O terremoto na Venezuela reacende debate sobre riscos ambientais enquanto previsão de um El Niño muito forte coloca o Brasil em estado de atenção. Especialistas afirmam que a maioria das tragédias pode ser reduzida com planejamento, monitoramento e prevenção. O terremoto que atingiu a Venezuela na última semana voltou a chamar a atenção do mundo para a força imprevisível da natureza. Embora o Brasil esteja fora das grandes zonas sísmicas do planeta e praticamente livre de grandes terremotos, o país convive diariamente com outros perigos capazes de provocar perdas humanas e materiais: enchentes, deslizamentos de terra, secas prolongadas, queimadas e eventos climáticos extremos.

O alerta ganha ainda mais importância diante das previsões do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Os modelos climáticos indicam mais de 90% de probabilidade de permanência do fenômeno El Niño até o início de 2027, com possibilidade de atingir intensidade muito forte. Para boa parte do Nordeste, o cenário previsto é de chuvas abaixo da média, temperaturas elevadas e aumento do risco de queimadas.
Vulnerabilidade agrava riscos
Mas os especialistas fazem uma ressalva importante: nem todo fenômeno natural precisa se transformar em desastre. “Se não existe população vulnerável, não existe desastre”, resume o coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Enrique Seluchi, ao explicar que a tragédia acontece quando um evento natural encontra comunidades expostas e sem estrutura de proteção.

Segundo ele, a missão do Cemaden é justamente antecipar esses riscos. O órgão mantém uma sala de monitoramento funcionando ininterruptamente, 24 horas por dia, alimentada por milhares de equipamentos espalhados pelo país. “Temos milhares de instrumentos que enviam informações a cada dez minutos. Utilizamos pluviômetros automáticos, radares meteorológicos, sensores de umidade do solo e estações que monitoram os níveis dos rios para produzir alertas cada vez mais precisos”, explica.
Hoje, aproximadamente 1.300 municípios brasileiros são monitorados continuamente. Quando há risco de desastre, o alerta é encaminhado às Defesas Civis municipais, responsáveis por decidir as medidas de proteção à população. “Nosso papel é entregar o melhor alerta possível, com a maior precisão e antecedência. A decisão de evacuar áreas ou acionar sirenes cabe às Defesas Civis locais”, afirma Seluchi.
O desastre não é a chuva
Essa visão também é compartilhada pelo pesquisador Lutiane Queiroz de Almeida, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), coordenador do Georisco e integrante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Desastres (Nuped). Para ele, muitas tragédias classificadas como “naturais” são, na verdade, consequência da forma como as cidades são ocupadas.
“Quando as lagoas de captação transbordam em Natal, no Rio Grande do Norte, por exemplo, não é um problema da chuva. É uma falha do ordenamento territorial da cidade. O mesmo acontece com os acidentes em falésias. O desmoronamento é um processo natural, mas é potencializado pela ocupação irregular e pela falta de fiscalização”, explica.
O pesquisador destaca que compreender essa diferença é fundamental para reduzir os riscos futuros. “Os desafios da seca, por exemplo, não são culpa do clima. Eles refletem nossa dificuldade de adaptação às limitações naturais do Semiárido”, acrescenta.
O Nordeste diante do novo El Niño
A previsão de um El Niño intenso preocupa pesquisadores porque pode ampliar justamente esses problemas já conhecidos da região Nordeste. Segundo o Cemaden, a tendência para os próximos meses aponta redução das chuvas, temperaturas acima da média e maior potencial para queimadas.
Para Almeida, o maior problema não está apenas no fenômeno climático. “O El Niño preocupa porque a maioria dos municípios brasileiros ainda não está preparada nem para responder aos eventos extremos, muito menos para preveni-los”, alerta. O pesquisador defende que estados e municípios invistam em Planos Municipais de Redução de Riscos (PMRR), capazes de identificar áreas vulneráveis e orientar investimentos preventivos.
Entre as regiões potiguares (RN) que exigem atenção estão os vales do Piranhas-Açu e do Apodi-Mossoró, municípios turísticos como Tibau do Sul e São Miguel do Gostoso, cidades do Seridó, além da Região Metropolitana de Natal.
Brasil sofre mais com água do que com terremotos
Enquanto o terremoto venezuelano despertou preocupação internacional, Seluchi lembra que esse tipo de fenômeno é extremamente raro no Brasil. “Em termos de terremotos, não existem registros de vítimas na história do Brasil”, afirma. Os maiores desafios brasileiros continuam sendo outros. “Os fenômenos que mais causam mortes são os deslizamentos de terra e as inundações”, destaca. Mesmo assim, o pesquisador lembra que eventos extremos como tornados, granizo e ciclones também podem ocorrer, embora com frequência muito menor que em países como os Estados Unidos.

Na avaliação dos pesquisadores, o maior desafio brasileiro continua sendo cultural. “No Brasil temos muito mais uma cultura do desastre do que uma cultura da prevenção”, afirma Almeida. Para o professor, muitos municípios ainda aguardam que a tragédia aconteça para somente depois buscar recursos públicos. Já Seluchi reforça que investir em tecnologia, monitoramento e planejamento urbano custa muito menos do que reconstruir cidades após grandes eventos extremos.
Com as mudanças climáticas tornando secas, chuvas intensas e ondas de calor cada vez mais frequentes, a ciência deixa um recado claro: os fenômenos naturais continuarão acontecendo. A diferença entre um evento da natureza e uma tragédia humana dependerá, cada vez mais, da capacidade de antecipar riscos, planejar cidades e proteger as pessoas.
João Câmara: a memória sísmica do RN
Embora o Brasil esteja distante das principais placas tectônicas, o Rio Grande do Norte guarda um dos episódios sísmicos mais marcantes da história do país. Em 1986, uma sequência de abalos atingiu o município de João Câmara (80 km de Natal). “A cidade experimentou eventos importantes que provocaram destruição e muito pânico. João Câmara perdeu metade de sua população naquela época e só voltou a crescer economicamente com a chegada dos investimentos em energia eólica”, recorda o coordenador do Georisco. O episódio demonstra que, mesmo em regiões consideradas geologicamente estáveis, o monitoramento científico permanece indispensável.
Gostou desta matéria? Apoie você também este projeto de divulgação científica. Considere apoiar com um pix de R$ 10 para contato@nossaciencia.com










Entre na discussão