Por uma comunicação integral e holística: reconectando os sentidos Diversidades

segunda-feira, 2 novembro 2020
Comunicação Popular - Imagem Reprodução

Colunista propõe uma comunicação popular transformadora que integre os sentidos e se funde na escuta

Por Sarah Fontenelle Santos*

Temos dito com frequência que é preciso decolonizar a ciência, assim como é preciso contracolonizar as nossas relações e nossos modos de existência, sendo esta última uma condição permanente, diria força ancestral, que permitiu a resistência das cosmogonias antepassadas chegarem até aqui.

Subalternizando cosmogonias, o pensamento ocidentocêtrico/Capitalista buscou absolutizar e universalizar as formas de estar no mundo. Colocou no lugar a razão, supervalorizando a perspectiva Tonal – Segundo o indígena Kaka Werá (2020), é a perspectiva guiada pela razão, Ar e Água – deixando de lado a perspectiva Nagual, baseada nas referências do mundo subjetivo, sensação e intuição, terra e fogo.

É assim que os processos mais primevos do ser, a comunicação, se racionaliza ao extremo, deixando de lado a integridade do ser, tonal e nagual. Deste modo, nossa perspectiva nagual vai soterrando-se, de modo a imiscuir-se cada vez mais no inconsciente. Como afirma Kaka Werá, nos distanciamos de Ava-Eté, nosso ser verdadeiro, cabendo a busca pelo nagual em nós, o que pode ser feito nos reconectando com as cosmogonias ancestrais.

A necessidade que o ocidente tem de dar sentido (significado) às coisas retira o próprio sentido da vida, pois empobrece as dimensões de integralidade do ser. Só é real se quantificado, se explicado, se teorizado? Para Muniz Sodré, “Essa necessidade de interpretar, para fazer significar, é uma das grandes linhas de força da civilização ocidental” (SODRÉ, 2002, p. 8).  Este pensamento procura explicar a esmo, a exaustão, retirando a possibilidade de ser integral dos atos, dos gestos, das criações. Ao operar no sistema de interpretação para significar, o pensamento ocidentocêntrico/capitalista, aprisiona os sentidos, por superexplorar o tonal nas relações.

A subalternização das cosmogonias é estratégia de dominação do capital, mas mesmo que as resistências não sejam aparentes, ela caminha, por vezes de modo subterrâneo, visando rotas que minam o modo de ser ocidental/capitalista. Nem tudo é visível aos olhos, nem todos os fatos são passíveis de submissão a elaboração de ideias ou sistemas de ideias e teorias. Nem tudo que existe é visto, assim como nem toda comunicação atravessa os sentidos do olhar, do pictórico, imagético. É preciso decolonizar os sentidos para decolonizar a comunicação.

“Afinal, a ‘descolonização’ dos sentidos altera o entendimento e a formulação de nossas lutas contemporâneas? E que dizer, por exemplo, de um feminismo indígena, assentado numa epistemologia aimará, que, conforme salienta Silvia Rivera, está centrada no ‘escutar’ a ‘Pachamama’ (mãe terra) e não mais na ‘visão’?” (HAILER, 2014, S/N)”.

Que formulações, entendimentos, percepções e criações podemos ter se decolonizarmos os sentidos na comunicação? Alteraríamos os rumos da sociedade do espetáculo (DEBORD, 2000), pautada no imagético e na comprovação da realidade pelo sentido da visão?

Sarah Fontenele. Foto: Arquivo pessoal.

Uma comunicação capaz de não apenas ver, mas também escutar e ser atravessada pelo sensível é capaz também de transcender e retomar a prática de criar uma ecologia que integra o ser reconectando as diferentes consciências, contribuindo para diferentes conviveres. Do contrário, se permanecermos na incomunicação verticalizadora que se restringe aos comunicados,  estaremos fadados a soterrar cada vez mais Ava-Eté.

A tarefa por decolonizar a comunicação não é um luxo da ciência ou perfumaria teórica que massageia o ego acadêmico. Esta é uma tarefa para uma reparação histórica dos setores subalternizados pelo capitalismo, empobrecidos e usurpados. Pois até aqui as estratégias comunicativas midiáticas servem à manutenção das desigualdades, fere o direito de estar no mundo dos mais pobres e contribui para o epistemicídio das cosmologias que seriam capazes de nos tirar da rota de colisão. Se queremos um mundo onde caibam muitos mundos, o pluriverso, é necessário que as diferentes consciências se comuniquem para reparar o direito à palavra que foi roubada e silenciada pelos donos do poder.

Creio que tanto a comunicação, enquanto processo, quer dizer, a comunicação que permite as relações interpessoais, mas também a comunicação midiática podem ser decolonizadas e contra-colonizadas em ações de resistência. Paulo Freire (1987) nos legou a educação como prática da liberdade, acredito, portanto na comunicação como prática de emancipação, pois quando aprendemos a dizer a nossa palavra, nós estamos também construindo o mundo, sendo nós mesmos corresponsáveis pela história.

Por um jornalismo integral: ao resgate de uma ecologia comunicativa

Enquanto jornalista, pesquisadora e militante pela democratização da comunicação minha presença no mundo procura diariamente sonhar-criar a possibilidade de dizer a nossa palavra coletiva, de modo a agirmos desde uma ecologia comunicativa que é integradora e regeneradora de existências. Inspirada no monge Thich Nhat Hanh, Bell Hoocks (2003) nos ensina sobre uma pedagogia holística que integra mente, corpo e espírito.

Que sentidos de integração do ser podemos buscar em uma comunicação como prática da liberdade?

Até aqui, segundo Villanueva, as principais correntes do campo dos estudos da comunicação têm privilegiado as análises das mediações tecnológicas e suas consequências nos contextos político, econômico e cultural. Martin-Barbero (2002) também já havia observado que a estetização digitalizada das formas tecnológicas borram as compreensões.

“Precisamos investigar essa ideologia tecnocrática que permeia e esteriliza muitos esforços de contra-informação, de comunicação “alternativa”, precisamente porque a alternativa neles não chega a questionar verdadeiramente as estruturas político-ideológicas de produção de informação”  (MARTÍN-BARBERO, 2002, p. 115)

A tecnocracia comunicativa toma o lugar de uma comunicação integradora, pois fetichiza as formas e burla os sentidos. A comunicação desde os setores subalternizados, que é o interesse dos estudos decoloniais, por outro lado, visa quebrar a incomunicação orquestrada pela tecnocracia.

Comunicação popular. Imagem reprodução.

Desde a mirada dos setores subalternizados, empobrecidos e usurpados de seus direitos, a comunicação deve agir com força mobilizadora e desenvolvedora de autonomia, pois reverte a lógica dos comunicados e restaura as condições participativas das classes populares. Para Freire (1996),  “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”.

Além da autonomia, a comunicação integradora dos sentidos e do ser, não pode existir sem a escuta profunda e sensível atuando no sentido de uma reparação histórica das vozes que foram negadas no decurso da colonização capitalista. Uma comunicação escutadeira restaura a transcendência dos sentidos, pois vê além do aparente, sente atravessar afetos antepassados e formula saídas para adiar o fim do mundo. É, portanto, utopística, pois mobiliza corpos/corpas para, autonomamente, criar as condições para mudar a história.

Ora, se apreendemos o mundo, se restauramos a escuta e pomos as vozes como testemunhas protagonistas da história, podemos sim desvendar o mundo e cocriar as condições para um mundo novo. Mas para isso, é preciso que nos reconheçamos enquanto enquanto classes exploradas, enquanto povos violados e subalternizados. Como afirma Mauro Iasi, no poema Uma razão a mais para ser anticapitalista, “Está, então, decidido: Vamos mudar o mundo, transformá-lo de pedra em espelho para que cada um, enfim, se reconheça”. É também dizer que esta comunicação deve ser re-humanizadora.

De outro lado, as formas comunicativas hegemônicas silenciam, monopolizam o direito de dizer a palavra, trocam a forma pelo conteúdo, retira a participação, nega o direito de interpretar o mundo apresentando fórmulas prontas e age de forma autoritária. Não sobra espaço para pensar cocriar outras formas de vida, como então expandir os sentidos e restaurar, como diz Kaka Werá o nagual? Negam as diferentes formas de existir, pois sabem que até aqui o que faz resistir às muitas culturas ancestrais do mundo colonizado é precisamente a subjetividade. Krenak afirma que se alimenta das diferentes manobras de seus antepassados, onde brota poesia e criatividade para resistir.  “A gente resistiu expandindo a nossa subjetividade, não aceitando essa ideia de que nós somos todos iguais” (KRENAK, 2019, p. 31).

Hoje o capitalismo mercantiliza nossas subjetividades pois ele é voraz em se refazer, por isso acredito em uma comunicação que busca a participação e as vozes dos debaixo submergindo e causando rupturas no poder econômico e político, pois é do silenciamento que o capitalismo/colonialista se refaz. Não digo, contudo, que a comunicação é a centralidade da luta dos setores subalternizados e explorados pelo capitalismo, contudo, ela é indispensável para nos restaurar enquanto corpo, mente e espírito. Debate este espinhoso, pois considerado como pequeno burguês ao conjunto das esquerdas brasileiras e considerado inferior pela hegemonia acadêmica. O que demonstra como as esquerdas brasileiras e a academia precisam se reconectar às Abya Yala, solo ancestral que precisa ser honrado, pois é dele que brota as estratégias de reExistência. A comunicação decolonial que age em ação contracolonizadora é capaz de restaurar nossa humanidade e nos reconectar ao nosso ser verdadeiro, Ava-Eté.

* Sarah Fontenelle Santos é jornalista e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É co-idealizadora da Plataforma de Comunicação Popular e Colaborativa Ocorre Diário. É yoguini (praticante e estudiosa de yoga) e acredita na força restauradora da ancestralidade.

Referências

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Leia a coluna anterior: Moda e representatividade

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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