“Levar” ciência versus “fazer” ciência Ciência Nordestina

terça-feira, 17 maio 2022

O florescer do conhecimento exige respeito ao povo, ao lugar, às tradições

Na última sexta-feira, 13 de maio tive a honra de receber o título de cidadão petrolinense “pelos relevantes serviços prestados ao município de Petrolina, especialmente à comunidade científica da cidade e da região do Vale do São Francisco”.  Ainda sob a emoção deste momento, escrevo esta matéria semanal para reforçar um pouco do que foi dito na Casa Plínio Amorim.

Embora os livros de história digam que o Brasil foi “descoberto” pelos portugueses em 22 de abril de 1500, sabemos que aqui habitavam os legítimos brasileiros e verdadeiros donos e descobridores desta terra. A colonização foi um processo travado pela dor da troca de língua e de credo, e precisa ter servido ao menos para nos ensinar que nada é transposto simplesmente de um canto ao outro.

Ninguém leva a ciência como uma apostila a ser lida e repetida. Há a necessidade de integração ao lugar para que em seguida se tenha condições de construir junto ao povo uma estrutura que possibilite o fazer da ciência.

Quando um cientista vai a uma escola, ele motiva os estudantes a sonharem. Isso é fundamental. Equivale a mostrar a beleza de um aparelho de um telefone celular ou de um espelho. Até mesmo presentear um nativo com algo do tipo. Isso, no entanto, não garante que o nativo terá condições de construir um aparelho a partir deste ato. Não há ciência neste processo.

A ciência surge em um lugar quando pessoas se dispõem a ser parte deste lugar e juntas criam condições para que o conhecimento seja produzido – a exemplo da Univasf, que chegou ao Vale do São Francisco em 2004 no governo Lula e trouxe uma estrutura capaz de formar graduados, mestres e doutores. Com isso, estruturou a possibilidade de “fazer” a ciência, assim como tantas outras instituições o fizeram quando levaram cientistas para os quatro cantos do interior do Brasil.

Levar uma região a produzir ciência, é, de fato uma missão de integração do cientista com o lugar. Bem diferente de enfiar uma estaca e impor normas de colonização, fazer a expansão da ciência no Brasil é trazer o povo para dentro da Universidade e fazê-lo construir soluções para os seus problemas.

Nunca chegaremos ao conceito de interiorização enquanto tivermos resquícios colonizadores que julgam ser o litoral mais importante que o sertão, ou a Universidade A ser melhor que a Universidade B. O florescer do conhecimento exige respeito ao povo, ao lugar, às tradições. Só assim nascem as condições mínimas para seguirmos juntos (sem dominador nem dominado) nesta longa estrada que resulta em soluções para um planeta já tão degradado por nossa espécie.

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Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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