O sol chinês Ciência Nordestina

terça-feira, 6 julho 2021

Testes recentes demonstraram que os chineses estão no caminho certo para produzir reações de fusão a serem aproveitadas como fontes de energia

No final do mês de maio a grande notícia que circulou no meio científico foi a façanha atingida pelo sistema “Tokamak Supercondutor Avançado Experimental” (conhecido como EAST), também apelidado de Sol Artificial ou Sol Chinês. Durante 101 segundos foi possível atingir a incrível marca de 120 milhões de graus Celsius. Foi ainda divulgado que por 20 segundos esta temperatura chegou a 160 milhões de graus Celsius. Estes números impressionam, se lembrarmos que o núcleo do sol atinge 15 milhões de graus Celsius.

Dito isto, a pergunta que fica é: porque ter algo na terra que seja 10 vezes mais quente que o sol?

Para responder a esta pergunta, precisamos entender um pouco mais do que acontece em nosso astro rei. O sol produz uma quantidade elevadíssima de energia por funcionar como um reator por fusão nuclear. No sol, reações de altíssima energia fazem os átomos de hidrogênio (átomo de um próton e um elétron) serem convertidos em hélio (dois prótons, dois nêutrons e dois elétrons) em um processo que conduz o plasma nuclear a atingir temperaturas da ordem de 15 milhões de graus Celsius e cair até valores da ordem de 6000 graus Celsius na sua camada mais externa. A quantidade de energia envolvida neste processo é muito, muito alta mesmo.

Para se ter ideia da intensidade das reações à base de fusão nuclear, estima-se que em um segundo, o sol disponibilize para o universo uma quantidade de energia um milhão de vezes maior que aquela usada por todos os seres humanos de nossa casinha (o planeta terra) em um ano. Vale lembrar também do poder da bomba de hidrogênio lançada pelos EUA em 1952, que demonstrou potência 1000 vezes maior que as bombas atômicas da segunda guerra mundial.

Além de muita energia, este processo (típico das estrelas espalhadas pelo universo) é muito eficiente: a energia liberada pela fusão nuclear é 4 milhões de vezes mais eficiente do que a queima de petróleo e 4 vezes melhor que os processos de fissão nuclear.

Sobre a queima de petróleo, além de ineficiente ela é responsável pela ainda maior emissão de gases de efeito estufa. E por incrível que pareça é a solução cara e ineficiente assumida pelo Brasil para os períodos de seca com este (o que significou o aumento de 52% na bandeira vermelha de nossas contas de luz).

O reator de fusão chinês pode garantir autonomia energética em uma matriz relativamente “limpa” dado que as reações de fusão podem ser consideradas limpas e ilimitadas. No entanto, ainda não teremos a realidade do sol chinês à disposição tão brevemente. Alguns anos ainda serão necessários para que esta energia substitua a queima de petróleo ou as usinas de fissão nuclear. O recorde foi um tipo de prova de conceito, que mostrou que os chineses estão no caminho certo para produzir reações de fusão a serem aproveitadas como fontes de energia verdes.

A coluna Ciência Nordestina é atualizada às terças-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag CiênciaNordestina.

Leia o texto anterior: Seres humanos modificados vivendo em Marte: precisamos mesmo viver isto?

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital