Ser um ser pensante não nos exclui da natureza Coluna do Jucá

quinta-feira, 15 março 2018
Existem muitas evidências acerca do lugar do homem na natureza.

A inserção científica do homem no mundo animal provocou uma verdadeira revolução intelectual com implicações que perduram até hoje

A revolução darwiniana iniciada após a publicação, em 1859, da grande obra-prima de Darwin, A Origem das Espécies, forçou as pessoas a encararem o fato de que os seres humanos não estão apenas inseridos na natureza. Pelo contrário, são integrantes da mesma, embora muitos relutem em fazê-lo. No entanto, ao se considerar as características tidas como especiais do Homo sapiens, não tem sido fácil para muitos indivíduos da nossa espécie admitir tal condição, mesmo na atualidade, diante de todos os avanços da paleontologia, da genômica, da bioquímica, da genética, da etologia, da antropologia, da neurociência, da imunologia e de muitas outras áreas do conhecimento humano. A inserção científica do homem no mundo animal provocou uma verdadeira revolução intelectual com muitas implicações filosóficas, teológicas, religiosas, culturais, científicas e sociais que perduram até hoje. A nossa ascendência simiesca atrelada às ideias de ancestralidade comum, descendência com modificações, variação populacional e de seleção natural, todos a título de exemplo, só corroboraram para o ineditismo causado por essa revolução na história da humanidade.

Ainda no século XIX, Thomas Henry Huxley (foto), amigo e grande defensor das ideias de Charles Darwin publicou um livro (1863) intitulado Evidencias quanto ao Lugar do Homem na Natureza. Esse livro reiterou por meio de evidências de anatomia comparada e embriologia a relação estreita compartilhada entre humanos e os grandes macacos, embora, na época, as evidências fósseis acerca dessa relação ainda não tivessem vindo à tona. Mas afinal, quais seriam essas características especiais associadas ao Homo sapiens?

O tamanho do cérebro, considerado grande em comparação com o de outros animais, certamente é uma dessas características especiais, que ajudou a conferir a nossa espécie, um aspecto tão peculiar do ponto de visto cognitivo. Essa estrutura complexa mesmo associada a um alto custo energético de funcionamento, a um peso elevado – potencializado ainda mais pela caixa craniana – e de desenvolvimento lento e tardio, certamente ajudou-nos a divergir do nosso último ancestral comum compartilhado com os chipanzés, por exemplo. A nossa história evolutiva aliada aos inúmeros estudos científicos, dentre os quais aqueles com os organismos modelos, têm lançado luz sobre essa nossa máquina de ideias e pensamentos, embora muitos dos mecanismos relacionados ao desenvolvimento do cérebro humano ainda permaneçam desconhecidos.

Ascendência simiesca!

Um dos exemplos marcantes de mudança dessa máquina refere-se ao desenvolvimento cognitivo (comunicação, aprendizagem e memória), pelo qual as crianças passam durante a primeira infância. Não é preciso ser um pediatra, psicólogo ou neurocientista para constatá-las: basta observar um filho, um sobrinho, um enteado, enfim, uma criança durante os três primeiros anos de vida. O grau de cuidados exigidos durante a gestação e nos primeiros anos de vida da nossa espécie deve ser proporcional à magnitude das mudanças alçancadas durante esse período de revolução cognitiva alcançada por meio de um intenso e complexo desenvolvimento neurológico. Todo esse cuidado parental exigido nos primeiros anos de vida certamente nos torna singulares, quando comparado ao restante do mundo animal.

Os níveis atuais de poluição do ar representam um imenso problema de saúde pública

Considerando-se esse contexto, os níveis atuais de poluição do ar representam um imenso problema de saúde pública. Os danos decorrentes dessa poluição representam uma grave ameaça à saúde das pessoas, em especial nos primeiros anos de vida, quando o desenvolvimento neurológico adequado do cérebro é uma condição imprescindível. Isso sem considerar a sua maior vulnerabilidade frente à exposição de toxinas. Como consequência, alguns estudos têm alertado para o número crescente de evidências correlacionando alterações no desenvolvimento neurológico à exposição da poluição do ar nos primeiros anos de vida. Um estudo recente publicado na revista científica Biological Psychiatry revelou uma relação entre a exposição a partículas finas oriundas da poluição do ar durante a vida fetal e alterações neurológicas em crianças. O estudo alerta que estas alterações podem contribuir para a redução da capacidade cognitiva das crianças em idade escolar, o que pode inclusive desencadear consequências significativas a longo prazo.

A mente humana desafia tantos prognósticos, mesmo os mais crueis.

É difícil imaginar que a nossa espécie, tida ainda para alguns como o ápice da criação e, portanto, não integrante da natureza, arque com prejuízos logo após a sua concepção, que possivelmente comprometam aspectos referentes às nossas características tão especiais: o nosso desenvolvimento cerebral e a nossa capacidade cognitiva. Essa nossa presunção frente à natureza nos faz esquecer como os milhares de anos de evolução moldaram máquinas tão fascinantes e complexas como a mente humana. Pensando nisso, não há como não fazer referência, por exemplo, a uma mente tão brilhante como foi a do insquecível físico Stephen Hawking. O caso emblémático desse cientista mostrou que a mente humana não apenas é capaz de desafiar um prognóstico de saúde grave e irreversível, mas também de viajar aos confins do universo para entender os buracos negros, por exemplo, ou ainda de ser capaz de divulgar a ciência para o grande público como poucos. Os livros Uma Breve História do Tempo, O Universo Numa Casca de Noz e mais recentemente, Buracos Negros atestam o brilhantismo dessa mente.

Ao encerrar esse texto parafraseando os versos da letra da música Opinião de Nara Leão, que foi eternizada na voz da memorável Clara Nunes “Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer ou ainda podem estampar na capa da revista, que eu não mudo de opinião” pode ser que o leitor ache que o meu desenvolvimento neurológico foi afetado em algum momento durante a redação desse texto, até prefiro que pensem assim. Mas nesse caso, é melhor do que mudar opinião!

 

 

Referências

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Thiago Jucá

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