A explosão de Tunguska #HojeÉDiadeCiência

sexta-feira, 29 junho 2018
Ainda hoje não nascem árvores no local (Foto: Google)

Evento ocorrido há 110 anos ainda intriga cientistas. Caso ocorresse outra vez, o potencial destrutivo seria incalculavelmente maior, mesmo se fosse sobre o mar

Tudo aconteceu há exatos 110 anos. O amanhecer daquele dia de verão nas margens do rio Tunguska, na Sibéria, parecia igual a qualquer outro. Os primeiros raios de Sol aqueciam brandamente a floresta boreal, com seus pinheiros silvestres e charcos úmidos… Quando o céu explodiu e a terra sentiu sua fúria.

Por volta das 7h15 da manhã daquele 30 de junho de 1908, uma onda de choque quase mil vezes mais forte que a bomba de Hiroshima derrubou 80 milhões de árvores em mais de 2 mil km2 (quilômetros quadrados) de floresta. Renas, ursos, lobos, raposas e milhares de outros animais tombaram junto com a vegetação, que até hoje não se recompôs inteiramente.

Céu incandescente

(Foto: Google)

A explosão de Tunguska foi o maior impacto de um corpo celeste que a Terra sofreu em toda a história da civilização. Ainda que o epicentro estivesse despovoado, pessoas em centenas de lugares da Ásia e Europa testemunharam o ocorrido.

Os relatos eram extraordinários. Fortes ondas de calor, ventanias intensas, estrondos pavorosos e tremores de terra foram reportados. Muitos viram uma bola de fogo e sua cauda esfumaçada se precipitando no horizonte distante.

O céu noturno ficou incandescente por semanas, tal a quantidade de poeira jogada na estratosfera com a explosão. Em Londres, a mais de 10 mil quilômetros, era possível ler um jornal à noite, somente com essa luz. Do outro lado do oceano, o observatório norte-americano Smithsonian registrou uma diminuição na transparência atmosférica que durou meses.

Hipótese espetacular

(Foto: Google)

O que aconteceu? É claro que houve muita curiosidade, mas a primeira expedição a examinar a região partiu com mais de uma década de atraso, em 1921. Na ocasião, o geólogo soviético Leonid Kulik não conseguiu alcançar o local exato, e deduziu que o evento foi devido à queda de um grande meteorito.

Essa hipótese acabou persuadindo o governo soviético a financiar outra expedição em 1927, atraído pela possibilidade de encontrar um meteorito ferroso, de valor comercial. Mas nenhuma cratera foi encontrada, muito menos um meteorito. Outras expedições confirmaram essa ausência.

Calculou-se que a magnitude da explosão ficou entre 10 e 15 milhões de toneladas de dinamite. Mas o objeto que a causou não tocou o solo, espatifando-se em pleno ar, a cerca de 8 quilômetros de altura.

O evento semelhante mais intenso até hoje aconteceu em 1930 sobre o rio Coruça, no Amazonas, tendo atingido no máximo a energia de 1 milhão de toneladas de dinamite.

Afastada a suposição de um meteorito, mas levando em conta os relatos da bola de fogo, surgiu uma hipótese ainda mais espetacular: em 1908, um pedaço de cometa teria se chocado com a Terra.

Cometa ou asteroide?

Um cometa é formado principalmente de gelo. Gelo de água e um pouco de metano e amônia. Chocando-se com a atmosfera terrestre um fragmento cometário não muito grande se volatizaria antes de tocar o solo, sendo capaz de produzir uma bola de fogo radiante e uma poderosa onda de choque e calor, que arrasaria a superfície sem deixar uma cratera de impacto.

Os únicos vestígios no solo seriam microdiamantes e pequenas esferas de vidro (sílica), com alta concentração de irídio e níquel, o que comprovaria a origem extraterrestre. Expedições enviadas a Tunguska a partir de 1950 encontraram precisamente esses indícios.

Bem mais recentemente, em 2007, supercomputadores foram usados pela primeira vez para simular em três dimensões o evento de Tunguska. A estratégia deu certo, mas resultou num quadro inteiramente novo. E assustador.

Antes, supunha-se que um pedaço de cometa do tamanho de um campo de futebol, pesando um milhão de toneladas e movendo-se a 108 mil km/h (quilômetros por hora) teria causado a explosão. Porém, as simulações sugerem que um pequeno asteroide teria o mesmo efeito.

À medida que penetrasse na atmosfera, ele sofreria cada vez mais resistência. Até aí nenhuma novidade. O que os computadores demonstraram é que mesmo sendo mais maciço que um cometa, um asteroide também poderia explodir na atmosfera – e bastaria a energia equivalente a 5 milhões de toneladas de dinamite para causar uma onda de choque como a de Tunguska.

Perspectiva sombria

Asteroide Ryugu (Foto: Google)

O estudo melhora nosso entendimento sobre o mecanismo da explosão, mas também faz um alerta. O número de asteroides potencialmente perigosos é muito maior que o de cometas. A possibilidade de acontecer de novo exige a elaboração de boas estratégias de defesa.

Por causa da rotação da Terra, se a colisão de Tunguska tivesse ocorrido cerca de 4 horas e meia mais tarde, a cidade de São Petersburgo teria sido varrida do mapa para sempre. Talvez nem estivesse havendo uma Copa do Mundo na Rússia hoje, se aquela colisão tivesse ocorrido sobre uma grande cidade daquele país – tamanha a catástrofe que poderia ter acontecido.

Mas há cem anos a população mundial ainda beirava 1,5 bilhão de habitantes. Hoje somos mais de 7 bilhões, ocupando muito mais espaço, principalmente nas áreas costeiras. O potencial destrutivo de um novo Tunguska é incalculavelmente maior. Mesmo que aconteça sobre o mar.

E a pergunta não é se pode acontecer de novo, mas quando.

Dia do Asteroide no Parque da Cidade

Por causa da explosão de Tunguska, a data 30 de junho assinala hoje um evento mundial denominado “Asteroid Day” (o Dia do Asteroide). A ideia é conscientizar a população, de modo a levar essa preocupação às agências espaciais do mundo todo, no sentido de buscar monitorar e, principalmente, desviar os asteroides potencialmente perigosos para a Terra.

Em Natal (RN), o Dia do Asteroide acontece no Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte no sábado, 30. Serão expostos painéis da ONG internacional The Planetary Society e voluntários da SPACE (Sociedade Potiguar de Astronomia e Ciências Espaciais) receberão o público a partir das 16h para uma conversa sobre o tema. Também serão montados telescópios no centro de visitantes do Parque para observação do céu. O evento é aberto a todo público e o acesso e estacionamento são gratuitos.

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José Roberto Vasconcelos Costa

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