Pandemia e o micromundo do futebol Ciência Nordestina

terça-feira, 18 agosto 2020

Volta dos jogos está funcionando como um grande laboratório para entendimento do que significa a imunidade de rebanho

O campeonato brasileiro de futebol voltou, embora de portões fechados, para a felicidade do “povo brasileiro” – e de todos os patrocinadores.  Na verdade, para além do futebol, este campeonato vem funcionando como um grande laboratório para entendimento do que significa a imunidade de rebanho.

Os contratos milionários fazem atletas e dirigentes de todas as divisões do campeonato cruzarem o Brasil de ponta a ponta, embora nenhuma vacina tenha chegado a eles. A CBF realiza testes em todos os atletas e tenta a partir disto garantir segurança a todos os envolvidos. Expandido o micromundo do futebol para nossa realidade, é o equivalente a dizer que o governo brasileiro resolveu testar toda a população que foi liberada a viver plenamente o novo normal.

Só que bastaram apenas duas rodadas de jogos para chegarem as notícias de que 20 atletas do CSA testaram positivo para a Covid. Em uma condição de mínima racionalidade, estaríamos neste momento tratando de um lockdown para o campeonato brasileiro, ao considerar a segurança de todos os envolvidos e de seus familiares. No entanto, as notícias que chegam apontam no sentido diametralmente oposto a tudo isso: o Atlético de Goiás conseguiu recurso junto à CBF para escalar jogadores que testaram positivo para a covid-19.

E isso não basta… Há a possibilidade em discussão (e clubes defendem isso) de levar público aos estádios em outubro.

Dentro deste micromundo futebolístico conseguimos perceber claramente como o país resolveu tratar esta grave crise: forçando um novo normal de atividades que envolvem grandes aglomerações, as autoridades fazem explodir o número de casos, enterrando a pauta da covid sem custos de vacina e sobre a dor de milhares de famílias que choram seus entes queridos. A minimização da importância das mortes pela covid-19 tem se revelado pelo espaço perdido na mídia e tornado o brasileiro ainda mais insensível à dor alheia e à coletividade. O que as pessoas demoram a perceber é que a contaminação e as complicações desta doença são ainda imprevisíveis – ela quer chegar a todos. O vírus mata nosso povo e tudo o que a TV quer nos mostrar é que o gol do nosso time é mais importante que tudo isso. Pão e festa no século XXI – sobre o sangue de inocentes.

Referências:

20 atletas do CSA testaram positivo para a Covid

Atlético de Goiás conseguiu escalar jogadores que testaram positivo para a covid-19 – Globo Esporte

Público aos estádios em outubro

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Leia o texto anterior: O problema da retomada das atividades nos laboratórios de pesquisa

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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