Drama Boys Love “Adorável Escritor” e o impacto da cultura de fãs nas produções Tailandesas Observatório de Mídia

quinta-feira, 26 agosto 2021

Diante do fenômeno dos doramas, é fundamental uma reflexão sobre qual o papel dos fãs no condicionamento das produções televisivas deste gênero

Por: Luze Silva e Juliana Teixeira

Ao longo das décadas, o fenômeno dos doramas (produções televisivas do Japão) e dramas produzidos no Leste Asiático ganharam mais notoriedade. Tratando sobre diversas temáticas, as histórias cativam e atraem fãs em toda parte do mundo. Uma vertente destas produções são os dramas Boys Love — que retratam a construção da relação amorosa entre homens. No Brasil, quanto ao consumo deste gênero, a principal forma para assisti-los é por meio da internet, onde os fãs fazem o trabalho de traduzir, editar e disponibilizar em sites de fãs.

Por uma visão mais ampla, é comum nominar todas as produções nestes países como doramas, contudo cada uma tem suas especificidades culturais. O termo dorama se refere, dessa forma, exclusivamente, aos dramas feitos no Japão, mesmo que seja utilizado de forma genérica. Conforme Dissanayake (2012, p. 192-193 apud MADUREIRA e col. 2014, p. 3):

Quando falamos em drama da televisão asiática, devemos ter em mente que o estamos usando como um termo genérico. As distâncias culturais entre, digamos, China e Índia, ou Japão e Indonésia, ou Coreia e Tailândia são imensas. Portanto, dramas de TV de cada país possuem a sua própria identidade cultural. No entanto, apesar de reconhecer as diferenças, também é possível identificar algumas características comuns.

Vale explicar que os dramas Boys Love (BL) produzidos na Tailândia se distinguem dos japoneses. Um dos pontos a ser levado em consideração para diferenciá-los é que no Japão, em geral, os BL são oriundos de quadrinhos, desenhados animados, mangás ou animes, enquanto na Tailândia nascem primeiro no formato de novels[1]. Além disso, outro aspecto a ser visto é o da própria construção das narrativas e caracterização das personagens.

Os dramas tailandeses não retratam as personagens dentro daquilo que é considerado socialmente como “feminino”, mas mantêm uma certa estética padronizada (boa pele, corpos magros ou malhados). Quanto à narrativa, elas envolvem o público (seja na escrita ou série), estabelecendo uma relação de amor entre as personagens de modo gradativo e romântico. Já nas produções japonesas, por exemplo, as Yaoi[2] focam bastante no aspecto erótico.

Diante deste fenômeno, é fundamental realizar a reflexão sobre qual o papel dos fãs no condicionamento das produções televisivas deste gênero. Nas páginas seguintes são apresentadas reflexões sobre transmídia e convergência midiática de Jenkins (2013), bem como um aprofundamento quanto ao impacto da cultura de fãs na produção tailandesa “Adorável Escritor”. Dentro da própria trama podemos ver o conteúdo ser abordado em diferentes espaços digitais. Assim, no que diz respeito às multiplataformas, um mesmo conteúdo pode ser apresentado, mas sendo necessário observar a coerência na construção da narrativa e midiática. Isso porque é fundamental que os diferentes conteúdos façam sentido de forma independente. Ou seja, sem lacunas, mesmo que sejam complementares.

Dessa forma, a partir de procedimentos metodológicos da análise de conteúdo (BARDIN, 2016), o intuito é fazer esta importante discussão sobre os aspectos presentes dentro da referida trama.

Luze Silva

Transmídia, convergência digital e a cultura de fãs

As formas de comunicação, sobretudo na era tecnológica, ganharam nova roupagem e são pautadas — entre outros aspectos — no instantâneo e na ampla possibilidade de interação do consumidor com a informação. A comunicação se tornou muito mais dinâmica, rápida e multifacetada. Para além disso, adotando um olhar mais abrangente e bebendo das ideias que giram em torna da transmídia, neste jogo de comunicação e consumo, o indivíduo deixa de ser meramente consumidor e se torna produtor de conteúdo. Assim, de modo mais geral, podemos compreender que a transmídia funciona como um tradutor das consequências do surgimento dos novos meios de comunicação.

O primeiro pesquisador que discutiu o termo transmídia foi o professor Marsha Kinder, no ano de 1991. Contudo, foi Henry Jenkins que aprofundou o estudo sobre o tema no seu livro “Cultura da Convergência”, publicado em 2006. Com a internet e os dispositivos tecnológicos é possível consumir e produzir de maneira muito mais veloz. Realidade esta que se diferencia da relação do receptor e emissor nas mídias de comunicação mais tradicionais (rádios e televisões, por exemplo), uma vez que se tinha uma produção de conteúdo muito mais unilateral.

Hoje, estudiosos adotam o conceito de transmídia para se referir à utilização de várias mídias para a repercussão de conteúdos de maneira estratégica. Conteúdos, estes, que devem ser complementares, jamais podendo ser a replicação em diferentes plataformas. A principal ideia é dar ao consumidor a sensação de amplitude do universo que deseja estar imenso, como é o caso de livros, séries, sagas de filmes, dentre outros tipos de valores culturais que podem ser consumidos. De acordo com Santos (2016, p.68):

É a partir da noção de Cultura da Convergência que Jenkins (2009) identifica uma outra forma de contar histórias, marcada pelo uso interativo de diferentes plataformas e recursos tecnológicos, a chamada narrativa transmídia, caracterizada pelo uso interativo de diferentes plataformas. O emaranhado de informações que irá caracterizá-la compõe uma estrutura semelhante à de uma rede, onde os diversos pontos se conectam para compor o todo. Assim também é o hipertexto ou hipermídia, reflexo e um elemento desta rede. A rede digital, por sua vez, elemento macroestrutural, viabiliza a noção de transmídia ou multimídia em função de sua abrangência e pontos de contato com múltiplos segmentos.

É exatamente nessa perspectiva reflexiva que reforçamos as ideias sobre a cultura de fãs, intimamente ligada à convergência midiática. Devido à grande possibilidade da criação de conteúdos complementares, a convergência ampliou as práticas das culturas de fãs em todo o mundo. Para além da relação consumidor, os fãs se tornaram importantes produtores e propagadores de conteúdo. Nesse processo, utilizam a criatividade para ressignificar contextos, adotando posicionamentos críticos e profundos sobre determinados programas, tramas, ídolos, estórias ou filmes, por exemplo.

Juliana Teixeira (Foto: arquivo pessoal)

O fenômeno dos dramas boys love e a produção “adorável escritor”

Os dramas BL, abreviação de Boys Love, são um fenômeno no mundo inteiro. Tratam-se de produções do Leste Asiático, como a China, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Tailândia, por exemplo. Cada um produzindo de acordo com a realidade que vivenciam e com a abertura que têm para discutir a pauta LGBTQIA+ nos seus países. Assim, os BL se centram em estórias de amor homossexual nesses países que ainda têm forte repreensão às pessoas LGBTQIA+, mesmo com os avanços dos movimentos sociais.

O gênero teve início nos anos de 1980, se voltando, como público central, para as meninas adolescentes. De lá para cá, o termo BL foi se ressignificando e passou a se referir a todas as produções midiáticas que fazem a retratação de relações românticas entre homens.

Historicamente, os países do Leste Asiático ainda têm fortes questões ligadas ao preconceito e a não aceitação de pessoas LGBTQIA+, por isso, muitas vezes — e para muitas pessoas — é surpreendente eles terem uma produção televisiva voltada para o drama romântico entre homens. Isso, sem dúvidas, representa um avanço em crescimento que precisa ser potencializado.

Nesse sentido, necessariamente, os dramas BL funcionam como ferramenta imprescindível para a representatividade dentro e fora do continente Asiático. Mas é importante assumir uma postura crítica ao consumir estes produtos audiovisuais, uma vez que ainda existe uma série de fetiches sobre o comportamento do homem gay que acabam sendo reforçadas como verdadeiras em muitas produções. Além disso, devido à pouca abertura e por conta da discriminação nesses países, poucos atores são ou se declaram abertamente pertencentes à comunidade LGBTQIA+.

Falando especificamente sobre o drama BL tailandês “Adorável Escritor”, ele foi ar no dia 24 de fevereiro de 2021 pela WeTV Original. A trama aborda a relação entre os protagonistas Khun Gene (escritor de profissão) e Nubsib — ator que interpreta o papel principal da sua novel (estória). Gene não se sente à vontade para escrever estórias entre homens, pois gosta de escrever sobre fantasia. Contudo, por pressão da editora na qual trabalha se vê obrigado a produzir novels sobre garotos, já que a empresa fatura infinitamente mais devido ao seu sucesso.

Assim, o drama tailandês “Adorável Escritor” segue a relação amor x “ódio”, uma vez que os dois personagens principais têm suas vidas cruzadas de maneira inesperada. Nubsib fica sem apartamento e passa a morar junto com Gene, que o aceitou após muita insistência do seu amigo de faculdade Tum (também empresário artístico de Nubsib). Com isso, nesta empreitada de dividirem apartamento e trabalharem juntos, ambos começam a perceber sentimentos um pelo outro que por um bom tempo Gene nega insistentemente existir. Ao longo da trama, que mostra de maneira bastante única os bastidores por trás da produção de uma novel e drama BL, somos impelidos a acompanhar e entender o comportamento da indústria de produção de estórias e séries televisivas sobre Boys Love.

No decorrer dos desdobramentos da trama e, consequentemente, da proximidade de Gene e Nubsib, o telespectador fica imerso no universo da indústria, percebendo diretamente como as decisões que guiam a vida das empresas e atores são pautadas, muitas vezes, pelas demandas e desejos dos fãs. Durante todo o desenrolar da trama é possível compreender que os empresários, diretores e editores levam em consideração sumariamente as vontades do público para a tomada de decisões. Inclusive, em determinados momentos, os próprios protagonistas (Gene e Nubsib) se encontram presos em meio ao dilema “carreira x vida pessoal”.

Importante observar que o drama “Adorável Escritor” se propôs a fazer — mesmo que não conscientemente — a seguinte discussão: até que ponto é saudável a influência dos fãs na vida dos atores e ídolos da Tailândia? Quais as consequências de tanta pressão? Dentro do próprio drama podemos acompanhar as ramificações dessa realidade, potencializado pela sensação — por parte dos fãs — de serem “donos” dos seus ídolos e não aceitarem que se comportem diferente daquilo que já idealizaram. Nessa medida, vale pontuar, brevemente, que costumeiramente vemos este tipo comportamento dentro do universo dos idols coreanos, que têm suas vidas “controladas” pela vontade da indústria (esta, por sua vez, pautada nos interesses comerciais e dos fãs).

Comportamento da indústria a partir do que os fãs esperam no drama “Adorável Escritor”

Aspecto bastante recorrente durante todo o drama “Adorável Escritor” é a grande importância que as indústrias editoriais e produtoras dão para a opinião e recepção do público. Logo no início do primeiro episódio acompanhamos — ainda timidamente — o dilema do protagonista Gene, que se vê obrigado a criar uma novel Boys Love, pois sua editora reforça o tempo inteiro que vendem mais, atraem público (em sua maioria meninas) e geram rentabilidade para a empresa, a partir das estratégias de marketing e comunicação utilizadas e que são apresentadas no desenrolar da trama.

Oficialmente, Gene é escritor de estórias fantasiosas, mas, de acordo com sua editora (a Bua), ele precisaria investir mais no mercado de romances entre homens, especialmente porque sua primeira trama com esse gênero (chamada Bad Engineer Series) teve forte repercussão e garantiu um crescimento exponencial nas vendas da empresa. Por isso, o escritor nos direciona para a reflexão importante sobre como o mercado editorial e audiovisual tem se comportamento. Seu desconforto sobre precisar escrever contra sua vontade, apenas para alimentar uma indústria que vende romances entre homens de maneira bastante erótica, está presente durante a maior parte do drama.

É evidente, nesse sentido, e em diferentes partes da série, como a editora exige que Gene escreva exatamente aquilo que a experiência dela no ramo vê como ideal: estórias que sejam leves (sem muita reflexão ou profundidade), que excitem o leitor e faço-os querer mais. No que diz respeito a cenas eróticas ela diz convictamente que são as mais interessantes, as que os fãs querem ver e imaginam acontecendo. Veementemente Gene se coloca contrário a escrevê-las, mas não consegue mudar completamente os direcionamentos que recebeu da editora.

Outro ponto que chama atenção é o fato de que, na mesma medida que Gene recua passos incontáveis para não produzir livros que vendam mais do mesmo (como ele aponta no decorrer do drama), outro personagem (o Hin) se dedica a potencializar sua escrita sobre drama Boys Love, uma vez que visualiza ser um mercado em expansão. Hin é assistente de Gene e, nas horas vagas, escreve contos que demasiadamente levaram tempo para ganhar notoriedade.

Por fim, é evidente como a transmídia foi tema presente no próprio drama tailandês em análise, a partir do complemento que é feito na circulação dos conteúdos sobre a série dentro da própria produção. De acordo com Macedo (COMPÓS, 2021, p.3), além do uso de mais de uma mídia ou plataforma, o processo de expansão da narrativa é uma das características das narrativas transmídia (JENKINS, 2009).

No drama analisado também é reforçado como a cultura de fãs teve forte influência. O público construiu narrativas nas redes sociais que melhor se encaixava nos desejos que tinham. Assim, esta pesquisa visa servir como base para aprofundamento de ideias e suscitar debate a respeito dos impactos da cultura de fãs nas produções culturais e, principalmente, na vida dos artistas.

[1] Em um curto resumo, as “novels” são os “livros”. Sim, novels são pura escrita, igual livro comum. Definição disponível em: https://www.estantedajosy.com.br/2020/01/novel-x-light-novel-x-manga-qual.html / Acesso em 5 de agosto de 2021.

[2] “Yaoi” é o termo geralmente usado pelos ocidentais para designar mangás e animes com temática boys love, ou seja, um romance homossexual entre homens. Definição disponível em: https://garotasquecurtemanimes.com.br/espaco-fujoshi-afinal-o-que-e-yaoi/ / Acesso em 5 de agosto de 2021.

Referências

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Leia o texto anterior: A sutileza do apagamento racial na cobertura do ouro olímpico de Hebert Conceição

JOII – Grupo de pesquisa em Jornalismo, Inovação e Igualdade da Universidade Federal do Piauí.

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