“É preciso uma atenção maior ao problema ambiental” Coluna do Jucá

quinta-feira, 26 setembro 2019
O biólogo Luís Ernesto em frente a casa de Darwin, na Inglaterra.

O biólogo Luís Ernesto Bezerra afirma que sem a proteção das nossas riquezas naturais, haverá o agravamento de crises econômicas e sociais

A entrevista dessa semana foi realizada com o biólogo Luís Ernesto Arruda Bezerra. Luís é bacharel (2001) e licenciado (2003) em Ciências Biológicas; mestre em Ciências Marinhas Tropicais (2005), todos pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutorou-se em Oceanografia pela Universidade Federal de Pernambuco (2009), onde também realizou estágio de Pós-Doutorado (2012). Durante o doutorado realizou estágio no National Museum of Natural History (Smithsonian Institution, Washington DC, USA) e no American Museum of Natural History (New York City, USA) (2007-2008), em ambos com bolsa da CAPES. Atualmente, é professor Adjunto I do Instituto de Ciências do Mar (LABOMAR) da UFC, onde coordena o Programa de Pós-Graduação em Ciências Marinhas Tropicais do LABOMAR. Também é Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Sistemática, Uso e Conservação da Biodiversidade do Departamento de Biologia da UFC. Foi editor da área de Invertebrados Marinhos da Check List Journal e editor Associado da Revista Nauplius. É Editor da área de Oceanografia Biológica da revista Arquivos de Ciências do Mar, além de curador da coleção de carcinologia do Instituto de Ciências do Mar da UFC. A sua produção acadêmica inclui 53 artigos publicados em periódicos especializados (Fator H: 10), um livro, nove capítulos de livro, 14 relatórios técnicos e 111 trabalhos em anais de eventos. Ele tem experiência na área de Sistemática e Ecologia de Crustáceos e Ecologia de Manguezais.

Coluna do Jucá: A prefeitura de Fortaleza está realizando um conjunto de intervenções urbanísticas ao longo da Avenida Beira-Mar, o que inclui a ampliação da faixa de areia entre as Praias de Iracema e o bairro Meireles. Contudo, um movimento ambientalista contrário à ampliação da faixa de areia do aterro da Praia de Iracema, denominado “Aterrar pra quê?”, alega que essa intervenção irá destruir os corais ali localizados, bem como comprometer a fauna marinha local, a qual inclui uma população de golfinhos. Há motivos para se preocupar? E caso haja, é possível realizar essas intervenções sem, contudo, impactar a fauna local?

Luís Ernesto Arruda Bezerra: Uma coisa que precisa ser dita de início é que toda obra, seja ela qual for, gera impacto. Por essa razão a legislação obriga que se realize o EIA-RIMA (Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impacto Ambiental), pois esse é o instrumento que irá identificar e prever os impactos da obra, lembrando que os impactos podem ser negativos e positivos. Esses impactos são não somente ambientais, mas também sociais, culturais e econômicos. A realização de um EIA-RIMA bem feito, e o consequente licenciamento da obra por parte do órgão ambiental, é fundamental para que os impactos negativos gerados sejam evitados, mitigados e/ou compensados. No caso do aterro proposto pela prefeitura, o EIA-RIMA da obra, publicado em 2009, foi alvo de várias críticas, tendo sido inclusive apontados vários problemas em uma perícia realizada pelo Ministério Público Federal. Entre estas críticas destacam-se as questões dos arrecifes presentes próximos ao espigão da Rua João Cordeiro e dos botos que vivem na enseada do Mucuripe (Boto Cinza Sotalia guianensis). Essas são questões importantes e que precisam ser melhor estudadas antes de se fazer a obra. É preciso identificar a extensão desses recifes, as espécies que ali vivem e como a obra vai impactar esse ambiente. O mesmo vale para o boto; é preciso identificar os prováveis impactos que a obra pode causar a esta população de cetáceos, por meio de monitoramentos realizados antes, durante e depois da obra. Com esses dados, será possível propor sugestões de mitigação dos impactos e de compensações ambientais. Quanto ao impacto sobre a fauna local, tem uma coisa que eu gostaria de ressaltar: uma das revoluções da Teoria de Darwin foi a noção de que quem evolui não é o indivíduo, mas a população. É preciso ter isso muito claro. Assim, os indivíduos das espécies que serão soterradas no ambiente recifal irão impactar as populações dessas espécies? São espécies raras, ameaçadas? É possível criar um ambiente semelhante com as mesmas espécies que ocorrem na área? Vai causar a extinção, mesmo que local, da população daquela espécie? Essas são questões que precisam ser respondidas antes de se aterrar o ambiente. O mesmo vale para o boto-cinza. Então, sim, há motivos para se preocupar, o que não significa que a obra não possa ser feita, mas só deve ser feita se os impactos negativos gerados forem dimensionados, mitigados e/ou compensados, além de monitorados a curto e médio prazo.

Coluna do Jucá: Professor, o progresso científico é, sem sombra de dúvidas, um condicionante do desenvolvimento econômico, social e cultural. Da mesma forma deveria ser encarado em relação à questão ambiental. Em relação a esta, contudo, muitas pessoas relutam em fazer tal associação. Preferem atribuir o ônus da culpa às ONGs e demais movimentos ambientalistas. Como explicar tamanha relutância?

Visitando o estúdio de Darwin, na Inglaterra.

LEAB: Embora atualmente estejamos vivendo um momento de obscurantismo, de negação da ciência e do bem-estar ambiental, essa é uma questão que antecede o momento atual uma vez que, historicamente, a razão de ser do nosso país sempre foi a exploração dos recursos naturais (basta lembrar que o nosso gentílico deriva da ação de explorar o pau-brasil, a qual era feita pelos “brasileiros”). A mentalidade de que os recursos naturais são inesgotáveis, especialmente em um país imenso com o Brasil, levou ao atual cenário de degradação ambiental observado em vários biomas. Foi assim na exploração do cerrado, dos pampas, do ouro e pedras preciosas em Minas Gerais, entre outros. Então, historicamente, a nação não tem uma relação de proteção dos recursos naturais; na verdade, o que ocorre é o oposto, essa exploração quase sempre se dá de forma predatória, com o lucro ficando na mão de poucas pessoas. Isso explica, em boa parte, nossa desigualdade social e a degradação ambiental, que leva à degradação social. É preciso ficar claro que é perfeitamente possível obter crescimento econômico sem que para isso seja preciso abrir mão da proteção ambiental; pelo contrário, sem a proteção das nossas riquezas naturais e da sua exploração sustentável, o cenário à médio prazo é de agravamento de crises econômicas e sociais.

Coluna do Jucá: Tratando especificamente da Carcinicultura – uma atividade econômica que movimenta a economia do Estado do Ceará. É possível traçar um paralelo entre os avanços no conhecimento acerca da ecologia dos crustáceos de valor comercial e o progresso dessa atividade no Estado, nas três últimas décadas, por exemplo?

LEAB: Eu não diria que houve um avanço no conhecimento da ecologia desse grupo de crustáceos. O que houve foi a importação de tecnologias de cultivo dessas espécies, especialmente do desenvolvimento larval e de pós-larvas, para a criação em cativeiro. A espécie mais cultivada, o camarão cinza (Litopennaeus vannamei), é de origem asiática e seu cultivo foi introduzido no Brasil na década de 1970. De lá pra cá houve, de fato, o investimento em estudos com relação a vários aspectos dessa espécie, especialmente no que diz respeito a sua reprodução, alimentação e sanidade. Essa atividade é importante no sentido de que é a exploração de uma fonte de proteína animal e que ameniza os efeitos da pesca sobre as espécies nativas, além de ser uma atividade econômica que gera emprego e ajuda no desenvolvimento econômico do estado. Não obstante, muito se fala dos impactos que essa atividade causa ao meio ambiente, especialmente aos estuários e ao ecossistema manguezal. De fato, as fazendas são construídas na região estuarina, muitas vezes em áreas de apicuns e até mesmo de manguezal, o qual é desmatado para a construção do empreendimento. O descarte da água usada nos tanques, muitas vezes com insumos utilizados nos viveiros, como remédios, produtos químicos, entre outros, pode trazer impactos ao ambiente. Contudo, em artigo publicado recentemente na revista Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, intitulado: “Neotropical mangroves: Conservation and sustainable use in a scenario of global climate change” Lacerda e colaboradores mostram que as principais ameaças aos manguezais na América Latina & Caribe são a urbanização, a industrialização e o barramento de rios, com a aquacultura contribuindo com cerca de 5% das perdas de manguezais ocorridas nas últimas duas décadas, de um total de 35% de perdas ocorridas na região. Uma exceção é o Equador, onde a perda de 20% dos seus manguezais se deveu à expansão das fazendas de camarão. O país é responsável por cerca de 50% do camarão produzido na América Latina & Caribe. Vale salientar que na Ásia, a aquacultura foi responsável por cerca de 50-80% das perdas de florestas de mangue.

Coluna do Juca: No final do mês de maio de 2019 circulou uma fotografia na internet que, pela improbabilidade do que estava a se mostrar, levava-nos a acreditar se tratar de uma imagem manipulada. Surpreendentemente, a cena era real. Tratava-se de um congestionamento de alpinistas rumo ao cume do Everest, a quase 9 mil metros de altura. Outra imagem quase tão impactante quanto a anterior foi a que mostrou a imensa quantidade de lixo deixado na montanha após o término da temporada de escaladas desse ano. A imensidão e a magnitude dos oceanos podem nos ensinar algo sobre os fatos mencionados e, mais que isso, sobre a tolice da nossa espécie em querer impor ordem ao Cosmo?

Luís Ernesto é Professor Adjunto I do Instituto de Ciências do Mar (LABOMAR) da Universidade Federal do Ceará.

LEAB: Acredito que há uma coisa que permeia esse problema: o fato de parecer inatingível. O cume do monte Evereste parece (e é) inatingível para muitas pessoas (embora, hoje, o cume seja “inatingível” para bem menos gente, principalmente para os que podem pagar as altas quantias cobradas por empresas que guiam turistas/alpinistas minimamente treinados ao topo do monte, causando os engarrafamentos vistos na temporada de escalada desse ano). Obviamente, essa grande quantidade de pessoas gera o lixo que fica para trás a cada temporada de escalada. Por sua vez, a “capacidade de suporte”, chamemos assim, dos oceanos também parecia inatingível. A impressão é que se podia jogar lixo a vontade no mar que aquilo nunca iria “encher”. Mas o fato é que encheu, e até mais rápido do que se imaginava. Para se ter uma ideia, a ONU estima que em 2050 haverá mais plástico nos oceanos do que peixes no mar. O plástico está na Terra a menos de 70 anos. Nesse curto espaço de tempo, irá sobrepujar os peixes, que habitam os oceanos há pelo menos 350 milhões de anos!!

Mas uma coisa que acho importante ressaltar é que o plástico em si não é um vilão, e sim o mau uso que se faz dele. O plástico permitiu que os automóveis ficassem mais leves e que os aviões voassem com mais eficiência, o que ajudou a reduzir as emissões de gases poluentes gerados por esses meios de transporte, só para ficar nesses dois exemplos. Mas o que não faz sentido é você precisar de um canudo de plástico para tomar uma água de coco, que você pode beber perfeitamente sem o uso desse canudo, ou até de sucos que, em casa, você toma sem precisar do canudo. Um canudo de plástico é usado por 5 minutos, e passa séculos para se decompor no ambiente. Não faz sentido. Nesse particular, é louvável a iniciativa de algumas cidades que vêm proibindo o uso dos canudos plásticos, inclusive recentemente em Fortaleza. No mesmo sentido, as sacolinhas de plástico dos supermercados também causam um estrago muito grande nos oceanos, especialmente à fauna marinha. É preciso que as pessoas se conscientizem disso e passem a usar alternativas, bem como reciclem mais o lixo que produzem. Recentemente a revista National Geographic fez uma capa muito elogiada de um saco plástico que mimetizava um Iceberg flutuando no mar. A revista chamava a atenção para o problema do plástico no mar. Mas a mesma era comercializada embalada em um saco plástico, ou seja, é preciso que alternativas sejam utilizadas. E elas existem. Embalagens de vidro, refis, tudo isso já existe em algumas cidades. Locais onde é preciso levar a embalagem para adquiri os produtos que são vendidos “a granel”. É menos “confortável” e prático do que simplesmente pegar um produto com uma embalagem de plástico na prateleira de um supermercado? Sim! Mas é preciso despertar nas pessoas a consciência de que os recursos naturais são limitados, que os ambientes já atingiram a sua capacidade de suporte, e que é preciso tomar essas atitudes, mudar comportamentos, cobrar das autoridades uma atenção maior ao problema ambiental, caso se queira deixar um planeta habitável para as gerações futuras.

Assim, é importante que o homem se conscientize de que não é possível querer impor ordem ao Cosmo, e muito menos ao caos!

Coluna do Juca: Segundo o memorável escritor uruguaio Eduardo Galeano, num trecho do livro As Veias Abertas da América Latina, “O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes”. O último relatório do Painel Intergovenamental sobre Mudança do Clima (IPCC) vai ao encontro do que foi dito por Galeano. Inserindo essa discussão no contexto dos oceanos, chegamos aos microplásticos e à acidificação das águas, para citar dois exemplos. Sendo a ciência propulsora do desenvolvimento, também o é da tragédia dos náufragos e do sucesso dos navegantes?

LEAB: Com relação ao desenvolvimento científico, o filósofo da ciência Thomas Kuhn mostrou que o progresso ocorre em duas direções diferentes e complementares: no aprofundamento do conhecimento e na ampliação do conhecimento, com o primeiro sendo proporcionado pela aquisição de um paradigma. Isso fica fácil de constatar ao lançarmos um olhar sobre o século XX, com seus saltos de tecnologia e conhecimento, mas com imensos passivos de guerras, miséria e danos ambientais. Assim, eu não acho que a ciência e o desenvolvimento científico per si sejam os “rochedos” a lançar homens ao mar, mas sim a maneira como utilizamos o conhecimento que possuímos ou, em última instância, a quem esse conhecimento serve. A revolução científica-tecnológica do século XX trouxe profundas mudanças sociais que se refletiram no uso não racional de recursos naturais e de degradação ambiental. Para Kant, a natureza existia para que suas leis pudessem ser descobertas pelo conhecimento. Kuhn afirmava que embora a ciência não contasse com um fundamento inabalável, ainda assim era um empreendimento notavelmente bem-sucedido da razão para a superação dos obstáculos impostos à espécie humana pela natureza. De fato, o homem descobriu e decodificou as leis da natureza, superando obstáculos, mas foi além disso, explorando-a e tornando-a tão degradada que acabou por afetar as condições de vida social e a possibilidade de vida futura da espécie. Dessa forma, acredito que a ciência é a propulsora do conhecimento e do desenvolvimento, e a maneira como utilizamos o conhecimento que possuímos responda pelos náufragos do caminho.

A Coluna do Jucá é atualizada às quintas-feiras. Leia, opine, compartilhe, curta. Use a hashtag #ColunadoJuca. Estamos no Facebook (nossaciencia), no Instagram (nossaciencia), no Twitter (nossaciencia).

Leia o texto anterior: 250 anos depois, Humboldt permanece atual

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital