Mês da consciência negra e o que a branquitude ainda não conseguiu entender sobre a data Diversidades

segunda-feira, 22 novembro 2021

Segundo a escritora Grada Kilomba “o racismo é uma problemática branca”

Por Beatriz Pires* (Instagram: https://www.instagram.com/_biapires/).

A frase da escritora Grada Kilomba certamente foi uma das mais marcantes que encontrei desde que comecei meus estudos e pesquisas no âmbito das epistemologias subalternizadas. E ao passo que esse discurso parece soar quase como uma obviedade para a negritude, é revoltante perceber o quanto ele parece ser de impossível compreensão por parte da branquitude brasileira.

O ano é 2021 e é inegável o quanto a discussão sobre a questão racial vem se tornando cada vez mais presente na sociedade em geral. Mas ainda assim, ainda é a população negra que precisa explicar continuamente que a consciência humana não basta. Somos nós, negros e negras, que precisamos deter o conhecimento universal sobre racismo e estar prontos para dar uma aula de história a qualquer momento. E claro, sempre de forma paciente e pacífica, pois, caso contrário, estaremos intensificando a situação do preconceito racial no país e afastando os brancos da pauta. Somos nós que ainda temos que desenhar, para uma elite letrada e com alto nível de escolaridade, que democracia racial não existe, e que a história da miscigenação só é bonita e feliz nos livros de histórias escritos pela branquitude que detém a produção de conhecimento.

Beatriz Pires – Foto Arquivo Pessoal.

Sobre isso, faço sempre questão de lembrar das palavras de Abdias do Nascimento (1978): É exatamente essa suposta democracia racial que cria uma metáfora perfeita para se entender o racismo no Brasil: Não é tão óbvio e nem legalizado, mas é institucionalizado de forma eficaz nos níveis oficiais de governo e difuso no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país.

No dia 20 de novembro e em todos os outros dias do ano é mais do que necessários lembrar: Os negros e negras, brasileiros e brasileiras, continuarão sendo subalternizados e violentados de forma cruel e naturalizada enquanto o Brasil não se assumir racista. Afinal, negar a discriminação, enquanto sujeitos e sociedade, é a receita perfeita para que nada seja feito. Para que o racismo continue a existir. Que no futuro, o Dia da Consciência Negra seja muito mais sobre celebrar do que sobre lutar.

Beatriz Pires é publicitária formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pesquisadora de relações étnico-raciais. É membro do grupo de estudos Descolonizando a Comunicação – Descom.

Referência:

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: Processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro, 1978.

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Leia a coluna anterior: A fome estratifica a alma

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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