Quando escrever não basta

Na década de 1940, dois dos meus livros foram rejeitados por editoras estadunidenses. Não aceitei esse veredito e decidi imprimir meus próprios livros.

Anaïs Nin

Encontramos o relato da escritora Anaïs Nin (1903-1977) em “A história da minha prensa”, texto traduzido por Laura Daviña e tornado público em terras brasileiras graças ao esforço coletivo da Publication Studio Fortaleza (@ps_fortaleza). Como se definem em seu perfil do Instagram, trata-se de “uma plataforma de publicação baseada na circulação internacional e na produção local de livros. Realizada com recursos próprios, em Fortaleza, o PSF inaugura em 2026 com o compromisso de disseminar ideias transformadoras e fomentar uma comunidade em torno do ato de publicar”.

Que esforço maravilhoso! Graças a ele ficamos sabendo que a autora de “Delta de Vênus” foi também editora. E constatamos também que, mais de oitenta anos depois, as palavras de Anaïs continuam a ecoar em novos gestos de tantas outras pessoas que vivem o mesmo sentimento de que escrever não basta, é preciso também lutar pela própria publicação. O caminho para isso: tornar-se editor, editora.

Autores-editores não são, pois, nenhuma novidade. No livro “Editores artesanais brasileiros” (Editora Autêntica e Fundação Biblioteca Nacional, 2023), Gisela Creni reúne alguns casos de editoras que surgiram buscando a autopublicação ou publicação de amigos estreantes. Dentre esses, estão João Cabral de Melo Neto, que um dia, quando vivia em Barcelona, resolveu comprar uma prensa manual Minerva e criou assim as Edições O Livro Inconsútil. Durante sete anos, antes de vender a prensa para um convento em Petrópolis, editou seus livros “Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antíode” (1947) e “Cão sem Plumas” (1950), além de publicar em pequenas tiragens poetas como Joaquim Cardozo, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Murilo Mendes e Vinícius de Moraes.

Outro caso célebre de autor-editor é Augusto de Campos. Em artigo intitulado “O autor-editor: o caminho paralelo da poesia concreta”, Marina Ribeiro Mattar e Rogério Barbosa da Silva mostram como a autopublicação foi o caminho encontrado por Augusto de Campos para poder expressar em livro sua poética experimental, incompreendida pelo campo literário de então. “Poetamenos” (1953) e “Poemóbiles” (1974), assim, são fruto não só de um ato de rebeldia contra o verso tradicional, mas também contra o mercado editorial.

O mesmo ato que Anaïs assim descreveu:

A criação de um mundo próprio, um ato de autonomia e liberdade: esse é o trabalho com a prensa, é um remédio maravilhosos para a raiva e a frustração. Os insultos dos editores, as rejeições, a indiferença, tudo isso é esquecido

No Rio Grande do Norte não seria diferente e, para citar apenas a capital Natal, há uma profusão de autores – poetas, ficcionistas, jornalistas, escritores, em suma – que não se contentaram em apenas escrever: decidiram ser também editores, criando seus próprios selos editoriais. Já falamos sobre elas e eles em outras ocasiões: Flávia Assaf e Adriano de Sousa, com a Flor do Sal, Victor H. Azevedo, com a Munganga Edições, Marize Castro, com a Una, ou Osair Vasconcelos, com a Z Editora, dentre tantos outros nomes, são algumas dessas pessoas que reatualizam o gesto de Anaïs, João Cabral, Campos e tantos outros.

Graças a esse gesto, o campo editorial se diversifica e nós, leitores, temos mais opções. Sobretudo a opção de não se restringir ao que grandes editoras determinam e impõem em termos de leitura. A leitura, nessa direção, também pode ser um gesto de rebeldia.

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Cellina Muniz é escritora e professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.