É possível ter qualidade e quantidade ao mesmo tempo? Sim! O que se deve balancear é o custo a pagar por isso.

Quantidade X qualidade

Antes de iniciar a nova série sobre eletromagnetismo no modo “stricto sensu” (como diz nossa editora), vamos dar um pequeno recesso nos conteúdos de física e aproveitar a oportunidade para colocar os assuntos em dia.  Ainda repercute nos bastidores o fim do Qualis da capes. É incrível perceber como algumas pessoas perderam o “chão” com o fim de algo que claramente não se sustentaria por muito tempo. Para entender o modus operandi do pesquisador brasileiro, vou reproduzir uma história que, de fato, aconteceu (certamente mais de uma vez).

O sonho de todo físico basileiro é comer a grama das grandes universidades americanas (não no sentido literal), mas passear pelas bibliotecas visitadas por Einstein, Feynman e Hawking, cruzar com um Prêmio Nobel tomando café pelo gramado e claro, publicar muito.

Um jovem pesquisador brasileiro conseguiu trabalhar com um grande pesquisador estadunidense, e no primeiro encontro que tiveram, a primeira pergunta que recebeu foi:

-Quantos artigos você quer publicar aqui?

De pronto, ele respondeu: O máximo que eu puder.

O pesquisador sênior rebateu: Errado! Você não publicará nenhum artigo, porque o tempo é muito curto. Você precisará de mais tempo para fazer o melhor trabalho de sua vida.

Decepcionado, mas resiliente, o pesquisador brasileiro levou aquela aprendizagem para a vida.

A partir de então, ele passou a encarar o seu próximo trabalho como o melhor que poderia fazer. E quando se faz o melhor, não se está preocupado com a quantidade, mas sim com a qualidade.

Einstein e Newton

E quando o trabalho supera as expectativas, não há dúvidas de que será publicado em uma ótima revista, com fator de impacto elevado. Certamente, esta publicação será um Qualis A1, o que, de fato, não faz a mínima diferença. A logística da matemática do pesquisador brasileiro era de elencar o maior número possível de artigos no estrato A por ano, quando a própria avaliação da Capes foca em artigos de destaque. Com o fim do Qualis (que poderia muito bem ter recebido o nome de Quantis), fica claro que a avaliação no país prioriza a qualidade em relação à quantidade.

Ora, se pegarmos o exemplo de Albert  Einstein, veremos uma produção concentrada no seu ano miraculoso. E foi suficiente. Ele não produzia 20 papers por ano… Muito menos Newton. E ambos escreveram seus nomes na história pela qualidade.

É possível ter qualidade  e quantidade ao mesmo tempo? Sim! O que se deve balancear é o custo a pagar por isso. Esse custo, como bem nos ensinou Pepe Mujica é o preço de nossas vidas. Alguém consegue publicar 20 artigos impactantes por ano, sendo cada um deles melhor que o outro? Talvez. Se a vida fosse apenas isso e a entropia não cobrasse o preço que cobra com gastrite, pressão alta e insônia, diria que vale a pena. Mas somos uma máquina falível e não uma fábrica de papel.

Qualidade é naquilo que se produz e naquilo que se vive. Não ainda ser um produtivista adoecido. A ciência continuará depois que formos embora, ela é uma construção coletiva de milênios. Cada um de nós é um mero passarinho nesta estrada.

E o fim da história é que, naquele ano, o pesquisador brasileiro teve sua pior produção de artigos de todos os tempos (em termos de quantidade). No entanto, o único artigo que ele produziu naquele período continua, até hoje, a ser o mais citado de todos. O pesquisador sênior tinha razão. E, ao final do texto, se ainda restasse uma dúvida, seria esta: esta história aconteceu de verdade? Com diria Chicó, o impagável personagem de Ariano Suassuna: “Não sei, só sei que foi assim.”

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência