Depois disso, reencontrei uma docente negra apenas no doutorado, a minha orientadora”. Em pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 2018, chegou-se ao resultado de que apenas 16% dos professores universitários são negros. De 400 mil pessoas entrevistadas, entre docentes de universidades públicas e particulares, apenas 62.239 se autodeclaram negras.

É preciso descolonizar o pensamento, ampliar as oportunidades e pintar a universidade de preto e de povo, para que tenhamos mais mulheres como Denise nos ensinando que a ciência é lugar de todas e todos. “O que me incomoda, ainda hoje, é estar em espaços acadêmicos, dar boa noite e algumas pessoas não me responderem, mesmo cumprimentando outras de pele clara. Atribuo à minha cor, aí me pergunto: estou exagerando? É ‘mimimi’ da minha parte?”.

A pós-doutoranda e professora segue na casa e na fé que Maria deixou para ela. Na companhia de Emerson, Dudu e Malu (seus dois gatos de estimação), e da sua coleção de bonecas Barbie (sendo a maioria de cor negra), o caminho da linha de ônibus 77 é lotado de gente, de sonhos e de planos. Ao falar de livros, recomenda Um defeito de cor, da escritora Ana Maria Gonçalves. A autora preferida é Conceição Evaristo. Quanto à sua inspiração, a resposta é tão esperada quanto emocionada: “Quem me inspira é minha mãe. Parte dos problemas de saúde que ela teve foi por ter de trabalhar, criar uma filha e cuidar da casa. Mesmo assim conseguiu se formar e me criar com ótimos valores”.

Ao fim da conversa, pergunto à Denise qual é a parte mais gratificante em ser professora. Sua resposta afasta quaisquer rastros de objetividade que eram esperados desta jornalista, pois encheu meu coração de esperança e meus olhos, d’água: “O que mais gosto em ser professora é ser ouvida e sentir que importo. Muitas vezes, ao longo da minha vida, parecia que o que eu falava não era importante, não era cientificamente aceitável. Então eu via um homem branco fazendo a mesma pesquisa e sendo mais respeitado. Essas coisas que você já sabe, que a gente já sabe”.

Com a escritora cearense Jarid Arraes, aprendi sobre 15 heroínas negras brasileiras. No texto que se encerra, apresento mais uma. Uma mulher que precisou se reinventar diversas vezes na vida para mostrar a si mesma que ainda cabe sonhar. Como nos ensinou a própria Denise, esta não é uma história sobre meritocracia – um mito inventado pelo lado privilegiado da história, e sim sobre a importância das oportunidades e da resiliência.

Nestas linhas tentei, sem tanto sucesso quanto a narrativa merecia, contar um pouco da história de Denise. Isso porque a vida é maior que a palavra. Quem escreve sabe que o limite das letras desacompanha o fluxo incessante do existir. A vida de Denise acontece e este texto não é capaz de narrá-la em sua profundidade, mas é uma tentativa de mostrar uma existência que permite a mim e a outras mulheres negras que sonham em ocupar o espaço universitário, se sentirem existentes.

Referência:

Segunda edição da revista digital Poticuir

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Leia a coluna anterior: Denise existe e resiste – (Parte 1)

Antonino Condorelli é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Antonino Condorelli

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