E o país inteiro parou novamente em frente à TV para ver uma partida de futebol. Na verdade, mais de uma centena de partidas. E, no final, restaram apenas aquelas seleções que eram as favoritas: as que estavam mais preparadas, além das que demonstraram mais garra e vontade de vencer. Pelo caminho foram ficando as zebras, as eternas promessas, os mitos, as dancinhas, as provocações, o antifutebol… A nossa seleção mais uma vez ficou em uma fase preliminar, quiçá classificada como terceira prateleira entre todas. O que houve com o Brasil pentacampeão, maior vencedor de todos, que agora acumula um hexa de eliminações?

Antes de continuar, peço paciência aos leitores que não curtem futebol, afinal esta é uma coluna de ciência, o que teria a ver com o futebol? Tirando as BETs, que provavelmente nunca chegarão aos laboratórios de pesquisa (o que é uma boa coisa) em muito ciência e futebol podem ser associados… Então vejamos.
Voltando à pergunta lá em cima…. O que apequenou a seleção brasileira? A falta de planejamento. Ver um time sendo montado e testado em plena copa do mundo era um sinal de alerta enorme indicando que ia dar errado. Aí entram as superstições: “Nunca na história, perdeu para….”, “mas Deus é brasileiro….”,” somos os únicos pentacampeões, respeita….” Que evidentemente não servem para nada, a menos que iludir uma nação louca para levantar o caneco.
E na ciência, essa mesma falta de planejamento com mudanças de ministérios, fechamento de setores e mudanças de rumo ao sabor de cada governante nos faz seguir pelo mesmo caminho, ao ter de consertar o ar condicionado do laboratório com recursos próprios, fazer uma gambiarra aqui e outra ali para um equipamento que já não funciona mais como antes….
Só que para nossa alegria surgiu uma definição, que é o ciclo… Ciclo olímpico, ciclo da copa… Que dura 4 anos. Nosso técnico já assinou até 2030, ciclo este que começou na derrota frente à Noruega. Parece que entendemos que não se deve mudar o técnico dentro de um mesmo ciclo. E o ciclo da ciência, quanto tempo dura?
Bom, as conferências nacionais de ciência e tecnologia alinham rumos, estabelecem metas para ordenar uma caminhada de muitas décadas, com um plano de Estado que seja firme e resistente a personalismos. O país precisa ter uma política duradoura e persistente de apoio à pesquisa.
Se o futebol depende de virtuosos como foi o nosso Pelé, a independência do país depende de investimento persistente em educação, ciência e tecnologia. Esse processo leva dignidade às nossas crianças, forma gerações de novos cientistas e resolve nossos problemas pela produção de conhecimento. É simples assim, investir e colher. Sempre. Até mais fácil que ser hexa. O problema é que este colosso da América do Sul assusta muita gente. E por isso mesmo o fazem seguir a política de dois passos para frente e dois passos para trás. Parece passinho, mas não é.
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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência










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