Os mistérios desvendados do buraco negro Ciência Nordestina

terça-feira, 16 abril 2019

O professor Helinando Oliveira fala da recente divulgação de uma imagem de um buraco negro situado a 53 milhões de anos-luz da Terra

No princípio criou Deus o céu e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz. (Gênesis 1:1-3)

As trevas habitavam no vazio, lugar em que a física nunca ousou penetrar. Elas estavam além do horizonte de eventos que pode ter sido disparado pelo observador fundamental. E a pergunta óbvia é: para onde teria ido este observador após o estalo crítico do Big Bang? Se antes do início, este observador residia fora do horizonte de eventos, poderia ele ter migrado para outros pequenos pedaços de escuridão, que tudo consomem e podem (em mais alguns bilhões de anos) consumir o todo? Ok, ok! Prometo parar a divagação por aqui. Mas confesso que esta relação entre buracos negros, big bang e big crunch são caminhos inevitáveis de conexão entre a ciência e o criador. Depois podemos falar sobre isso.

Nesta matéria, conversaremos sobre uma descoberta fantástica que chegou até nós em 10 de abril. Fruto de um trabalho de mais de 200 pesquisadores e oito telescópios de rádio espalhados pelo mundo, acaba de ser revelada a primeira imagem de um buraco negro. Ele está situado a 53 milhões de anos-luz da Terra. Para visualizá-lo seria necessário construir um telescópio do tamanho do nosso planeta. O que os pesquisadores fizeram foi integrar as imagens de telescópios distribuídos por todo o planeta, construindo o que seria a imagem revelada por este telescópio gigantesco (em nossa escala de tamanhos).

Mas, afinal, o que é um buraco negro?

Corpos com grande quantidade de massa tendem a ser grandes em tamanho. No entanto, é possível condensar grandes massas em pequenos espaços – imagine toda a massa do planeta Terra condensada na cabeça de um alfinete, por exemplo. Nos centros das galáxias podem ser encontrados os ditos buracos negros, condensados de matéria que criam um campo gravitacional tão intenso que fazem com que tudo ao seu redor seja absorvido para o seu centro. E este campo de interação é tão forte que nem a luz consegue sair ilesa. Como a luz também é absorvida para dentro dele, não conseguimos vê-lo: daí surgiu a nomenclatura – buraco negro – um ponto invisível no espaço que tem o poder de atrair tudo que está ao seu redor. E quanto mais atrai, mais forte se torna – uma espécie de “Thanos” cósmico que promove a destruição de tudo o que o cerca. Como a física não consegue prever precisamente o que ocorre para além o horizonte de eventos, usemos a licença poética para acreditar que este observador consuma pedaços do universo e os leve para o “outro lado”, em um pseudo “big crunch” de planetas e estrelas.

Voltando à ciência, se a própria luz não pode ser refletida por um buraco negro, como poderiam os cientistas registrá-lo?

Simples. Enquanto o processo de atração de grandes corpos em direção ao buraco negro ocorre, os gases vindos de grandes estrelas emitem luz e este processo acontece até que toda ela seja absorvida pelo corpo ultra massivo. É isso que vemos no registro feito pela equipe. A região central (totalmente escura) é circular, como previsto.

Esta pequena região do espaço, inacessível e invisível é um pedaço do que fomos antes do big bang – um grande condensado em um espaço reduzidíssimo, que explodiu e que brilhou.

E cá estamos nós, observando o sorvedouro universal, ainda sem prever exatamente o que acontecerá com alguém que ouse passear em suas bordas.

Todavia, como toda história de suspense tem seu primeiro capítulo, eis que a primeira foto surge, para mostrar que ele está logo ali, que não é único, que não está tão perto e nem tão longe, mas que um dia chegará até nós. E quanto a isso, relaxemos. Quando ele chegar até aqui, não haverá mais vida na Terra. Será apenas um pingo azul no meio do nada, seguindo sugado rumo ao conglomerado imerso no mais profundo breu- o cemitério das estrelas.

Assista a entrevista com o professor Helinando Oliveira no Canal Nossa Ciência:

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Leia o texto anterior: Superfícies superhidrofóbicas

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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