Engenharia da decoreba Ciência Nordestina

terça-feira, 4 setembro 2018
Foto: Adam Berry/Getty Images

O professor Helinando Oliveira acredita que o Brasil precisa formar profissionais que saibam fazer ciência e construir soluções para os problemas

Richard Feynman, prêmio Nobel de Física de 1965 pelo desenvolvimento da eletrodinâmica quântica, foi, provavelmente, o mais brilhante físico de todos. Além de desenvolver uma teoria altamente sofisticada, conseguiu desvendar o desastre do ônibus espacial Challenger com destreza impressionante. Tudo isso sem falar de sua importância como divulgador científico. O livro “O Arco-íris de Feynman” de Leonard Mlodinow mostra de maneira clara a inteligência deste grande físico. O que poucos sabem é que Richard Feynman, no início da década de 1950, veio lecionar cursos de Física no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) no Rio de Janeiro. Suas percepções foram publicadas em “O senhor está brincando, Sr. Feynman!”.

Em seu relato, Feynman retrata de forma contundente e incrivelmente atual o ensino de Física no Brasil, associando-o ao ensino de uma língua estrangeira, quando se faz com que o estudante aprenda a pronunciar letras e depois palavras, mesmo que não perceba o significado delas.  E o foco desta crítica está na substituição de experimentos pela memorização. Ou seja, bons estudantes brasileiros de engenharia podem enunciar qualquer lei e ao mesmo tempo demonstrar enorme dificuldade em reconhecer estas leis quando colocadas em prática, pois não percebem que ciência é bem mais que vocabulário. Esta “autopropagação” definida por Feynman faz com que os estudantes sejam adequados a uma rotina para aprovação nas disciplinas. Ao final, serão formados engenheiros com boa aptidão para cargos como gerentes comerciais, que sabem o significado de diversos termos técnicos, não tendo, todavia, aptidão (em sua maioria) para aplicar conceitos no desenvolvimento de produtos, ou seja, aptos na arte de engenheirar.

Richard Feynman, prêmio Nobel de Física de 1965.

Esta prática recorrente é reforçada pelos tradicionais livros texto que levam problemas e soluções juntos, representando uma natureza estranha, que não pulsa e não desafia, levando os estudantes à premissa de que ela (a natureza) existe para satisfazer os modelos que criamos.

Talvez poucos cientistas do planeta tenham a visão do Feynman para a natureza e tudo mais. E por isso mesmo, tão poucos tiveram a ousadia de escancarar o ensino de ciências no Brasil como ele fizera.

Tipicamente, a porta de entrada dos jovens para a Física se dá com o uso de papel milimetrado, descrevendo lançamentos de projéteis. A Física para todos deveria começar no meio do mato, em uma noite de céu limpo e muitas estrelas. Com lunetas nas mãos deveríamos conversar sobre a origem do universo, o Big Bang, o vácuo e as supernovas. A Física poderia surgir magicamente durante uma aula de biologia, em meio a microscópios ópticos. Estas coisas seriam ditas na ausência de quadro e pincel em meio à experimentação.

E este foi mais um dos grandes legados que Feynman deixou, ao mostrar a capacidade humana em tornar a ciência algo prazeroso e distante da frieza eloquente dos modelos e teoremas.

A maçã de fato não cai para justificar nenhuma lei de Newton. Entender o processo é assumir o papel do próprio Newton e ter capacidade de modelar a simplificação da realidade a patamares ainda mais próximos a ela. Esta postura não consta em glossários de enciclopédias e livros texto. O ensino de Ciência e Engenharia no Brasil precisa se reinventar pela ótica da experimentação. A dinâmica tecnológica não permite com que sejamos meros contadores de feitos de outras nações. O Brasil precisa formar profissionais que saibam fazer ciência e construir soluções para seus próprios problemas. Ao invés de decoreba, os nossos estudantes precisam de uma base sólida e criatividade para dar saltos cada vez maiores na arte de desvendar a natureza.

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Leia o texto anterior: Sem ciência não há soberania

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

Uma resposta para “Engenharia da decoreba”

  1. Saudações Prof. Helinando!
    Belíssimas palavras e sintonia de pensamento.
    Não é à toa que nominei a Sala de Coworking da inPACTA de Richard Feynman!
    Parabéns pelo texto sóbrio.
    Gláucio.

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