Partido dos cientistas? Ciência Nordestina

terça-feira, 20 fevereiro 2018
Tema ganhou repercussão durante a 69° Reunião Anual da SBPC, em Belo Horizonte. (Foto: Pietro Sitchin/SBPC)

Diante dos ataques à pesquisa no Brasil, foi cogitada a criação de um “Partido da Ciência”. Seria esta medida necessária? Como cientistas poderiam lidar com as outras demandas do país?

Vivemos um período de evidente confusão política e social. A prioridade para a ciência tem sido deixada próxima ao último plano e os horizontes não são nada animadores para C&T em nosso país. Desde a fusão do MCTI com o ministério das Comunicações surgiu um enorme alerta como um sinal amarelo de que seria a ciência do país que pagaria o pato da crise. E de lá até aqui vimos que junto à ciência estão a saúde, educação… Enfim, o povo brasileiro.

Nestes momentos de crise generalizada temos a clara percepção de que a máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro” vem sendo praticada de maneira escancarada. As famosas bancadas da bíblia, boi e bala buscam com maior intensidade garantir o seu pirão, esquecendo que não foram eleitos por balas nem por bois. Os próprios fiéis que os elegeram também estão morrendo queimados por não terem dinheiro para comprar um botijão de gás. O temeroso inferno do pós-morte tem sido visto ainda em vida.

Parlamentares eleitos com apoio de igrejas,  agronegócio e indústria de armas formam a “Bancada BBB”.

A quem servem, então, os eleitos pelo povo? Parece claro que os serviços da maioria são direcionados ao poder monetário global. Mas o poder monetário global não tem título de eleitor. Ele manipula a opinião pública pela mídia, e o voto vem do povo, que em sua maioria não fiscaliza o comportamento dos seus eleitos.

Livres para defender causas do poder monetário global, os representantes do povo se reúnem para deliberar sobre questões que apontam contra àqueles que os elegeram (reforma da previdência, reforma trabalhista, PEC do teto, entre tantas outras).

E na busca pela sua colher de pirão, as categorias entendem que é importante estruturar o congresso em torno de bancadas. No entanto, ninguém vota no partido da bíblia, do boi ou da bala. Os candidatos normalmente não são eleitos defendendo este tipo de plataforma.

Lançar um partido dos cientistas seria uma forma de garantir que alguns dos representantes do povo voltassem seus olhos para a ciência brasileira. Para isso enviaríamos nossos cientistas à Brasília para um confronto diante das demais bancadas, com o intuito de reforçar orçamentos para a pasta de ciência e tecnologia.

Mas… Onde estaria a bancada da saúde? A bancada da dignidade? A bancada da fome? A bancada dos sem teto? A bancada das crianças sem futuro? Onde está a bancada do povo?

Seríamos extremamente egoístas se elegêssemos um congresso inteiro de cientistas que pensassem apenas nos laboratórios. A quem interessa ter um laboratório de ponta ao lado de crianças sem comida e sem teto?

Independente da profissão do eleito, o que precisamos para o nosso congresso é de gente que tenha sensibilidade para ajudar a gente brasileira. E no meio desta gente brasileira estão também os cientistas, que precisam fazer ciência. Se o trabalho destes políticos for voltado para um plano de desenvolvimento nacional é evidente que sairemos deste atoleiro. Mas pularemos fora junto à saúde, à educação, do combate à miséria, pela dignidade do povo…

O cientista nasceu para o laboratório, assim como o palhaço para o circo e o pastor para a igreja. Isso não significa que estas pessoas estejam proibidas de exercer um cargo eletivo. O que não nos interessa é formar pastores, palhaços e cientistas que aspirem a política como um fim. Todos precisam entender qual o seu devido lugar na sociedade. E se o mandato é de quatro anos, que eles retornem ao seu lugar após os quatro anos.

Não queremos discursos demagógicos de fim de mandato de quem nada fez e nem tão pouco gritos de ódio daqueles que deveriam pregar o amor. Queremos políticos que saibam prestar contas, que façam do seu cargo uma forma de melhor servir e que sejam resistentes ao brilho fascinante do poder, aquele mesmo que corrompe e destrói todas as boas intenções.

Em 2018 teremos a oportunidade de trocar praticamente todos eles. Mas a verdadeira missão a partir de 2019 é saber monitorá-los. Se os eleitores souberem como votam e o que fazem os seus eleitos, saberão em quem não mais votar na próxima eleição.

Não creio que precisemos de um partido de cientistas. Temos de encher a câmara e o senado de gente que tenha compromisso com o povo e com o país. Pessoas que não se submetam às ofertas do poder econômico e sintam uma profunda dor ao ver a miséria.  Gente que queira retornar à sua rotina após quatro anos e que cumpra com o que prometeu.

O Brasil pode acordar outra vez a partir destas eleições. Não apenas pelos escolhidos, mas essencialmente pela postura diligente de quem os elegeu. Cada um de nós tem a sua impressão digital, portanto, não há porque imaginar que político seja farinha do mesmo saco. Todos são diferentes, porém a postura de quem os elege parece ser frouxa o suficiente para deixá-los livres de cumprir suas promessas. E quem não é cobrado pode fazer tudo, inclusive nada. É chegada a hora (antes tarde do que nunca) de exigir postura dos candidatos frente à saúde, moradia, ciência, tecnologia, direitos humanos e tudo mais. O voto é o bilhete que vale um pacote de esperança para o futuro. Usemos bem o nosso poder, afinal ainda vivemos em uma democracia.

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Helinando Oliveira

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