Metodologias precárias para a pesquisa em gênero e sexualidade Diversidades

segunda-feira, 11 novembro 2019
Foto Cláudio Santos Ag. Pará/Fotos Publicas

Autor reflete sobre a precariedade inerente aos caminhos de quem pesquisa dissidências sexuais e de gênero frente a extrema violência contra as minorias

Na coluna desta semana, numa escrita envolvente que desliza pelos sertões do afeto e da memória, de cujos poros exala vez por outra a sutil angústia de não saber como abraçar vidas desgarradas nos estreitos caudais de métodos científicos, o pesquisador caririense Ribamar Junior reflete sobre a precariedade inerente aos caminhos de quem pesquisa dissidências sexuais e de gênero em contextos, como o brasileiro, caracterizados pela extrema violência contra as minorias e a morte sempre à espreita dos sujeitos das pesquisas, e se interroga sobre como mastigar perspectivas queer e cuspir de volta teorias que deem conta das múltiplas existências transviadas das esquinas de nossos trópicos.

Metodologias precárias para a pesquisa em gênero e sexualidade

Por Ribamar Junior.

O sol entra pelos buracos da cortina do ônibus e antes mesmo de subir no horizonte da Chapada do Araripe, clareia o breu dos meus olhos que tentam descansar depois quase doze horas de viagem. Barbalha, Juazeiro do Norte e Crato, as paradas são as mesmas e quando o motorista anuncia a ordem das cidades eu já me sinto respirando em casa. Embora eu seja teimoso e tenha cortado minhas raízes como quem puxa com força um capim bruto que nasceu no canteiro do meio fio, eu só queria um copo de café coado pelo pano que estava na primeira gaveta do balcão da cozinha da minha avó.

Desço em Crato, região do Cariri cearense, em uma manhã de janeiro. Carrego uma mochila, um caderno de anotações, uma mala e algumas horas de sono mal dormidas debaixo das pálpebras. Retorno para a cidade em que nasci, depois de entrar em um ônibus interestadual na rodoviária de Natal, para realizar uma pesquisa de campo para o desenvolvimento da minha dissertação no curso de mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sempre senti algo por trás da palavra dita pela língua que, até hoje, me move a pensar que eu só pesquiso as coisas do meu lugar.

Há quatro anos estudo a tradição religiosa do Reisado em Juazeiro do Norte, uma manifestação da cultura popular muito comum na região Nordeste do Brasil e fortemente praticada no eixo Sul do Ceará. O Cariri é o conhecido pelo encantamento e, como menciona Alemberg Quindins, é o lugar em que o vento canta com saudades do mar. Até sem querer carregamos um devir-romeiro, no gesto não percebido e na palavra não dita. Todo caririense carrega uma romaria no olhar e uma prece na vida. Dentro do Reisado, a tradição aparece corporificada no brincante, como um saber herdado pelo movimento do desejo e pelas trajetórias de vida.

Porém, o que me chamou atenção nas dinâmicas próprias do tempo do Reisado, geralmente brincado em comunidades periféricas dentro dos centros urbanos, foi a recente emergência da população LGBTQ+ nas performances dos grupos da região. Sem jeito e quase como sintoma, sou jornalista e talvez isso tenha me tornado um cartógrafo atento e aberto ao encontro. Apesar dos dilemas da pauta e dos anseios de um foca recém-formado, percebo que eu sempre ouvi a seguinte frase em relação a minha pesquisa: o tema não rende. Escutei quando escrevia o projeto de monografia, a qualificação do mestrado e o projeto de doutorado.

O que nunca me impediu de apurar meu olhar científico para o tema, pois aprendi com o professor Anderson Sandes que jornalismo é publicar tudo que não se quer que publique. Nunca quis fazer por fazer e, às vezes, na trajetória acadêmica é preciso abrir a boca para algumas coisas e fechar os ouvidos para outras. Penso que o olho deve sempre estar atento, à espreita da graça do campo e do não dito dos pequenos movimentos. Peirano (2008), por exemplo, fala que a metodologia da prática etnográfica é a teoria vivida. Acabei me tornando cartógrafo depois de um café com o professor Durval Muniz que me recomendou a leitura de Rolnik (1989) sobre a cartografia sentimental.

Atualmente, estou na fase final do meu mestrado e mais reflexivo do que prático. A escrita está toda em garranchos no meu caderno de campo que talvez eu demore a compreender, mas uma hora pela lembrança ou pelo momento estará em caracteres. Uma das minhas reflexões foi sobre o uso das metodologias e a construção dos objetivos nas pesquisas científicas em gênero e sexualidade. Durante a minha observação e o meu acompanhamento do campo, perdi duas pessoas interlocutoras, uma delas por conta da violência e da LGBTfobia.

Refleti bastante sobre o privilégio acadêmico de uma bicha branca em acompanhar as manifestações culturais em contextos subalternizados e, principalmente, pensei sobre a necessidade de ruminar teóricos canonizados pela ciência queer e estercar novas teorias em perspectivas localizadas, cuir, kuir, transapabichaladinaamefricana ou só transviada. Lembro quando disse ao meu orientador de monografia que eu iria colocar a palavra cu no título da minha pesquisa e ele retrucou: se der bronca na banca, eu vou dizer que o cu foi você que botou.

Assim, eu penso com Butler (2011) sobre vidas precárias para elaborar uma reflexão a partir da precariedade das nossas metodologias para a pesquisa sobre gêneros e sexualidades, sobretudo, no contexto de violência no Brasil. Como, em tão pouco tempo, não consigo agendar uma entrevista de campo pelo assassinato de uma das pessoas que seria entrevistada? De que forma, a construção de uma pesquisa sobre dissidências sexuais e de gênero refletem a angústia e o desamparo em objetivos gerais e específicos? O que nós queremos e podemos dizer, no reflexo do que nossas metodologias não alcançam, sobre nós mesmos enquanto pesquisadores LGBTQ+ na medida que estamos dizendo sobre os nossos interlocutores?

Pesquisador Ribamar Júnior (UFRN).

Penso que algumas metodologias não são e não precisam ser capazes de aderir aos objetos e a razão científica quando o campo reverbera, antes de qualquer coisa, a necessidade de sobrevivência. Preciado (2019) reflete do seu apartamento em Urano que precisamos inventar novas metodologias para a produção do conhecimento e de uma imaginação que seja capaz de enfrentar a razão heterocolonial e a produção da verdade. Escuto muito dos meus colegas da pós-graduação que preciso alcançar a política dura, pois as estratégias sensíveis podem não insurgir do micro para o macro.

Mas, eu tenho confiado muito na vela que uma travesti acende em prece ao Padre Cícero e nos sonhos de uma criança viada que diz se sentir a Lady Gaga ao ser entrevistada, pois, para além da perspectiva de uma ciência dura, o cuscuz que uma brincante me oferece durante a pesquisa de campo diz muito sobre o ato de cuidado e de afeto. É o momento que não cabe no meu caderno, que eu não sei escrever e que fica atravessado entre a pesquisa e o projeto. Eu aprendi mais sentado na calçada, observando a noite passar e tomando café do que lendo Foucault.

Referências

BUTLER, Judith. Vida precária. Revista Semestral do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, v. 1, n. 1, p. 13, 2011.

PEIRANO, Mariza. Etnografia, ou a teoria vivida. Ponto Urbe. Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, n. 2, 2008.

PRECIADO, Paul B. Un apartamento en Urano: Crónicas del cruce. Barcelona: Anagrama, p. 82-4, 2019.

ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Editora Estação Liberdade: São Paulo,1989.

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Leia a coluna anterior: Todas as vozes, todas as mãos : sobre as recentes insurgências

Antonino Condorelli é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Antonino Condorelli

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