Projetos de engorda de praias têm se tornado frequentes no litoral brasileiro. Um dos exemplos é a intervenção realizada na Praia de Ponta Negra, em Natal (RN), onde milhões de metros cúbicos de areia foram adicionados para conter o avanço do mar. (Foto: Magnus Nascimento / PMN)

Microalgas revelam impactos invisíveis de obras costeiras e podem ajudar a proteger o litoral brasileiro

As microalgas marinhas, organismos microscópicos que sustentam a base da cadeia alimentar dos oceanos, podem se tornar importantes aliadas na avaliação dos impactos provocados por grandes intervenções costeiras. Pesquisa desenvolvida pela oceanógrafa Andréa de Oliveira da Rocha Franco, do Programa de Pós-graduação em Ciências Marinhas Tropicais do LABOMAR – UFC e bolsista de pós-doutorado do Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Regional – PDCTR, financiada pela FUNCAP e CNPq, identificou que uma espécie de diatomácea responde rapidamente às alterações causadas por obras como dragagens e engordas de praias, podendo funcionar como um eficiente bioindicador ambiental.

O estudo, publicado hoje na revista científica Biota Neotropica, analisou 130 amostras de fitoplâncton coletadas em diferentes ambientes marinhos do Ceará, incluindo estuários, zonas de arrebentação e áreas da plataforma continental. Desse total, 69 amostras foram obtidas em locais submetidos a intervenções humanas relacionadas a obras costeiras.

Espécies bioindicadoras podem indicar a ocorrência de impactos antrópicos e ajudar a compreender quanto tempo esses efeitos permanecem no ambiente.

Observação do fenômeno

Os resultados mostraram que a microalga Asterionellopsis tropicalis apresentou aumento significativo de densidade durante atividades de dragagem e engorda de praias. O fenômeno esteve associado à redução da transparência da água, provocada pela ressuspensão de sedimentos do fundo marinho.

“A densidade de Asterionellopsis tropicalis aumentou durante obras de dragagem e engorda de praia, associada à redução da transparência da água e ressuspensão de sedimentos. Isso indica que a espécie pode ser utilizada como um indicador biológico dos impactos causados por essas intervenções”, explica a pesquisadora.

Segundo a oceanógrafa, as obras costeiras alteram temporariamente as condições naturais do ambiente marinho. Durante a movimentação dos sedimentos, células da microalga que permaneciam depositadas no fundo retornam à coluna d’água, encontrando condições favoráveis ao seu desenvolvimento. “A espécie já é naturalmente adaptada a ambientes com alta turbidez. Quando os sedimentos são revolvidos pelas obras, ocorre um aumento da sua presença na coluna d’água, tornando possível identificar essas alterações ambientais por meio do monitoramento biológico”, destaca.

Impacto das engordas de praias

Nos últimos anos, projetos de engorda de praias têm se tornado frequentes no litoral brasileiro como estratégia para conter processos erosivos e ampliar faixas de areia. Um dos exemplos mais conhecidos é a intervenção realizada na Praia de Ponta Negra, em Natal (RN), onde milhões de metros cúbicos de areia foram adicionados para conter o avanço do mar.

Cadeia de células da diatomácea Asterionellopsis tropicalis obtida com microscópio óptico. Fonte: Andréa Franco

No Ceará, as Praias de Iracema e Meireles, ambas localizadas na capital Fortaleza, também passaram por intervenções semelhantes ou por obras de dragagem associadas a portos e estruturas costeiras. Embora consideradas importantes para a proteção urbana e turística, essas ações provocam alterações temporárias nos ecossistemas marinhos, especialmente pela suspensão de sedimentos e pela redução da entrada de luz na água.

É justamente nesse contexto que o estudo ganha relevância. Ao identificar organismos capazes de responder rapidamente às mudanças ambientais, os pesquisadores ampliam as ferramentas disponíveis para avaliar os efeitos dessas obras e subsidiar decisões de gestão costeira.

Sentinelas do oceano

O fitoplâncton, conjunto de microalgas que vive em suspensão na água, é considerado um dos melhores indicadores da saúde dos ecossistemas marinhos. Além de responder rapidamente às mudanças ambientais, ele desempenha papel fundamental na produção de oxigênio e na sustentação das cadeias alimentares oceânicas.

Oceanógrafa Andrea Franco

“O fitoplâncton é o principal produtor primário marinho. Alterações nessas comunidades podem afetar toda a cadeia alimentar, inclusive recursos pesqueiros de importância econômica e social”, ressalta Franco. A pesquisadora destaca que ainda não existe um monitoramento sistemático e permanente das microalgas ao longo da costa cearense. Atualmente, as avaliações costumam ocorrer apenas durante obras de engenharia ou em programas específicos de monitoramento portuário.

Além de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade marinha da região, o estudo abre caminho para a criação de indicadores biológicos capazes de acompanhar a intensidade e a duração dos impactos provocados por atividades humanas no litoral.

“Esperamos contribuir de forma prática para a gestão costeira. Espécies bioindicadoras podem indicar a ocorrência de impactos antrópicos e ajudar a compreender quanto tempo esses efeitos permanecem no ambiente”, afirma.

Os próximos passos da pesquisa incluem investigar como a espécie responde à presença de metais e outros contaminantes, além de ampliar os estudos para outras microalgas capazes de indicar diferentes tipos de estresse ambiental. A expectativa é formar, no futuro, um conjunto de bioindicadores que permita avaliações mais amplas e eficientes dos impactos ambientais provocados por obras de engenharia costeira, fortalecendo estratégias de conservação dos ecossistemas marinhos do Nordeste brasileiro.

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