Os testes realizados em diferentes países demonstraram que os produtos gerados localmente apresentaram desempenho comparável ao de reagentes comerciais.(Foto: Ascom Fiocruz PE)

Estudo internacional democratiza a produção de insumos para pesquisa e diagnóstico em saúde

Um estudo internacional publicado na revista Science Advances demonstrou que ferramentas portáteis e de baixo custo podem viabilizar a produção local de reagentes essenciais para pesquisa científica e diagnóstico em saúde. Dessa forma, a tecnologia reduz a dependência de cadeias globais de suprimento e fortalece a capacidade científica de países de baixa e média renda.

A pesquisa reuniu cientistas do Canadá, Estados Unidos, Chile, Colômbia, Índia e Brasil. No país, a Fiocruz Pernambuco coordenou o projeto nacionalmente. O pesquisador Lindomar Pena, do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da instituição, liderou a implementação e a validação dos estudos ao lado de sua equipe.

Além disso, o estudo integra um esforço internacional liderado pelo professor Keith Pardee, da Universidade de Toronto, no Canadá. A iniciativa busca demonstrar que sistemas de biofabricação descentralizada podem produzir proteínas, enzimas, reagentes diagnósticos e outros insumos essenciais para a pesquisa biomédica em diferentes contextos e regiões do mundo.

Dependência de reagentes importados

Segundo Lindomar Pena, a participação brasileira foi decisiva para validar a aplicabilidade da tecnologia em condições reais. Também contribuiu para o desenvolvimento de soluções mais acessíveis para a ciência global.

O pesquisador afirmou que um dos principais desafios enfrentados por pesquisadores brasileiros e de diversos países em desenvolvimento é a dependência de reagentes importados, que frequentemente sofrem atrasos de entrega, altos custos e dificuldades logísticas. “Tecnologias que permitam a produção local desses insumos representam um avanço importante para fortalecer a autonomia científica e ampliar a capacidade de resposta a desafios de saúde pública”, afirmou em publicação da Fiocruz.

Outro destaque da participação brasileira foi o envolvimento de Severino Jefferson Ribeiro da Silva. Egresso do Programa de Pós-Graduação em Biociências e Biotecnologia em Saúde (PPGBBS) da Fiocruz Pernambuco, ele atualmente realiza estágio pós-doutoral na Universidade de Toronto. Como primeiro autor do artigo, Jefferson desempenhou papel central na condução do estudo internacional.

Em 2024, Silva e o pesquisador Quinn Matthews, também da Universidade de Toronto, realizaram uma missão científica na Fiocruz Pernambuco. Durante a visita, eles avaliaram as ferramentas de biofabricação descentralizada e fortaleceram a cooperação entre as instituições.

Para realizar a pesquisa, os cientistas utilizaram sistemas biológicos acelulares capazes de produzir proteínas a partir de componentes moleculares previamente preparados e liofilizados. Como esses reagentes dispensam refrigeração, podem ser armazenados e transportados com mais facilidade. Por isso, tornam-se especialmente úteis para laboratórios em regiões remotas ou com infraestrutura limitada.

Os pesquisadores também utilizaram equipamentos simples e portáteis, incluindo dispositivos produzidos por impressão 3D, em etapas essenciais da produção e purificação de proteínas. Os testes realizados em diferentes países demonstraram que os produtos gerados localmente apresentaram desempenho comparável ao de reagentes comerciais.

Produção de insumos estratégicos

Nesse contexto, a iniciativa busca enfrentar um problema recorrente na ciência global: a concentração da produção de insumos biotecnológicos em poucos centros internacionais. Essa dependência pode comprometer pesquisas e ações de vigilância em saúde diante de atrasos logísticos, dificuldades de importação ou interrupções nas cadeias de suprimento.

Para Pena, a relevância do estudo vai além do desenvolvimento tecnológico. Na sua opinião, demonstrar que é possível produzir localmente insumos estratégicos, com qualidade e custo reduzido, representa um passo importante para fortalecer a capacidade de resposta a emergências em saúde e reduzir desigualdades no acesso à biotecnologia.

O trabalho também contou com a participação das pesquisadoras Bárbara Santos e Suellen Lima e da doutoranda em Biociências e Biotecnologia em Saúde Renata Mendes. Além delas, contribuíram os pesquisadores e estudantes da Fiocruz Pernambuco Gabriel Wallau, Marcelo Paiva, Thaíse Cavalcanti, Laís Machado e Larissa Krokovsky. A pesquisa também recebeu a colaboração dos professores Jurandy J. F. Magalhães, da Universidade de Pernambuco (UPE), e Abelardo Silva Júnior, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), juntamente com sua equipe.

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