Sobre o tempo Ciência Nordestina

terça-feira, 8 junho 2021

Uma nova versão do tempo está prestes a ser desvendada

As afirmações de que “O tempo não existe” ou que “O tempo é uma ilusão” vem inundando a internet como consequência da excelente divulgação do trabalho de Carlo Rovelli, que promete revolucionar este conceito tão sólido e consolidado em nossas mentes. Em nosso mundo cotidiano é difícil assimilar qualquer outra definição de tempo. A melhor que já ouvi até hoje vem de meu sogro: ele diz que o tempo é implacável. E é. Há uma seta que nos empurra para frente e deixa tudo o que vivemos guardado em nossas lembranças, sem volta. Sim, o tempo é aquela coisa que achamos ter o controle, mas como um implacável amigo não nos perdoa. E como dizer que ele (o tempo) não existe?

O fato é que existem muitas realidades em diferentes escalas que podem se tocar. O tempo, por exemplo, passa tão rápido quanto ouvimos uma boa música, e praticamente pára quando entramos em uma fila de banco. Albert Einstein já nos ensinou que ele não é absoluto. Ele é relativo. Depende de onde você esteja e com que velocidade se mova. Afinal, neste mundo, absoluta mesmo só a luz, que se propaga com a mesma velocidade para qualquer um. Espaço e tempo, juntos, se curvam a ela com seus incríveis 300.000.000 m/s. E dilatam, contraem, fazem o que for necessário para que ela passe firme e absoluta. Ora, se o tempo implacável se curva para a luz, o que dizer da definição de que “a luz é a sombra de Deus”?

Voltemos ao Carlo Rovelli e as inquietações sobre o tempo. Depois de Einstein tê-lo tornado relativo, chegamos a um novo momento ainda mais impactante, em que uma nova versão do tempo está prestes a ser desvendada. O impacto em nossa vida não será sentido assim tão de imediato. Aliás, o tempo relativo veio a nos afetar tecnologicamente quase cem anos depois de sua descoberta, quando os aparelhos GPS foram corrigidos para sincronizar o “papo” entre a terra e o satélite.

O fato é que este tempo implacável chega até nós pela termodinâmica. A vida é uma eterna luta contra a entropia do universo, que demonstra a desordem que nos aguarda e que a entropia é a seta invariável que nos faz envelhecer. No entanto, a termodinâmica não é tão importante para tudo. Existem micro e macro universos que não dependem do tempo para nada. Aliás, não temos muita intuição sobre estes lugares porque não o acessamos no cotidiano. Nunca provamos o friozinho na barriga de cair num buraco negro nem sentimos a emoção de um tunelamento quântico, embora a tecnologia já nos faça usar dispositivos eletrônicos de tunelamento com resistência negativa.  Mas continuamos sem sentir na pele o que são estes processos. E provavelmente nunca sentiremos, mas isso não significa que não incorporaremos em novos dispositivos eletrônicos.

Tendo em vista estes aspectos, podemos até entender que o fato de ser segunda ou sexta não afete a orbita da terra em torno do sol, a orbita de um elétron em torno de um núcleo ou mesmo na beleza dos lírios do campo. O tempo definitivamente é relativo e agora está prestes a ser descartado em alguns processos gravitacionais e quânticos. Que o seja, e se mostre a nós. O único risco que deve ser evitado é o surgimento de produtos e soluções miraculosas para o nosso tempo. Quanto a isso, vale o alerta: nenhum produto mágico consegue enganar a entropia que nos empurra para o futuro. É melhor viver em plenitude tudo o que temos de fazer, porque se o tempo é implacável a entropia é muito pior.

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Leia o texto anterior: Depois do caos

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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