“Negritude”: uma imagem entre a captura e a descolonização Diversidades

segunda-feira, 25 abril 2022
Frame de Até o Fim, filme de Ary Rosa e Glenda Nicácio.

O que vem sendo chamado de “cinema negro” está tensionando as formas de representação de pessoas negras na produção audiovisual brasileira

Por Anthony Rodrigues[1]

Este texto tem por objetivo iniciar uma reflexão acerca de uma pergunta deixada em aberto no fim da minha dissertação de mestrado (Rodrigues, 2021). Na ocasião, defendi que o que vem se chamando de “cinema negro” está tensionando as formas de representação – imagéticas, narrativas e performáticas – de pessoas negras na produção audiovisual brasileira. Para qualificar a discussão, trouxe dados de como coletivos, produtoras, festivais, mostras, encontros e associações de profissionais, ligadas ao termo “cinema negro” e/ou “audiovisual negro”, emergiram exponencialmente na última década.

Argumento, então, que o aumento na produção e circulação de filmes de autoria negra durante o período recortado é produto de três processos históricos distintos, porém articulados: o acúmulo de debates acerca do problema da representação racial na produção cultural brasileira; as políticas afirmativas para pessoas negras a partir da virada do milênio (tanto no ensino superior, quanto no fomento público ao audiovisual); e, por fim, a proliferação do que eu chamo de movimentos culturais voltados para o cinema, que apresentam diferentes modos de produzir e exibir filmes atravessados por marcadores sociais de raça, gênero e sexualidade.

Dito isso, a pergunta deixada em aberto no fim da dissertação era: quais formas de representação de pessoas negras estão sendo produzidas por quem diz fazer “cinema negro” no Brasil? O que me levou, posteriormente, a uma pergunta de profundidade ainda maior: por que fazer e reivindicar um “cinema negro”? Por envolver um trabalho minucioso de curadoria e análise fílmica, decidi passar essas questões para a minha atual pesquisa de doutorado. Ainda na dissertação, a primeira hipótese que elaborei – baseado em experiências como espectador de filmes brasileiros de autoria negra – é de que essas formas de representação estão intimamente ligadas à entrada relevante de pessoas negras nas universidades públicas, o que – na minha hipótese – levou ao resgate maior de símbolos, estéticas, práticas culturais e epistemologias africanas, além do acesso mais qualificado ao debate sobre as relações raciais.

Esse pensamento não é necessariamente novo. Autores como Stuart Hall (2006) e Achille Mbembe (2018) vêm discutindo como estamos diante, desde meados do século XX, de uma re-identificação com culturas de origem, em reação à tentativa de homogeneização cultural oriunda do processo de colonização e da globalização. Nesse sentido, para se forjar comunidades negras de resistência em contexto de diáspora, há o resgate político por tradições culturais violentadas, sobretudo nos países receptores de escravizados, refugiados e imigrantes. Nas palavras de Mbembe, há nisso uma busca incessante por vestígios “cujas manchas de sangue são visíveis por toda superfície da modernidade” (idem, p. 63).

No entanto, o que pretendo introduzir aqui é um fenômeno diferente, contemporâneo, se tratando de Brasil. Na dissertação, apontei como as lutas anticoloniais em África e antirracistas nos EUA, entre as décadas de 1960 e 1970, influenciaram na proliferação de movimentos sociais, políticos e culturais africanizados no Brasil – isto é, conectados com a ideia de comunidade afrodiaspórica. Não à toa, a primeira manifestação de um “cinema negro” no país, que trazia consigo a valorização das estéticas e culturas africanas, teria nascido justamente na década de 1970, mediante o ator e diretor Zózimo Bulbul.

Anthony Rodrigues – Foto arquivo pessoal.

Na atualidade, penso haver um movimento cultural distinto, mais intenso, relacionado com modos de ser e estar no mundo, o que reflete não só na criação de espaços culturais e organizações políticas, mas também em padrões de comportamento, consumo, circulação pelas cidades e, como enfoco, na representação artística, como o cinema e audiovisual. Em suma, entendo como algo “novo” porque, ao menos no Brasil, nunca se viu tantos predicativos raciais nas mais diversas formas de expressão: “cinema negro”, “literatura negra”, “produção intelectual negra”, “música negra”, “moda afro”, “culinária afro”, “relações afrocentradas” etc.

Quando revisitamos a literatura que lida com a questão do sujeito racial, isto é, a “negritude” enquanto categoria ontológica, há dois consensos produzidos. O primeiro, mais corrente entre nós, é de que raça é um construto social. Em síntese, significa dizer que a racialização de pessoas negras – que criaria correlações entre fenótipo, práticas culturais, comportamentos sociais e capacidades cognitivas – é produto do homem branco ocidental. Consequentemente, como tanto nos mostrou Fanon (2008), o branco atribuiu escalas de civilidade ao negro: aqueles que tiveram maior contato com a cultura europeia, em decorrência da diáspora, seriam mais “evoluídos” que os negros africanos – essencialmente “primitivos”[2].

Com base nessa tese, Fanon discorreu sobre o complexo psicológico de inferioridade imposto pelo homem branco à população negra, inclusive mediante as formas de representação no cinema hollywoodiano (idem, p. 47). O negro não só teria sido um sujeito racial inventado pelo branco (portanto, um sujeito racializado), como essa invenção seria preenchida de características inatas, como a predisposição ao trabalho físico, a comicidade e a falta de aptidão ao pensamento intelectual. Algumas das características que, como sabemos, serviram de base ideológica para a colonização e a escravidão.

O segundo consenso é o de que houve, pelo menos desde o início do século XX, reações políticas de pessoas negras em diáspora que, apesar de contestarem radicalmente o conceito biológico de raça, mobilizavam a ideia de “negritude” como construto cultural. Nessa reação, não havia nada ancorado biologicamente que determinava o que uma pessoa negra é ou podia ser, mas era enfatizado que pessoas negras em diáspora herdavam traços culturais em comum que podiam identificá-las enquanto comunidade fora do continente africano. Para Gilroy (2001, p. 88), por exemplo, é por meio de reinvindicações africológicas da negritude, ainda que problemáticas, que se mostram os maiores tensionamentos acerca da questão racial no processo de diluição das identidades étnico-culturais baseadas em fronteiras nacionais, igualmente forjadas após a diáspora.

Mesmo que assumamos que no meio cultural há, ainda hegemonicamente, a circulação de representações de autoria branca sobre pessoas negras, a crescente racialização dos discursos políticos na esfera pública, e de movimentos culturais, indica a existência de brechas onde o conflito sobre essa representação é cada vez mais inevitável. A mobilização cada vez maior de um “cinema negro” no Brasil, por exemplo, se deve à existência de perspectivas críticas, de interrogações crescentes, e da construção de “agenciamentos opositivos” (hooks, 2019).

Por outro lado, finalizo, formular uma representação pós-colonial opositiva é também afirmar o que a “negritude” é, dessa vez enquanto construto performático. Nesse sentido, ser “negritude” não diz respeito somente à cor da pele e à herança cultural ancestral, mas também a um modo de ser e estar no mundo baseado em estéticas e narrativas políticas singulares. Isso aparece nitidamente nas artes contemporâneas de autoria negra, sobretudo as que demandam projeção de imagens. Mas também nas formas de se vestir, de se relacionar afetivamente, de se alimentar etc. Se questionar os racismos cotidianos e construir uma identidade social ancorada no resgate de tradições africológicas nos parece agora um objetivo político evidente; cabe a nós, também, investigarmos a potência dessas práticas em transformar os modos de ser e estar no mundo para uma população cada vez mais atenta ao seu perfil racial. Pesquisar a força das novas formas de representação, enquanto tecnologias de subjetivação, me parece um caminho interessante.

[1] Sociólogo, antropólogo e pesquisador dos cinemas da diáspora e de terceiro mundo. Cineasta em formação.

[2] Era comum, em diversas regiões receptoras de escravizados, que negros nascidos na colônia fossem diferenciados, em escala de “civilidade”, dos negros africanos. Brancos usavam, por exemplo, o termo “crioulo” para fazer essa diferenciação.

REFERÊNCIAS

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“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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