Os 150 anos da revista Nature: o passado (parte 1) Coluna do Jucá

quinta-feira, 5 dezembro 2019

Com quantas revoluções se faz uma revolução?Nos últimos 150 anos, foram muitas as descobertas que revolucionaram a humanidade e que vieram à tona pela revista britânica, de acordo com sua edição comemorativa

Poderíamos começar falando da detecção de “partículas estranhas” em 1947, as quais levaram à descoberta de partículas elementares conhecidas como quarks e, finalmente, ao estabelecimento do modelo padrão da física de partículas. Ou ainda, do advento e do surgimento de anticorpos monoclonais em 1975, os quais revolucionaram os tratamentos de doenças autoimunes e até sobre o câncer.

E por que não falar da nano-revolução gerada pelas pesquisas com o carbono, que a partir de 1985 abriram caminho para materiais como grafeno e nanotubos de carbono, iniciando-se assim a era da nanotecnologia? E o que falar, por exemplo, da inesperada descoberta de um buraco atmosférico na camada de ozônio sobre a Antártida, que ajudou a estabelecer uma das políticas ambientais globais de maior sucesso do século XX? Ou então da descoberta que a diferenciação celular poderia ser revertida? Essa ideia desafiou de forma revolucionária as concepções de como a identidade celular podiam ser determinadas, o que lançou, à época, as bases para métodos modernos de reprogramação da identidade celular e de terapias regenerativas.

Uma dessas descobertas me chamou bastante atenção: em 1925, a Nature publicou a descoberta de Raymond Dart do Australopithecus africanus na África do Sul. Foi o primeiro elo fóssil entre humanos e macacos, o que forneceu uma forte evidência de que os humanos evoluíram de um ancestral comum na África, como o meu grande herói científico  − Charles Darwin − havia proposto, e não na Grã-Bretanha ou na Indonésia, como se pensava anteriormente.Quase 80 anos depois, a descoberta e a publicação dos restos do Homo floresiensis em 2004, que ficou conhecido hobbit, demonstrou que nosso gênero era notavelmente diverso. Outras revelações sobre a pré-história e a evolução humana vieram à tona nos anos seguintes. Elas mostraram que, entre 30.000 e 60.000 anos atrás, os seres humanos coexistiam e tinham filhos com outros hominídeos, como os neandertais e denisovanos.

Outras duas publicações consideradas memoráveis foram: 1) a que ocorreu no início do século XX, em 1932,  e envolveu o físico James Chadwick, que concebeu experimentalmente a ideia da existência de uma nova partícula, o nêutron. Hoje, muitas outras partículas fundamentais foram descobertas graças às previsões da física de partículas; 2) a descoberta de exoplanetas. Em 1995, a revista britânica trouxe como destaque a descrição do primeiro exoplaneta que orbita uma estrela semelhante ao Sol fora do Sistema Solar. Tal feito rendeu à Michel Mayor e Didier Queloz o Prêmio Nobel de Física em 2019.

De fato, foram muitas as revoluções que fizeram a roda da história da ciência girar. E tudo isso, em praticamente um século de história!

Referências:

The structure of DNA. Nature 575, 35-36 (2019). doi: 10.1038/d41586-019-02554-z. https://www.nature.com/articles/d41586-019-02554-z.

10 extraordinary Nature papers. https://www.nature.com/collections/fajcgfjdgh/
WATSON, J., CRICK, F. Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid. Nature 171, 737–738 (1953) doi:10.1038/171737a0

A Coluna do Jucá é atualizada às quintas-feiras. Leia, opine, compartilhe, curta. Use a hashtag #ColunadoJuca. Estamos no Facebook (nossaciencia), no Instagram (nossaciencia), no Twitter (nossaciencia).

Leia o texto anterior: Os 150 anos da revista Nature: o presente

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital