Entender o colapso da civilização maia pode barrar a nossa marcha de insensatez Coluna do Jucá

quinta-feira, 18 outubro 2018

O exemplo-chave da relação dos maias com o ambiente pode nos fazer valorizar o mais recente relatório do IPCC

Ao digitar as palavras maya civilization nas ferramentas de busca das prestigiadas revistas científicas Nature, Science e PNAS, constata-se que muitas descobertas importantes a respeito dessa civilização vieram à tona nessas quase duas décadas do século XXI. Portanto, não seria exagero dizer que uma nova história está sendo reescrita sobre essa fascinante cultura mesoamericana, cujo apogeu ocorrera antes da chegada dos espanhóis. Tais descobertas surpreenderiam até o grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, que descrevera os maias em sua obra-prima As veias Abertas da América Latina: “(…) tinham sido grandes astrônomos, mediram o tempo e o espaço com assombrosa precisão, e tinham descoberto o valor do número zero antes de qualquer povo da história (…)”.

Reconstrução de desenho do Templo de Kukulkan Mayapan, a principal pirâmide da maior cidade mundo Maya pós período clássico. A ilustração é de Luis Góngora (cortesia de Carlos Peraza Lope, Instituto Nacional de Antropologia e História Projeto Mayapan). PNAS, November 6, 2012 109 (45) 18237-18238.

A revista americana Science, por exemplo, tratou com enorme destaque um estudo publicado no final de setembro, no qual pesquisadores utilizaram uma técnica de mapeamento aéreo utilizando laser, conhecida como “Lidar” (sigla em inglês para Light Detection and Ranging), para explorar enormes áreas onde a civilização maia floresceu. Por meio dessa técnica foi possível “escanear” uma aérea superior a 2 mil quilômetros quadrados sob densas florestas da Guatemala, a qual revelou mais de 60 mil construções. Para ser mais preciso, foram 61.480 estruturas antigas na região investigada, o que equivale a uma densidade de 29 estruturas/km2. A descoberta representa uma revolução na arqueologia maia, entre outras coisas, por revelar um urbanismo denso, formado por assentamentos urbanos interconectados, com amplo desenvolvimento de infraestrutura, canais de irrigação e extensos campos de cultivo para atender uma demanda “industrial”. Esses achados sugerem, inclusive, que essa civilização tinha milhões de habitantes a mais do que se imaginava.

Uma cena de meados do século XVI retrata um mexicano indígena preparando o chocolate (Museo de America, Madrid, Spain/Bridgeman Images).

Já um estudo também recente publicado na revista PNAS revelou que os maias não apenas produziam e armazenavam o sal há mais de mil anos, como o utilizavam na conserva de peixes e carnes, bem como moeda de troca por outros produtos. O mesmo ocorria com tecidos e com o cacau. Acredita-se, inclusive, que este último tenha sido utilizado como uma espécie de tributo ou ainda como uma espécie de imposto no período áureo dessa civilização. Em outro estudo, ainda na mesma revista, descobriu-se que os maias criavam e comercializavam cães há 2,5 mil anos, o que seria motivado pela sua utilização em cerimônias religiosas.

A despeito dos inúmeros estudos vinculados a essa civilização, a grande questão que lhe diz respeito e que permanece sob intenso debate na comunidade científica é: quais motivos desencadearam o colapso dos maias? Eventos climatológicos, impactos ambientais de natureza antropogênica e conflitos de natureza política, social e econômica são algumas das variáveis que ajudam a compor uma complexa equação, ainda não definida, que poderá nos ajudar a entender esse exemplo-chave de colapso social.

E nesse exemplo-chave, a relação outrora estabelecida entre o homem/civilização e o ambiente/floresta, poderá servir como um modelo em relação às mudanças que permeiam a nossa civilização. E essas mudanças não dizem respeito apenas às questões climáticas, mas também políticas e econômicas. Muitos podem questionar que o patamar de desenvolvimento alcançado por nós nos diferencia em muito dos maias e das demais civilizações pré-colombianas, o que, portanto, nos reservaria um final diferente. Será mesmo?

Divulgação do mais recente relatório do IPCC, em Incheon, Coreia do Sul. Fonte: WWF.

O mais recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) – órgão científico mundial para as questões de mudança do clima da ONU – estabeleceu que alcançar a meta de aquecimento do planeta para 1,5°C, ao invés de 2°C, como estabelecido em 2015, entre os signatários do Acordo de Paris, é algo que vale a pena. Segundo os especialistas do IPCC, essa diferença de 0,5 °C fará muita diferença na frequência e severidade dos eventos climáticos extremos. O Observatório do Clima utiliza uma das metas do relatório do IPCC para fazer a seguinte chamada da matéria acerca desse assunto em seu portal: “Frear aquecimento em 1,5°C requer corte de 45% nas emissões em 12 anos”. E aproveito essa chamada para fazer mais um questionamento: estamos mesmo dispostos a fazer algo?

A pesquisa científica tem nos conduzido a uma maior compreensão a respeito dos eventos subjacentes ao colapso de uma das civilizações mais fascinantes da história. Será que no futuro, outras civilizações terão o mesmo trabalho conosco? Ou não será necessário, já que incorremos no risco de colapsarmos antes mesmos de encontrar tais respostas?

Referências

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Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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