Sejamos vela por Marielle Diversidades

segunda-feira, 7 outubro 2019
Marielle Franco. Foto: Anistia Internacional.

Texto da pensadora potiguar Alice Andrade em homenagem a vereadora carioca assassinada em 2018

Na coluna desta semana, trago a apaixonada homenagem de uma intelectual negra nordestina para uma intelectual negra carioca e periférica que foi mãe, bissexual, mestra pela Universidade Federal Fluminense (UFF), defensora dos direitos humanos, ativista social e política, vereadora eleita no Rio de Janeiro com mais de 46 mil votos; uma mulher cuja voz quiseram interromper ao assassiná-la com covardia, mas que se tornou vela e continua acendendo consciências. O artigo é a adaptação de um texto que Alice Andrade, pensadora negra potiguar e doutoranda em Estudos da Mídia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), escreveu e leu em um encontro que organizei para refletir sobre o legado político e intelectual de Marielle Franco e que aconteceu no Auditório do Departamento de Comunicação Social em 14 de março de 2019, um ano exato após o assassinato da ativista.

Sejamos vela por Marielle

Por Alice Andrade

Meninas pretas são só meninas, mas carregam consigo tantas sinas. A começar pelos olhos amendoados que fitam no outro o que gostariam de ser, um corpo esbranquiçado. Carregam a dor de ser o diferente, mesmo estando entre tanta gente. E o peso de terem, para a sociedade, a pele como uma triste marca de identidade.

Meninas pretas são só meninas, mas que um dia se tornam mulheres.  Hoje quero falar de uma delas. Em 27 de julho de 1979, ela brotou no mundo. Foram as suas primeiras lágrimas. Ao longo da vida, outras rolaram por seu rosto, alegres e tristes. Como aos 11 anos, por ter que trabalhar e deixar a infância para trás. Aos 19, com o nascimento de Luyara. Aos 21, pela perda de uma amiga, em uma troca de tiros entre policiais e traficantes na favela. Em 2004, ao se apaixonar por Mônica. Em 2016, por sua eleição como vereadora, com mais de 46 mil votos, sendo a quinta candidata mais votada no Rio de Janeiro. Em 2018, as lágrimas secaram em seu rosto e escorreram até os nossos corações.

Alice Andrade. Foto: Yargo Martins

Como é difícil fazer falarem as palavras quando a injustiça nos emudece. Mas falar é preciso. Gritar, elevando ou não a voz. Unir o luto à luta para questionar: quem Marielle Franco representa? E a quem ela ameaça?

Uma mulher negra, bissexual, socióloga, mestra, moradora da favela, feminista, pobre… mas que tinha voz. Afinal, se uma mulher incomoda muita gente, uma mulher negra incomoda muito mais. Se uma mulher negra que ocupa seu espaço na Câmara incomoda muita gente, uma mulher negra que é vereadora e contesta as estruturas de poder incomoda, incomoda muito mais.

E assim ela foi, enquanto pôde. Um incômodo para aqueles que se sentiam ameaçados pela sua força afetiva, intelectual e política. Marielle abriu as portas que para ela – e para muitas de nós – sempre estiveram fechadas. A começar por este ambiente no qual estamos, a universidade pública. Somente 12,8% dos negros, entre os 18 e 24 anos, são estudantes em instituições de ensino superior brasileiras, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Marielle foi uma das poucas dessa estatística e lutou para que tivéssemos o mesmo espaço, pois sabia que não há mérito sem oportunidades.

Falar de Marielle é fazer um resgate histórico. A profundeza da nossa raiz é ancestral. O que em nossa pele eram marcas de chicote, hoje são ferimentos mortais de bala. A farda que deveria nos proteger às vezes é o uniforme dos nossos algozes. Eles dizem que somos minoria, mas nós povoamos o país. Eles dizem que morremos de overdose, só porque a dose over no nosso corpo é de melanina. Ser negro muitas vezes é ter no próprio corpo a única barreira contra a morte. Foi por essas pessoas que Marielle falou, e é nelas onde hoje ela habita. É em cada um de nós que mantém acesa a fogueira do seu legado.

Falar de Marielle é também falar de travessias. Nas águas turvas da vida que corre o Brasil, ser pobre é nadar contra a correnteza. Ela nadou com firmeza e nos inspira a continuar nadando. Em seu discurso e em sua prática, defendeu que nós somos a força propulsora. Há grande parte da elite que não sabe construir casas. Não sabe costurar suas roupas. Não sabe, sequer, fazer o próprio pão. O que essas pessoas sabem fazer é gerenciar recursos. E mesmo assim querem nos dizer quem, como e quando devemos ser. Marielle foi alguém que disse basta e nos ensinou, com a própria vida, que podemos atravessar esses muros. Além da pobreza e do racismo, ela atravessava, todo dia, os muros da lgbtfobia. Enquanto eles tentavam provar que o amor só tem um caminho, Marielle declamou quem era e incomodou por mostrar que o amor é plural.

Durante a sua vida ela nos moveu. Na morte, co-moveu. No meio da saudade, da tristeza e da dor que a injustiça traz, nos perguntamos: quem mandou matar Marielle? Por quê? Na busca dessas respostas, faltam consciências, sobram coincidências. Mas o silêncio ensurdecedor deles será rasgado pelos nossos gritos de justiça. Aqui também lembramos de Anderson, amigo e motorista de Marielle, cujos sonhos também foram interrompidos por quem achava que enterraria sementes estéreis. Engano.

Este é o momento de identificarmos onde estão as possibilidades. Mulheres, saibamos que os homens podem e devem estar conosco nessa reflexão. Ter lugar de fala não significa ter a exclusividade do dizer, e sim ter a consciência de qual lugar social ocupamos enquanto falamos. Democracia, justiça e paz são palavras femininas, porém sua defesa é uma questão de todos nós.

Não tenhamos medo do confronto. A democracia, hoje na corda-bamba, não significa concordância absoluta sobre uma questão. Pelo contrário. Na democracia há muita inquietação. O ponto chave é que nós, enquanto seus defensores, precisamos dialogar o tempo todo com o diferente. Esse é um aprendizado diário e o legado de Marielle tem muito a nos ensinar.

A trajetória de vida de Marielle nos mostra que as diferenças podem ser uma ferramenta para pensar a sociedade. Não somos um bloco homogêneo. Somos diferentes. Cada individualidade tem uma história, uma formação cultural, uma luta. Isso deve ser valorizado. No entanto, nossas diferenças não podem ser motivo de distanciamento. Perceber as distinções e entrecruzar nossas opressões é a base para a sororidade e a cooperação.

O que um tiro é capaz de matar? Talvez cruelmente um corpo, um envoltório físico, mas a alma dela vive e renasce em nós. Hoje nossos olhos estão mareados de poesia e dor, mas nossos corações pulsam para que ela continue viva, como um átomo incandescente de memória em nossas lutas cotidianas.

Pois quando um privilégio de poucos se torna um direito de todos, Marielle vive. Quando um jovem da periferia ou negro entra em uma universidade pública, Marielle vive. Quando o amor pode ser celebrado sem preconceitos, Marielle vive. Quando uma mulher apoia outra mulher, Marielle vive. Quando nós nos unimos em redes de mobilização e cooperação para manter o seu legado vivo, Marielle vive. E lembremos: a história é fundamental para a reflexão do presente. Nós só somos luta porque antes mulheres lutaram para que fôssemos. Nós só somos árvores porque Marielle foi terra fértil.

Ela são muitas. Peço licença para essa construção gramaticalmente inadequada porque sim, ela são muitas. E muitos. Ela está em nós. Marielle é corpo individual que coletivizou sua vida nas nossas e em várias outras no Brasil e no mundo.

Sejamos vela por Marielle, pois ela é luz. Não qualquer uma. É luz de vela acesa. Quando sua vida encosta na nossa, assim como duas velas que se encontram, ela não se apaga. Nos acende e, de muitas maneiras, continua acesa.

A coluna Diversidades é atualizada às segundas-feiras. Ouça, opine, compartilhe e curta. Use a hashtag #Diversidades. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br).

Leia a coluna anterior: Consciência Negra: uma potência transformadora

Antonino Condorelli é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Antonino Condorelli

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