Meritocracia e exclusão Ciência Nordestina

terça-feira, 10 agosto 2021

Devemos refletir sobre uma educação mais igualitária e justa para todos os brasileiros

Eles nasceram no mesmo dia e receberam o mesmo nome. José (filho de aristocratas) e José (filho de moradores de rua). Suas vidas, obviamente, foram bem diferentes. José rico tinha um dia muito cheio, entre aulas de piano e de canto, inglês e judô – ele não tinha tempo nem de brincar. Já o José pobre não tinha brinquedos e precisava viver na rua pedindo um trocado para garantir o almoço. Foi então que ele descobriu que na Escola Pública havia merenda e para lá foi forrar a barriga. E não apenas alimentou-se de comida, como também recebeu uma marmita repleta de sonhos. Disseram a ele que poderia ser doutor… E o garoto pobre, porém muito inteligente, comprou a ideia.  José pobre decidiu ser médico. E por ironia do destino, era esta também a escolha do José rico. Aliás, todos os estudos do José rico foram direcionados para isso – cursinhos específicos desde o primeiro ano – aulas de reforço e muito apoio. Em sua primeira tentativa, aos 17 anos, José rico já era calouro em uma universidade pública. O nosso outro José, o pobre, sofria com uma vida de dificuldades e estava chegando ao primeiro ano. Tinha perdido dois anos por causa da pandemia (ele não tinha internet para acompanhar as aulas e chegou a viver na rua por esse período). Seus olhos já não brilhavam tanto quanto se via na infância. A educação deficitária e a fome tinham deixado severas lacunas em sua formação. O muro que ele precisava saltar era muito mais alto que aquele ultrapassado pelo José rico. Nada o ajudaria a superar esta barreira imposta ao seu caminho. Ele nunca seria médico e nem atravessaria os portões de qualquer que fosse a universidade.

Certa vez, enquanto jantava o único pastel do dia em frente à rodoviária, nosso Jose pobre pôde acompanhar o telejornal da noite:

No vídeo, aparecia o José rico (de jaleco branco e estetoscópio) argumentando contra a cota para as escolas públicas. Ele dizia:

“Nosso curso precisa dos melhores alunos. Aqueles que têm a melhor formação. A meritocracia funciona assim. Por isso sou contra qualquer tipo de cota”.

Indignado, o José pobre tenta puxar uma conversa com o dono do bar, que torce o nariz. Ele diz:

“A água do rio só corre para o mar.”

E na falta de alguém para conversar, ele sai falando sozinho pela rua.

Sim, pobre José… Meritocracia é a garantia da exclusão daqueles que foram escolhidos pela vida severina.

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Leia o texto anterior: A ciência e o capital

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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