Ensino remoto: impressões Ciência Nordestina

terça-feira, 5 janeiro 2021
Foto: Álvaro Henrique/Secretaria de Educação

O ensino remoto vem nos ensinando que os estudantes anseiam por oportunidades de serem protagonistas de sua formação

O ensino remoto vem sendo, sem sombra de dúvidas, o maior desafio pedagógico de nosso tempo. E como em todo o processo de aprendizagem mútuo, são requeridos avaliações e redirecionamentos.  O processo em si requer confiança total entre professor e estudante, em um cotidiano longe do olho no olho ou mesmo da imagem na tela (por restrições da velocidade da rede, é comum que todos “fechem” a sua câmera).

Desde este contato tão necessário até o processo de avaliação tudo é novo, completamente diferente. O gargalo da internet e toda a crise da pandemia se interpõem no processo de ensino e aprendizagem.

Neste último ano, tive a oportunidade de ministrar quatro disciplinas diferentes em minha universidade (Univasf) e resolvi assumir quatro procedimentos distintos para testar a melhor possibilidade de interação com os estudantes. Desta forma, segui desde o método mais convencional ao mais alternativo – seguindo das aulas tradicionais com listas de exercícios e provas de física, até um modelo alternativo (sem provas) e com avaliação focada no desenvolvimento de produto. Este produto foi um podcast (chamado Nanocast e que está disponível nas plataformas) em que os estudantes entrevistam especialistas nas diferentes áreas que interagem com a nanotecnologia.

O resultado desta experiência foi revelador: quanto mais tradicional o método de ensino, menos interesse foi observado entre os estudantes. Com a internet à mão e o acesso a todos os contatos e grupos, a aprovação em provas passou a ser questão de ctrl cctrl v. Com isso, o processo de ensino-aprendizagem se tornou um inimigo da tecnologia. Pura ironia, já que a tecnologia foi a única aliada que permitiu uma volta segura às aulas (mesmo que remotas).

E é nela, na internet, que está a solução mais imediata para contornar essas possibilidades tão nítidas de desvios no processo de aprendizagem.

Vamos entender melhor: as redes sociais vêm impregnadas de uma ânsia de aceitação enorme (são likes, seguidores e impressões) que levam os jovens a buscar uma posição cada vez maior de destaque. Expor seus produtos (resultados de seus aprendizados) nas redes passa a ser um desafio gigantesco para todos. E isso vem acompanhado de uma grande responsabilidade. Afinal, a avaliação não vem apenas do professor, mas também de todos que acessam o seu conteúdo. A confecção de material científico para as redes passa a ser, portanto, uma ferramenta de avaliação poderosíssima e até então pouco explorada. A produção de conteúdos para as redes (áudio e vídeo) estimula os estudantes por um reconhecimento que passa para além do crivo de um professor. Eles buscam reconhecimento dos seus pares, a partir de uma missão nova que é de divulgar conteúdo científico nas redes. E com isso, disciplinas tradicionais que aprovam e reprovam se transformam em canais de criação de propagadores de ciência.

Em resumo, o ensino remoto nos ensinou que os estudantes anseiam por oportunidades de serem protagonistas de sua formação.  Quando lhes é negada essa possibilidade, usam o caminho do mínimo esforço para conquista dos créditos. Quando lhes é oferecida uma possibilidade nova, abraçam o desafio porque sabem que o futuro é inovar.

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Leia o texto anterior: 2021 chegando … E agora?

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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