Laboratórios de pesquisa: um ano depois Ciência Nordestina

terça-feira, 30 março 2021

Quando tudo isso passar, os cientistas encontrarão um cenário de terra arrasada, que se combinará a um calendário defasado

Os efeitos da pandemia na sociedade e nos diferentes setores da economia só serão sentidos de fato quando estivermos fora deste furacão que parece não ter fim. Na pesquisa científica (em especial aquela que é feita nos laboratórios), a velocidade com que os trabalhos e colaborações são conduzidos foi drasticamente afetada. Por todo o planeta, os laboratórios fecharam ou reduziram seu nível de funcionamento a patamares muito baixos. Esta reação é completamente compreensível e necessária, dados os requisitos de distanciamento social e as normas de segurança para inibir a propagação do vírus. A vida das pessoas deve sempre estar em primeiro lugar.

Com esta mesma obviedade, é importante traçar novos rumos face à nova realidade. Está claro que este será um processo longo, que é ainda mais complicado pelo ritmo lento de vacinação no Brasil. Como temos percebido, dificilmente será possível cumprir com todas as metas estabelecidas no período anterior à pandemia.

Dentro da neura produtivista que inunda a academia no Brasil, os pesquisadores produziram alucinadamente muitas revisões bibliográficas enquanto estiveram trancados em casa ao longo de 2020. Só que assim como as lives dos artistas atingiram uma saturação, acabaram os temas a revisar. E estamos agora dispostos frente a frente com a realidade: não há como conduzir os projetos científicos como se nada tivesse acontecido. A atividade nos laboratórios de pesquisa já foi completamente comprometida. E isso precisa ser associado com a falta de investimento para a manutenção dos laboratórios.

Como já amplamente divulgado, a falta de investimento em ciência no Brasil tem levado os laboratórios a uma situação de sucateamento extremamente preocupante. Quando tudo isso passar, os cientistas encontrarão um cenário de terra arrasada, que se combinará a um calendário defasado (em consequência dos fechamentos pelas fases críticas da pandemia) e de equipamentos que carecem de manutenção sem os devidos recursos para tal.

Em resumo, a falta de investimento em ciência no Brasil pode ter encontrado na pandemia um aliado ideal para destruir de vez a produção de conhecimento no país. Tempos difíceis, muito difíceis.

A coluna Ciência Nordestina é atualizada às terças-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag CiênciaNordestina.

Leia o texto anterior: Um ano de pandemia

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital