O Brasil que (ainda) faz ciência Ciência Nordestina

terça-feira, 25 setembro 2018

O professor Helinando Oliveira fala da estratégia de desvalorização das estatais e do caminho da ciência brasileira

Há uma estratégia de mercado que parece ser universal: o vendedor desvaloriza o que compra para aumentar a sua margem de lucro ao vender. E isto é aplicado tanto no carro usado quanto na venda de poços de petróleo: desvalorizar aquilo que se deseja vender. Não é à toa que presenciamos uma estratégia de desvalorização das estatais prestes a serem vendidas.

A serviço da mídia e das elites interessadas em tornar privadas grandes fontes de recursos estão o velho discurso do descrédito com o bem público, que fez o povo acreditar que a corrupção no Brasil é exclusividade do governo e das estatais. Sem resistência, as estatais seguem a preço de banana, por mais que exista um mar de óleo abaixo do pré-sal e que sua venda jogue fora a soberania que nos resta. Este silêncio (anuência consentida) é trabalhado pela mídia junto com a população minuto a minuto- desconstruindo o sentimento de pertencimento para com a coisa nacional.

E ao tratar de ciência, esta questão se torna ainda mais crítica. Em nossa desagradável síndrome de vira lata é comum encontrar jovens que afirmem que não existe ciência no Brasil. Essa constatação é fruto de uma sociedade controlada pela mídia do entretenimento, o que dificulta ainda mais levar à mesa das pessoas os frutos da boa ciência brasileira – por mais aviões que a Embraer faça e cortem os céus do Brasil, por mais que estações de extração petróleo sejam construídas e exportadas, que nossos cientistas sejam premiados dentro e fora do país….

De fato, estas informações não chegam até o povo. Todos estão confortavelmente antenados nas desgraças do dia-a-dia, no reality show, em amenidades. Neste caminho, a privatização da ciência, tecnologia e do ensino superior parece ser uma estrada já asfaltada. Nas Universidades Federais, os sintomas são claros com a escassez de recursos para assistência estudantil. Os laboratórios já vêm sendo sucateados pela falta de investimento. Por outro lado, as Universidades privadas vêm recebendo mais apoio público com que as próprias Universidades públicas.

As mensalidades na pós-graduação passarão também à graduação e o filho de seu José pedreiro só terá a opção de seguir o ofício do pai. Ele não pode fazer poupança para o filho estudar na Universidade.

E assim a “pseudo” elite (classe média assalariada que faz as vezes de patroa) vibrará, por não mais ter que concorrer com os filhos de pobres nas Universidades. Sem pesquisa, estas instituições serão grandes escolas, que repassarão conteúdos produzidos por outros povos. Isso é fruto da dominação, submissão, entrega. E todos permanecem quietos atrás da telinha, curtindo memes, em uma letargia mortal. Afinal, até quando este país dormirá?

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Leia o texto anterior: CsF 2018: a ciência brasileira sem financiamento

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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