Bernardete Sousa: “No nordeste, temos um déficit no investimento em pesquisa” Entrevistas

quinta-feira, 17 março 2016

Nesta segunda parte da entrevista concedida ao Nossa Ciência, a professora titular do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Bernardete Sousa, fala de suas pesquisas, do contato com seus alunos de graduação e pós-graduação e dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação no Nordeste.

 Para ler a primeira parte da entrevista, acesse aqui .

NC: Qual a sua visão de como a ciência poderia ter melhores resultados no Brasil e especificamente no Nordeste?

BS: Devemos colocar num patamar de grande importância o financiamento das pesquisas. Estamos desde o ano passado novamente com uma inflexão negativa, no ambiente da UFRN estamos como muitas restrições orçamentárias é uma questão de fundo. Acho que teríamos que manter o que tivemos nos últimos 8/10 anos, realmente tivemos um aporte significativo de recursos. Primeiro temos que manter esse fluxo de financiamento, segundo sensibilizar o estado que não investe em C&T para que ele alcance minimamente os patamares médios do que hoje se faz no Brasil. A gente sabe que tem os máximos nas regiões sul e sudeste, alguns pontos no centro oeste e na região norte que investem em pesquisa, mas que nordeste de forma geral, tirando dois ou três estados, nós temos um déficit no investimento. Do ponto de vista operacional, a gestão e os resultados. Na gestão, você introduzir na ciência indicações políticas, isso traz um prejuízo muito grande, obviamente que isso vai existir, mas poderia não ser tão frequente com as mudanças de governo, se ter mais estabilidade e a sensibilidade dos governos, fazer indicações políticas que tenham o reconhecimento acadêmico. Se a indicação é feita com coerência, observando-se o parâmetro acadêmico, o parâmetro adequado para se exercer a função. E a questão mais crítica é como avaliar o uso dos recursos: gestor e pesquisador, o retorno, os resultados. Ultimamente temos tido atitudes muito importantes com relação à aplicação da pesquisa. A política governamental mudou e hoje as justificativas mudaram para qualquer área. As Ciências Humanas, por exemplo, ficavam como que marginalizadas diante de uma visão tecnicista quanto ao retorno das pesquisas, mas as Ciências Humanas estão dentro desse tecnicismo, dentro dessa aplicação é só você despertar sabendo que tudo o que você faz tem uma repercussão. É importante essa discussão, entra também o vínculo onde você gera um produto, a aplicação. Isso vai requerer também uma visão global, empresarial, empreendedora do que se faz na universidade, sobre o que ela está produzindo, isso não é fácil, acho que ocorre em pouquíssimas universidades no mundo, mas a gente tem um conteúdo enorme. E além desse conteúdo, você tem que sistematizar, triar e aplicar. Faltam gabinetes, setores que tenham uma visão institucional de busca dentro das instituições, o próprio CNPq, a Finep, para se aplicar de maneira específica em alguns projetos que se destacam. Você não pode investir igual, claro que todos têm que ter oportunidades, mas tem alguns setores, e o governo brasileiro já tem feito isso, tem elegido como são pontos prioritários para alavancar, para melhorar as condições de saúde, econômicas, sociais, de higiene. Acho que a gente precisa ter um critério de busca. Temos as publicações, que são importantes, nos destaca, mas o que fazer com o conhecimento gerado em revistas de grande porte? Isso está dentro de qual objetivo? Falta também a visão estratégica dentro das instituições.

NC: Você acha que toda ciência tem que ter aplicabilidade?

BS: Não é ter aplicabilidade, a ciência em si para ela ser aplicada ela precisa de um estudo básico que identifique aquilo. Achamos que a aplicação está distante, mas não, ela está colocada. O problema é você identificar o que está querendo fazer, para que e para quem. Quando você sabe pra que, tem um determinado foco e pra quem, vai alcançar o que, a massa da sociedade, um grupo específico, isso tem aplicação. Muitas vezes a gente se distancia disso, mas é inerente a própria construção do conhecimento humano. A própria pesquisa básica, ela promove saltos, descobertas e amplifica os horizontes da aplicação. A gente fala didaticamente essa divisão, mas a pesquisa básica tem o significado de aplicação, não em curtíssimo prazo, mas em curto, médio e longo prazo.

Temos também a questão da divulgação científica que é essa aproximação, é você inserir na sociedade como um todo. Os programas de divulgação científica passam às cinco/seis horas da manhã, quais são os programas que a gente tem na grade de programação? Temos os órgãos de comunicação hoje muito segmentados, todos eles dão essa informação fora de contexto, o que temos são programações voltadas para a segurança e o sensacionalismo da violência ou novelas ou construções que não são do nosso dia a dia. Não temos programas que envolvam a divulgação científica, feitos por jornalistas e pelos pesquisadores em si com o que se produz no país. Acho que no ambiente da universidade muitas vezes você não sabe o que o seus colegas fazem, isso não existe. Na UFRN temos um boletim interno que tem divulgado muito bem o que a universidade faz, mas isso é em contextos específicos, não é a regra.

NC: Na sua carreira, um motivo de grande orgulho?

BS: Quando a gente olha para trás e encontra os ex-alunos, os ex-orientandos a gente tem um sentimento de que pelo menos procurou fazer as coisas bem feitas. Então, eu tenho um bom retorno de meus ex-alunos, quer sejam de graduação, quer sejam da pós, orientados por mim ou que eu ministrei cursos. Das grandes realizações, do que eu me propus dentro da minha profissão, acho que dei uma contribuição razoável, que pode ter feito a diferença em algumas coisas que a gente tem na instituição, afinal eu levo para a sala de aula um conteúdo que não é só o da disciplina em si, mas do contexto. Eu procuro com meus alunos, além do conhecimento teórico, acadêmico, estrito, que tem que ser muito aprofundado, a questão de que contexto você está, o que você pretende. Enfim, trazer uma visão que eles possam se apropriar mais do mundo, que eles possam se posicionar politicamente, não simplesmente escolher a profissão que dá mais dinheiro, mas ver isso dentro de um contexto tanto de realização profissional mas também de uma contribuição efetiva. Você tem que sentir que está sendo justo, principalmente numa universidade federal onde ele recebe o conhecimento e não paga. Você não paga, mas tem o compromisso social de retorno, acho que isso é elementar, para quem tem o compromisso, o respeito com o ser humano, os colegas, o próximo, é fundamental. Eu consegui dar conta do recado de maneira natural, normal, de maneira que me sinto bem, não vou dizer realizada, mas sim que dei minha contribuição, apesar de sentir que posso dar muito mais, mas tenho consciência que devo ir mais devagar, fazer as coisas com mais parcimônia, mais calma.

NC: Esses alunos e ex-alunos são como filhos e sua filha se tornou pesquisadora, o que acha disso?

BS: A primeira coisa é que ela é super independente, eu até queria que ela me demandasse mais. O próprio concurso que ela fez para a universidade, ela me procurou quando já tinha tudo pronto. Vejo ela assim com uma atuação muito responsável, uma das questões que eu acho mais importantes na pesquisa é você ser determinado e ser pontual, ter um compromisso acima de tudo. Vejo que ela tem essas características como vários colegas que tenho aqui no dia a dia. Eu até digo para ela “menos”, pois quando a gente é jovem a gente assume vários ônus e isso tem um custo. Hoje olhando para trás vejo que tem custos, mas cada um que está vivendo o momento faz suas escolhas.

NC: Dizem que a ciência é inebriante, é uma “cachaça” e que um pesquisador é pesquisador o tempo todo, que aquele olhar curioso diante da sociedade continua funcionando o tempo todo. Gostaria de saber qual o seu lazer, o que lhe dá prazer quando não está envolvida com o trabalho?

Eu sou uma cinéfila, eu vejo muitos filmes, semanalmente. Procuro ter uma atividade física regular acho isso muito importante, às vezes sistematizada, mas é uma coisa que me dá grande prazer. Estou sempre caminhando, fazendo uma academia. E gosto muito dos afazeres de casa, quando tenho tempo de ir para a cozinha fazer alguma coisa. Também busco inspirações em alguns livros chaves, não tenho lido muito, mas tenho vários livros separados para quando me aposentar (risos). Ano passado consegui ler cinco, seis livros nas férias de verão, entre dezembro e janeiro, mas recentemente só li um e foi uma releitura de Madame Bovary. Enfim, gosto muito de ler e me atenho também ao jornal diário. Realmente é o cinema, a atividade física e a leitura que gosto de estar atualizada particularmente na área de ciência e tecnologia.

NC: E o futuro, como você quer que ele seja?

BS: Estou trabalhando com essa linha de endocrinologia comportamental e poucas pessoas fazem isso no Brasil. No meu laboratório já formei alguns colegas que vão manter essa linha de investigação dentro da UFRN, no Instituto do Cérebro que é onde eu atuo. Pretendo ver se consolido essa linha de neuro endocrinologia que não existia quando eu fiz o concurso. Para o futuro eu espero que com esses outros colegas que vão chegando eu possa montar uma estrutura e fazer algumas dosagens aqui de alguns marcadores biológicos do sistema hormonal, imune que dê algumas contribuições importantes para o aprofundamento dos estudos de algumas síndromes clínicas que são multifatoriais e que não tem diagnóstico, nem tratamento específico estabelecidos, buscamos trazer uma contribuição nesse sentido. A área da expressão do comportamento, que é muito importante e desafiadora, então ainda tem muita coisa para o futuro. Pretendo deixar essa linha mais ou menos consolidada para que outras pessoas que já estão atuando, continuem isso e tragam informações sobre as interações de hormônios e comportamento.

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