Do colonial ao virtual: As infinitas barreiras que o racismo ultrapassa Diversidades

segunda-feira, 2 agosto 2021
O racismo permeia as ferramentas de redes sociais e de vários aplicativos. Imagem: www.outraspalavras.net

Como o racismo está entranhado nas ferramentas e funcionalidades de redes sociais digitais e aplicativos de entretenimento

Por Melquisedec Lima* (Instagram: @imelqui).

Segundo Borges e Fernandes (2018), as redes digitais possuem o potencial de revolucionar modelos comunicacionais na atualidade, através de uma nova forma de comunicação. Assim, a informação deixa de ser recebida de forma passiva, como é comum nas mídias de massa, e passa a ser absorvida em um contexto onde se é possível realizar uma interação, com a inauguração de uma comunicação que parte de todos para todos, e não de um para todos, que possibilita uma multiplicidade de vozes que ampliam reflexões e debates.

Porém, mesmo em um contexto onde o direito de fala e o acesso à informação é mais fácil e amplo, como nas redes sociais, é possível perceber que o caminho para uma comunicação genuinamente democrática e inclusiva ainda é extenso, principalmente pelo fato de que os detentores desses novos meios se encontram socialmente e financeiramente longe das minorias.

Melquisedec Lima – Foto Arquivo Pessoal.

Neste contexto, o racismo que ultrapassa barreiras temporais, sociais, econômicas, culturais, hoje em dia passa também a ultrapassar barreiras virtuais. Como pessoa negra, que lida diretamente com a produção de conteúdo digital, consigo claramente identificar as diversas nuances do racismo presentes em ferramentas e funcionalidades das redes sociais e aplicativos de entretenimento.

Os bancos de imagens, por exemplo, são grandes repercussões de padrões eurocêntricos nas peças publicitárias, já que na maioria esmagadora das vezes, as imagens presentes nos repositórios são de pessoas brancas, sendo elas europeias ou norte-americanas, o que se difere bastante da realidade étnico-racial do Brasil, onde 54% da população do país é autodeclarada negra.

Em uma busca rápida na internet, ao pesquisar pelo termo “mulheres bonitas” ou “homens bonitos”, nos deparamos apenas com pessoas brancas nos resultados principais. Com isso, conseguimos visualizar nitidamente uma estrutura que não reconhece a estética da pessoa negra como visualmente atrativa, ou seja, como bonita.

Um outro bom exemplo que podemos citar são filtros para story do Instagram, que em diversos casos, amenizam os traços negros presentes nos usuários da rede social, sendo responsáveis por diminuir o tamanho do nariz, da boca, mudar a cor dos olhos, afinar o formato do rosto, chegando até mesmo a clarear a tonalidade da pele dos usuários.

Bancos de imagens e filtros no Instagram são algumas das ferramentas em que o racismo se torna evidente. Imagem Caio Gomes – CB – DA Press.

Além desses casos, o aplicativo de edição de imagens FaceApp, já disponibilizou uma função que prometia tornar a foto do usuário mais sexy, entretanto, esse recurso acabou embranquecendo a pele do usuário. A justificativa dos desenvolvedores foi que, pelo fato do app recorrer ao uso de inteligência artificial, baseado em imagens de modelos de pele branca, para gerar as transformações nos rostos, tal fato acabou acontecendo.

Ações para promover o clareamento do povo negro não são práticas atuais, muito pelo contrário. Apesar de ser em outro contexto, a ideologia do embranquecimento adotada no período colonial, surgiu como uma forma de estimular a diminuição no número de pessoas negras.

Sendo assim, hoje em dia, o racismo advindo das tecnologias também é responsável pela desfragmentação da identidade negra, o que impacta diretamente no impedimento do processo de auto aceitação ao promover um padrão de beleza que foge totalmente da nossa realidade enquanto pessoas brasileiras, de etnias diversas. Nesse sentido, fica a reflexão aos desenvolvedores: o seu produto ou serviço é pensado para o uso de uma pessoa negra?

*Melquisedec Lima é formado em Comunicação Social com Habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e é pesquisador do grupo Descolonizando a Comunicação (desCom).

Referência: ​​BORGES, L. M; FERNANDES, M. C. R. Cyberativismo e Educação: o conceito de raça e racismo na cibercultura. Revista Espaço Acadêmico. 2018.

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“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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