Um grito de revolução Diversidades

segunda-feira, 26 agosto 2019

Colunista traz um texto da pesquisadora Beatriz Pires que fala de suas transformações a partir da pensadora feminista negra Carla Akotirene

Na coluna desta semana, trago um texto da pesquisadora Beatriz Pires. Ela compartilha as transformações que a leitura da pensadora feminista negra Carla Akotirene – com sua escrita que brota das vísceras atlânticas devoradoras da memória ancestral africana, escrita aquática inspirada pelas Yabás – desencadeou em seu pensamento como mulher, estudante e pesquisadora negra. Beatriz Pires é discente do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pesquisadora do projeto Epistemologias Subalternas e Comunicação.

Quando o ser subalternizado feminino fala: Coisas que aprendi lendo Carla Akotirene

Por Beatriz Pires

Entre as percepções de mundo e conclusões que construí (e ainda construo) desde que encontrei as epistemologias subalternas, acredito que para quem sempre foi tratado como um sujeito subalternizado e, ainda por cima, um sujeito subalternizado feminino, ter seu nome estampando na capa de um livro que fala sobre o seu povo soa como um grito de revolução. Iniciar este livro com poesia, se distanciando de formalidades elitistas e acadêmicas, trazendo o significado dos Orixás e a simbologia do nome de Marielle Franco, faz com que o grito ecoe ainda mais forte.

Carla Akotirene

Carla Akotirene é uma dessas mulheres que escreve como quem bate o pé no chão, sobre os seus e, acima de tudo, para os seus, rompendo com a passividade a que a negritude vem desde sempre sendo submetida.  Quando conheci os seus escritos, lendo suas postagens no Instagram que sempre me deixam em estado de inquietude e, principalmente, lendo o livro Interseccionalidade, da coleção Feminismos Plurais, abri os olhos, entre milhões de outras coisas, para quanto o privilégio social implica em um privilégio epistêmico no Brasil.

O genocídio simbólico que aprendi lendo Abdias do Nascimento atua intensamente no apagamento da produção dos saberes negros, o que revela, mais uma vez, a importância de sujeitos subalternizados falarem cada vez mais sobre sujeitos subalternizados. Isso porque esses sujeitos não são apenas beneficiários do conhecimento, mas também seus formadores. As epistemologias subalternas representam, antes de qualquer coisa, uma forma de resistir e se impor.

Buscando entender a trajetória de Akotirene e tentando compreender mais de perto a interseccionalidade, li uma entrevista onde a doutoranda em estudos sobre mulheres, gênero e feminismo aponta o quanto a universidade necessita do racismo para dar continuidade ao colonialismo. Ela explica que pesquisadoras negras são por vezes legitimadas pelo argumento da visibilidade negra na produção teórica, mas ainda assim continuam presas às correntes ocidentais.

Para tanto, a produção acadêmica dominante transforma a linguagem em instrumento de manutenção do poder. Como a autora coloca em seu livro, o desafio político está em rejeitar expectativas literárias elitistas, jargões acadêmicos e escritas complexas em terceira pessoa, “…buscando impedir que o sangue coagule na caneta, repetindo o gesto da sua mão escura que segura a caneta sem medo de escrever para outras irmãs espalhadas pelo mundo”.  Por isso, pensar e falar sobre feminismo negro significa divulgar a produção intelectual de mulheres negras, reconhecendo-as como sujeitos ativos que vêm criando reexistência.

Ler, estudar, ouvir, aprender e refletir sobre interseccionalidade é entender a sensibilidade analítica de mulheres negras cujas reivindicações não são ouvidas nem pelo movimento feminista branco, nem pelo movimento antirracista. Kimberlé Crenshaw, mãe do conceito, mostra que a interseccionalidade nos permite observar a colisão das estruturas, a interação simultâneas das avenidas identitárias, além do fracasso do feminismo em contemplar mulheres negras, já que reproduz o racismo.  Do mesmo modo, o movimento negro apresenta falhas pelo seu teor machista, que oferece ferramentas metodológicas focadas apenas na experiência do homem negro.  O ponto principal é oferecer uma ferramenta teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural de racismo, capitalismo e cis heteropatriarcado, como propõe o feminismo negro desde a sua fundação.

Pensar interseccionalidade é, acima de tudo, pensar políticas públicas e um novo projeto de sociedade que rompam com determinadas estruturas, para uma convivência muito mais inclusiva e igualitária. Não há como lutar contra uma opressão alimentando outra, do mesmo modo que não há como determinar qual opressão é mais importante de ser combatida ou hierarquizá-las.

Que os conhecimentos, as epistemologias, as ciências e as percepções sejam, cada vez mais, negras e femininas.

A coluna Diversidades é atualizada às segundas-feiras. Ouça, opine, compartilhe e curta. Use a hashtag #Diversidades. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br).

Leia a coluna anterior: Pode o hegemônico escutar?

Antonino Condorelli é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Antonino Condorelli

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